Coronavírus

Maioria dos africanos "passa fome em bloqueio de 14 dias"

Siphiwe Sibeko

Mais de dois terços dos inquiridos, em 20 países africanos, admitiram que ficariam sem comida e água se o país entrasse em isolamento por 14 dias. Mais da metade disseram que ficariam sem dinheiro.

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A pesquisa foi conduzida pelos Centros de África para o Controlo e Prevenção de Doenças, no sentido de ajudar os governos a traçar políticas futuras de combate ao coronavírus.

As conclusões, publicadas agora, lançam um alerta: se as medidas não forem adaptadas às necessidades locais, existe o risco de agitação social e violência.

A constatação coloca os governos perante um dilema.

"Os países precisam de encontrar um equilíbrio entre reduzir a transmissão e impedir interrupções sociais e econômicas", lê-se no documento.

Perante a dificuldade em manter políticas rígidas de bloqueio nos países do continente africano, muitos são os governos que começaram já a aliviar as restrições.

"A proliferação de protestos pacíficos, que exigem ajuda do governo, é uma evidência da tensão que algumas pessoas já estão a sofrer, e destaca lacunas nas respostas atuais", diz o relatório.

Apesar disso, concluem os autores, parece haver um apoio geral às medidas que tinham sido implementadas. A oposição cresce quando o que está em causa é o encerramento de locais de trabalho e de mercados. Isto porque, de acordo com as respostas obtidas, nesse cenário a maioria das famílias, mais pobres, afirma que ficariam sem comida, e sem dinheiro, em menos de uma semana.

De acordo com a BBC, na Nigéria e no Quênia, por exemplo, há relatos de que a fome nas áreas urbanas terá levado muitas pessoas a violar os pedidos de estadia em casa.

Conclusões que estão em linha com a história que, na semana passada, ficou viral. Uma viúva queniana foi encontrada a cozinhar pedras para os seus oito filhos para fazê-los acreditar que estava a preparar comida para eles. "Eu não podia fazer nada porque não tinha nada", justificava.

Os pesquisadores recomendaram que os governos comuniquem de maneira mais eficaz com os cidadãos, e que os informem adequadamente sobre os motivos por trás das medidas que estão a ser adoptadas.

"O que aprendemos com o Ébola e outros surtos é que os países precisam descentralizar a resposta ao nível da comunidade, e aumentar a capacidade de identificar e diagnosticar casos", explica Matshidiso Moeti, diretor da Organização Mundial de Saúde (OMS) África, que ordenou a pesquisa.

Até agora, África registou quase 50 mil casos de Covid-19, com pouco menos de 2.000 mortes.

O relatório alerta ainda para o facto de que, embora o número de casos permaneça baixo, os países do continente tenham de "desenvolver a capacidade de saúde pública para testar, rastrear, isolar e tratar os casos", como condição necessária para reabrir a sociedade.

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