Coronavírus

105 anos de histórias que já não lhe apetece contar

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

Ontem conheci a dona Joaquina Jesus. Nasceu em 1915. As contas são fáceis de fazer. A gripe espanhola aconteceu poucos anos depois dela ter nascido.

Especial Coronavírus

A dona Joaquina passou por essa e outras pandemias que viriam; mais as duas grandes guerras. Hoje, esta mulher, está a passar, incólume, mais uma vez, pela nova doença que assola a humanidade.

São 105 anos de histórias que já não lhe apetece contar.

As palavras enfraquecidas pelo tempo, confundem-se com o ar dos frágeis pulmões. Cada palavra é um pequeno sopro, por isso, a proximidade da Andreia e do enfermeiro Filipe é a única forma de poderem falar-lhe e ouvi-la.

A hora do lanche, no Lar do Recolhimento Jesus Maria José, em Angra do Heroísmo, desperta a dona Joaquina, que mesmo de olhos fechados, deu por nós no quarto que partilha com a filha de 78.

Os olhos já se abrem pouco, mesmo que seja para a fotografia. Mas fiquei com a certeza que estava a ver tudo o que se passava.

Conhece todos os que trabalham no lar, e a memória ainda não a atraiçoa. Atraiçoa-a a paciência. E porque não? Conhecida por ser uma mulher de ímpeto vincado, de repente, fez jus à fama e mandou-nos, a todos, embora do quarto quando lhe apeteceu. Porque lhe apeteceu. Os técnicos deram uma gargalhada, porque é sempre assim, dizem eles; garantem que é uma atitude carinhosa e bem humorada. Ninguém precisou de sair.

Habituada a receber as visitas diárias dos familiares, a pandemia deixou a dona Joaquina, e os cinquenta e cinco utentes daquela casa sem esta rotina que é fundamental para quem está acamado e precisa de conforto e distracção.

A família voltará, tudo voltará ao normal quando a doença do mundo passar.

Gostava de fotografar a dona Joaquina, outra vez, no dia 28 de Janeiro de 2021, o dia em que soprará as velas pela centésima sexta vez.

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