Coronavírus

Covid-19. Virologista diz que Europa tem lições a aprender com África

Themba Hadebe / AP

As declarações do diretor da London School of Hygiene & Tropical Medicine, que elogiou a resposta africana à pandemia.

Especial Coronavírus

O diretor da London School of Hygiene & Tropical Medicine, Baron Peter Piot, elogiou esta segunda-feira a resposta africana à pandemia de covid-19, defendendo que a Europa tem lições a aprender com África.

"Em relação há cinco anos, quando houve uma grande epidemia de Ébola na África Ocidental, o continente está hoje muito mais bem preparado e isso faz toda a diferença. Há instituições mais fortes, há o África CDC, houve uma ação precoce e uma reação rápida, antes mesmo de a pandemia se tornar um problema", disse Baron Peter Piot.

"É um contraste com a maioria dos países europeus que esperaram para agir. Só agiram depois de muita gente ter morrido. Na Europa, podemos aprender lições com o que aconteceu em África", acrescentou.

O virologista belga, responsável pela co-descoberta do vírus do Ébola, na década de 1970, no então Zaire, falava esta segunda-feira durante a conferência do Financial Times sobre África, este ano em formato virtual, num painel sobre os desafios médicos em África no contexto da pandemia de covid-19.

A receita do sucesso africano

No mesmo painel, o diretor do Centro de Prevenção e Controlo de Doenças da União Africana (África CDC), John Nkengasong, que lidera a luta contra a pandemia no continente, enunciou o que considera ser a receita do sucesso africano.

Para John Nkengasong, o êxito da resposta africana ficou a dever-se a uma conjugação de reação rápida e precoce, liderança política da União Africana, atualmente presidida pela África do Sul, e resposta da comunidade, que, segundo o virologista camaronês, adotou muito cedo o uso generalizado de máscara.

"Quando o primeiro caso de covid-19 foi registado a 14 de fevereiro no Egito, o continente agiu muito rapidamente e reuniu todos os ministros da Saúde do continente em Adis Abeba e o resultado dessa reunião representou um ponto de viragem porque fez soar os alarmes e colocou o continente em estado de alerta", disse o diretor do África CDC.

John Nkengasong apontou importância dos confinamentos "muito estritos", com alguns países a decretarem medidas restritivas mesmo antes de notificados os primeiros casos.

Por outro lado, assinalou, houve "um alinhamento total" entre as lideranças políticas com as medidas de saúde pública, algo "sem precedentes" no continente.

Os dois virologistas apontaram, por outro lado, a juventude da população africana como um fator a ter em conta.

África regista mais de 38 mil mortos

Os 55 Estados-membros da União Africana registam 1.577.644 casos de covid-19 desde o início da pandemia e 38.396 mortes associadas à doença, apresentando uma taxa de recuperação na ordem dos 80%, sendo que entre 83 e 85% dos casos são assintomáticos.

A constituição genética ou uma possível imunização cruzada com outros coronavírus que circulam no continente são fatores que os dois virologistas admitem possam ter tido alguma influência, no entanto, ressalvam que estas são questões ainda em estudo e sobre as quais não há certezas.