Coronavírus

1 ano de Covid-19. O que mudou num mundo a meio gás

MANUEL FERNANDO ARAÚJO

Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

O primeiro doente foi identificado há um ano com uma pneumonia viral desconhecida, na cidade chinesa de Wuhan. Um ano depois, morreram mais de um milhão de pessoas e ficaram infetadas mais de 55 milhões. A máscara e o álcool gel passaram a fazer parte da vida de todos. Os beijos e os abraços ficaram em suspenso.

Especial Coronavírus

O mundo mudava no final de dezembro de 2019 quando foi anunciado o primeiro caso de uma pneumonia viral desconhecida. Mas o governo chinês diz que foi a 17 de novembro, há precisamente um ano, que foi identificado o primeiro doente. O mundo mudava, mas estava longe de imaginar o que estava para vir. Um ano depois, foram infetadas mais de 55 milhões de pessoas no mundo. Morreram mais de um milhão de doentes infetados. Mas também recuperaram mais de 38 milhões. O vírus ultrapassou fronteiras, oceanos e chegou a todos os continentes. Os Estados Unidos, a Índia e o Brasil são os países com mais casos confirmados. Logo a seguir está França, na Europa.

O DESCONHECIDO

Foi no último dia de 2019 que o gabinete da Organização Mundial de Saúde da China deu a notícia: mais de 20 pessoas foram diagnosticadas com uma pneumonia desconhecida em Wuhan, na província de Hubei, na China. No dia seguinte, foi encerrado um mercado da cidade. A suspeita vinha de lá. Todos os doentes tinham ligação ao local e os mesmos sintomas: febre, arrepios e dores no corpo. Dias depois, o número de casos subiu.

A causa veio logo a seguir: um novo tipo de coronavírus. Sabe-se agora que é o SARS-CoV-2. Nos dias seguintes, o vírus alastrou para outras províncias chinesas e foram diagnosticados os primeiros casos fora da China. Primeiro na Tailândia, depois no Japão.

Em Portugal, a diretora-geral da Saúde falou pela primeira vez sobre o novo coronavírus a 15 de janeiro, quando a propagação em massa ainda não era uma hipótese. O surto estaria contido, segundo Graça Freitas. No entanto, continuavam a surgir novos casos noutros países além da China.

Nos Estados Unidos, a 21 de janeiro, apareceu um doente que tinha regressado da cidade de Wuhan. No dia seguinte, em Macau. Nessa altura, a cidade de Wuhan foi isolada do resto do mundo. Os voos e as viagens de comboio foram cancelados. Os Estados Unidos proibiram a entrada de estrangeiros que tivessem estado na China.

Os alarmes começaram a soar. Os portugueses que quiseram ser repatriados de Wuhan chegaram a Portugal no dia 2 de fevereiro. Em Portugal, os telejornais davam ao mesmo tempo a chegada. Não se sabia se vinham infetados. Afinal, vinham da cidade onde tinham sido confirmados os primeiros casos de um vírus desconhecido.

Eram 20h24 quando o C-130 da Força Aérea portuguesa aterrou na Base Aérea de Figo Maduro, em Lisboa. Fizeram uma viagem de 17 horas, com uma paragem na cidade francesa de Marsellha.

O grupo de 18 portugueses foi sujeito a testes. Depois disso, os portugueses podiam optar por ficar em quarentena no Hospital Pulido Valente, em Lisboa, ou no Hospital Militar do Porto, ou por regressar a casa. Todos testaram negativo, mas escolheram ficar em isolamento voluntário durante 14 dias.

Por esta altura, o coronavírus tinha chegado a mais de 20 países. O Centro Europeu de Controlo das Doenças pedia aos estados-membros da União Europeia para adotarem medidas "rigorosas" para o controlo do vírus.

COVID-19 CHEGA À EUROPA

Na Europa, os primeiros casos foram confirmados em França, no final de janeiro, ambos importados: dois homens que tinham regressado da China por esses dias. Um deles era de Bordéus e o outro de Paris.

No início de fevereiro, surgiu o primeiro caso em Espanha, um dia depois do avião que repatriou os espanhóis da cidade de Wuhan ter aterrado em Madrid. O homem foi internado no Hospital de la Gomera. Ao mesmo tempo surgiam os primeiros casos surgiam no Reino Unido também.

Quando a maioria dos infetados ainda eram chineses, a segurança nos aeroportos, estações de comboios e hospitais era reforçada para controlar a propagação do vírus. As desinfeções eram minuciosas e frequentes.

No entanto, foi em Itália a situação mais preocupante no continente europeu durante alguns meses. O primeiro caso foi registado a 31 de janeiro. No início de março, foram encerradas todas as escolas e universidades. Um mês depois, Itália era o quarto país do mundo com mais casos confirmados: quase 4 mil.

O aumento repentino do contágio em Itália foi um dos alertas para uma "eventual pandemia". Por esta altura, começavam as restrições noutros países europeus. A Suíça proibiu eventos com mais de mil pessoas. As autoridades alemãs suspenderam a Feira Internacional de Turismo de Berlim. O governo francês cancelou todas as concentrações com mais de 5 mil pessoas em espaços fechados e alguns eventos ao ar livre.

Dias depois da Organização Mundial de Saúde reconhecer a propagação da Covid-19 como uma pandemia, considerava a Europa o caso mais preocupante. Itália ultrapassou a China como o país com o maior número de mortes pela infeção. Pouco, depois os Estados Unidos.

Recentemente, com os casos diários em Itália a ultrapassarem os 30 mil infetados, dia após dia, o Governo italiano decretou o recolher obrigatório entre as 22h00 e as 5h00 até dia 3 de dezembro. Os teatros, cinemas, ginásio e piscinas foram encerrados. O horário da restauração está reduzido.

O país está dividido em três zonas - vermelha, laranja e amarela - consoante as áreas mais afetadas. A pressão nos hospitais continua a aumentar, com mais de 35 mil pessoas internadas. A região da Lombardia, à semalhança da primeiro vaga, continua a ser a que tem maior número de infetados. Em itália, já morreram mais de um milhão de pessoas devido à pandemia.

A PANDEMIA

A 30 de janeiro, a Organização Mundial de Saúde declarou o vírus como um caso de emergência de saúde pública internacional. A 11 de fevereiro deu o nome de Covid-19 à infeção provocada pelo novo coronavírus.

No dia 23, foi confirmado o primeiro caso de um português infetado: Adriano Maranhão, canalizador no navio Diamond Princess, atracado no porto de Yokohama, no Japão. Nesta altura, vários países confirmaram os primeiros infetados. Foram os casos da Grécia, Holanda, Paquistão e México.

O aviso chegou da Organização Mundial de Saúde: o mundo tinha de se preparar para uma eventual pandemia. Dias depois, o nível de ameaça foi aumentado para "muito elevado". No dia 11 de março, foi declarado como uma pandemia:

"Estamos profundamente preocupados com os níveis alarmantes de disseminação e gravidade e com os níveis alarmantes de inação. Fizemos, portanto, a avaliação de que o Covid-19 pode ser caracterizado como uma pandemia."

COVID-19 CHEGA A PORTUGAL


O vírus ainda não tinha chegado a Portugal quando, no final de fevereiro, a Direção-Geral da Saúde apresentava orientações às empresas para regras de higiene e procedimento em casos suspeitos. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro apelava a medidas de prevenção.

Foi no dia 2 de março que foram confirmados os dois primeiros casos de Covid-19 em Portugal. A ministra da Saúde, Marta Temido, anunciou que um eram dois homens, ambos do Porto. Um deles, de 60 anos, tinha estado em viagem no norte de Itália e o outro, de 33 anos, tinha uma ligação epidemiológica a Valência, em Espanha.

As visitas a hospitais, lares e estabelecimentos prisionais no Norte do país foram suspensos e o Governo recomendou o adiamento de eventos sociais. Os casos cresciam em Portugal e os eventos iam sendo cancelados. A 12 de março, as aulas presenciais nas escolas foram suspensas, assim como os jogos da I e II Liga, as discotecas encerradas e os restaurantes tiveram de reduzir a lotação. Foi o início de novos hábitos.

A 16 de março morreu a primeira pessoa em Portugal por infeção da Covid-19: um homem de 80 anos com outras doenças associadas. Dois dias depois, à medida que o número de infetados aumentava, foi decretado Estado de Emergência em Portugal. Confinados em casa, ambiente era de receio de sairem à rua.

O país passou a funcionar a meio gás. As escolas fecharam, muitos funcionários públicos passaram a trabalhar em casa, em regime de teletrabalho, diretamente da sala, do quarto ou do escritório da própria casa, e a partir daí o país e os portugueses entraram numa bola de neve. Os convívios de amigos passaram a ser por zoom ou por skype. As estradas ficaram sem trânsito e as ruas sem pessoas.

A economia quase parou. Muitas empresas recorreram ao regime de lay-off simplicado definido pelo Governo. No primeiro trimestre do ano, o Produto Interno Bruno caiu 16,5% face ao mesmo período de 2019.

Por esta altura, multiplicaram-se as medidas de apoio às famílias e às empresas. A nível mundial, setores inteiros ficaram paralisados.

A telescola passou a ser o dia a dia dos jovens até ao 9.º ano. À escola, iam apenas os alunos do ensino secundário, com uma condição: uso de máscara obrigatório.

Pouco depois veio o alívio: Portugal passa para situação de calamidade até ao final de maio, com o regresso de algumas atividades. O pico da pandemia em Portugal tinha passado.

A área metropolitana de Lisboa passou a ser a região com mais infetados e, por isso, teve restriçoes específicas, como a limitação dos ajuntamentos até 10 pessoas e os centros comerciais e lojas do cidadão encerrados mais tempo.

O país passou a ter restrições mais apertadas em datas específicas, como a proibição de circular para fora do concelho de residência na Páscoa e a proibição de festas, arraiais e a venda de bebias alcoólicas em bombas de gasolina na altura de Santos Populares. Os cafés, pastelarias e quiosques tiveram de encerrar até às 19 horas e os restaurantes até às 24 horas.

Os meses passaram e com eles surgiu um "novo normal". Depois de um confinamento, os portugueses puderam respirar, ainda que por pouco tempo, com o alívio das restrições. Muitos funcionários voltaram aos locais de trabalho. Outros, foram de férias, mesmo que em Portugal.

À entrada de espaços fechados passou a haver álcool gel para as pessoas desinfetarem as mãos. No chão, circuitos de circulação. Os beijos e abraços entre amigos e familiares afastados eram cada vez menos. Nas praias, além de haver lotação máxima permitida, foi imposto o distanciamento físico.

Os surtos em lares de idosos de todo o país marcaram a pandemia nos meses de verão, com os números de infetados triplicarem. Houve tensão entre o primeiro-ministro e a Ordem dos Médicos a propósito do lar de Reguengos de Monsaraz, onde morreram 18 idosos.

Nos últimos meses, foram registados centenas de casos de Covid-19 em lares de idosos, entre utentes e funcionários das instituições.

SEGUNDA VAGA

Na Europa, vários países atingem diariamente novos máximos de infeções. Os hospitais estão em rutura e os governos apertam as restrições. Na última semana de outubro, foram registados mais de um milhão de casos positivos só numa semana.

Em Portugal, há diferenças relevantes entre a primeira e a segunda vaga. Quem o disse foi Graça Freitas, a diretora-geral da Saúde. É o caso das idades: agora a maioria dos infetados são pessoas entre os 20 e os 50 anos. Quanto aos internamentos, os doentes ficam cada vez menos tempo no hospital. A explicação está no maior conhecimento dos profissionais de saúde em relação à doença e aos tratamentos.

Em outubro, foram feitos 10 vezes mais testes em Portugal do que em março, segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge.

Este mês, o país atingiu - durante vários dias - novos máximos no número de infetados e de mortes por Covid-19. Agora, as autoridades de saúde procuram um conjunto de sintomas mais específico - a perda de olfato e de paladar - que vai além dos mais comuns, como o cansaço e as dores musculares.

Portugal é dos poucos países em que a segunda vaga está a matar mais do que a primeira, que decorreu entre março e maio. A diretora-geral da Saúde diz que não é possível prever o pico da segunda vaga.

COVID-19 UM ANO DEPOIS

Um ano depois do primeiro caso ter sido registado, Portugal está em estado de emergência, pelo menos até 23 de novembro, com 191 concelhos considerados de risco elevado de transmissão de covid-19. Para esses concelhos, é proibido circular na rua entre as 23h00 e as 5h00 da manhã durante a semana e a partir das 13h00 no fim de semana.

Dos espaços fechados, a máscara passou para os espaços ao ar livre. Já assim era noutros países europeus, como Espanha e França. O uso de máscara é agora obrigatório na rua para pessoas com mais de 10 anos sempre que não seja possível cumprir o distanciamento físico recomendado. Quem não cumprir está sujeito a multas que podem ir até aos 500 euros.

BI SINAVE, uma plataforma mais avançada de vigilância da Covid-19 em Portugal

Esta segunda-feira, dia 16 de novembro, a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, anunciou que entrou em funcionamento a plataforma BI SINAVE. Em conferência de imprensa, explicou que se trata de uma nova plataforma de vigilância da pandemia em Portugal, necessária devido à "atividade epidemiológica intensa".

"Resulta do trabalho conjunto entre equipas da Direção-geral da Saúde e dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde. Constitui um melhoramento ao Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica a pensar no futuro", acrescentou, explicando que inclui os dados na base de dados de forma "mais correta e atempada".

Graça Freitas disse também que se trata de um sistema mais avançado e robusto para o tratamento dos dados e para o visionamento da informação relevante que permite recolher um volume cada vez maior de dados e comunicar a informação de forma mais rápida e com maior qualidade e detalhe. Acrescentou que se destina ao cidadão, às autoridades, à academia e a decisores políticos.

A responsável avançou também que, com o BI SINAVE, foi possível identificar 225.672 casos de Covid-19 em Portugal, cujos 1,9% foram completados e incluídos no novo sistema, e 142.155 pessoas recuperadas desde o início da pandemia.

Primeiro caso

O primeiro caso foi identificado e anunciado ao mundo no final de dezembro de 2019. A China veio depois dizer que o primeiro caso, afinal, tinha sido detetado a 17 de novembro desse ano. Neste momento existem diferentes teorias sobre a origem e a data em que o vírus começou a circular.

Especialistas da Universidade de Barcelona encontraram vestígios do SARS-CoV-2 em amostras de esgoto recolhidas em março de 2019. Em junho deste ano, a Universidade de Harvard surgeriu que o vírus estaria em circulação na China em agosto de 2019.

Mais recente é um estudo de uma fundação italiana, com sede em Milão, responsável pela investigação e tratamento de doentes com cancro, que revelou que o vírus circulava em Itália desde setembro do ano passado, quase meio antes do primeiro caso ser registado no país. Forma feitos testes a quase mil pessoas com cancro do pulmão, entre setembro de 2019 e março de 2020. Em mais de 11% foi detetato anticorpos contra a Covid-19.

Vacina para a Covid-19 da Moderna

A farmacêutica norte-americana Moderna Inc anunciou esta segunda-feira, dia 16 de novembro, que a vacina contra a Covid-19 desenvolvida tem 94,5% de eficácia na prevenção da doença.

Foi feita uma primeira avaliação da fase 3 dos ensaios clínicos, a última antes do pedido de aprovação. Mais de 30 mil voluntários participaram no ensaio. No grupo dos vacinados, nenhum ficou doente com gravidade.

A farmacêutica Moderna diz que os resultados são encorajadores e que são um marco "muito importante na luta contra a pandemia".

AVANÇOS NA VACINA E TRATAMENTO CONTRA A COVID-19

Na segunda semana de novembro várias boas notícias foram chegando sobre os avanços no desenvolvimento de uma vacina contra o SARS-CoV-2, bem como um tratamento novo.

► A farmacêutica norte-americana Pfizer anunciou na segunda-feira que a sua vacina contra a Covid-19 alcançou 90% de eficácia nos testes.

► Nesse mesmo dia 9 de novembro, o porta-voz do ministro da Saúde da Rússia veio assegurar que a vacina que está a ser desenvolvida no país - a Sputnik V - tem uma taxa de eficácia superior a 90% e no dia seguinte Putin garantiu que "todas as vacinas russas contra a Covid-19 são eficazes"

► Ainda nesse dia, o ensaio clínico da potencial vacina CoronaVac da chinesa Sinovac foi suspenso no Brasil devido a "efeito adverso grave.", embora a empresa chinesa reafirme a confiança no produto, indicando que o efeito secundário não está relacionado com a vacina. Os testes foram retomados no dia 11.

► Na quarta-feira, a vice-Presidente russa anunciou que os testes clínicos da segunda vacina russa contra a Covid-19, a EpiVacCorona que está a ser desenvolvida pelo Instituto Vector, vão começar a 15 de novembro,

► Ainda na segunda-feira, mas já terça em Portugal, a agência norte-americana do medicamento (FDA) deu uma autorização de utilização de emergência e temporária de um medicamento experimental para a Covid-19 fabricado pela Eli Lilly, mas apenas para doentes com sintomas ligeiros ou moderados e não para hospitalizados a necessitar de oxigénio.

O tratamento experimental com anticorpos sintéticos é o primeiro especificamente desenvolvido para o novo coronavírus.

AS VACINAS MAIS PROMISSORAS NO COMBATE À COVID-19

Laboratórios por todo o mundo estão numa corrida contra o tempo para desenvolver uma vacina contra o novo coronavírus. Há dezenas de equipas a testar várias candidatas a vacina, algumas estão mais avançadas e são promissoras, mas os cientistas avisam que nenhuma deverá estar pronta antes do fim deste ano ou mesmo no próximo ano.

Segundo o London School of Hygiene & Tropical Medicine, (que tem um gráfico que mostra o progresso das experiências) há 259 projetos e 54 estão na fase de ensaios clínicos, sendo que 11 estão na fase III - que consiste na inoculação da vacina em milhares de voluntários a fim de determinar se impede de facto a infeção.

O projeto da Pfizer e da BioNTech é um dos mais promissores, a que se juntam os da Universidade de Oxford e a AstraZeneca, da Moderna, dos laboratórios Sanofi e GSK, de vários projetos chineses, nomeadamente da CanSinoBIO e a CoronaVac do laboratório SinoVac.

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