Coronavírus

Covid-19. "Temos de assumir de uma vez por todas que estamos a falhar, que não há milagre nenhum português"

Roberto Roncon e João Araújo Correia defendem que é preciso acabar com as contradições nas medidas e promover um confinamento geral.

Saiba mais...

A situação pandémica que se vive em Portugal, marcada pelos sucessivos dias com mais de 10 mil novos casos de covid-19, está a criar uma situação de pressão nos hospitais. António Costa anunciou, na semana passada, o regresso ao confinamento e, esta semana, retirou exceções à regra para apertar as medidas. Roberto Roncon, Médico Intensivista do Hospital de São João, considera que as decisões tomadas são erradas e tardias.

Nós estamos a tomar decisões erradas, decisões tardias, e falo aqui dos agentes políticos que estão a falhar redondamente daquilo que é a eficácia da mensagem que tem de ser passada, disse entrevista à Edição da Noite.

Refere-se por exemplo ao apelo que a Ministra da Saúde fez, esta terça-feira, na Assembleia da República que contrapõe com a grande fanfarra do início das campanhas de vacinação.

Com aquilo que é a epidemiologia desta infeção, e aquilo que está a acontecer na segunda e na terceira vagas, é óbvio que a vacinação não vai a tempo de evitar as piores consequências na segunda e terceira vagas. E todos nós, mais da área, sabemos disso incluindo os decisores políticos, explicou o intensivista que critica a capitalização e instrumentalização das boas notícias.

Para Roberto Roncon, é preciso acabar com as contradições e assumir de uma vez por todas que estamos a falhar, que não há milagre nenhum português, que a segunda e a terceira vaga nos vão tocar fundo e que o que vamos assistir nas próximas semanas são cenas de que não nos vamos orgulhar enquanto portugueses.

Também João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, defende que é preciso consciencializar as pessoas de que têm de ter medidas de confinamento, de forma a levarem o confinamento a sério. O especialista afirma que o confinamento é neste momento a única resposta capaz de aplanar a curva e diminuir os números e as mortes.

Sinceramente parece-me que e um bocadinho errado estarmos a dizer que vamos confinar diferente, isto é, vamos confinar a sério se realmente viermos a ter a nova estirpe inglesa, que é mais infetante. Nós não precisamos da nova estirpe inglesa para tomar decisões, porque neste momento nós já somos dos países do mundo se não o país do mundo com mais infetados por milhão de habitante e com mortos nestes níveis, sublinha.

João Araújo Correia defende mais medidas e menos exceções: “É evidente que o fecho das escolas para mais de 12 anos é absolutamente essencial, assim como é essencial acabarem com os mercados e as feiras, os estabelecimentos comerciais devem ser limitados aos bens essenciais alimentares e portanto não podemos deixar de dizer que sabe a pouco aquilo que agora foi feito.