Coronavírus

Demitiu-se Francisco Ramos, coordenador da task force da vacinação contra a covid-19

ANDRÉ KOSTERS

Renunciou ao cargo por irregularidades no processo de seleção de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha, do qual é presidente da comissão executiva.

O coordenador da task force da vacinação contra a covid-19, Francisco Ramos, renunciou esta terça-feira ao cargo.

Numa nota enviada às redações, o Ministério da Saúde refere que Francisco Ramos "(...) renunciou ontem ao cargo, por irregularidades detetadas pelo próprio no processo de seleção de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha, do qual é presidente da comissão executiva."

"O funcionamento da Task Force mantém-se assegurado pelos restantes membros do núcleo de coordenação", lê-se na nota.

"Não se reúnem as condições para me manter no cargo"

Num comunicado enviado à imprensa, Francisco Ramos afirma que depois de ter tomado conhecimento destas irregularidades, considerou que "não se reúnem as condições" para continuar no cargo.

"Assim, apresentei ontem, dia 2 de fevereiro de 2021, à Senhora Ministra da Saúde, a renúncia ao cargo.", conclui.

Na nota não há qualquer referência às restantes irregularidades, que se multiplicam diariamente.

Contactado pela SIC, Francisco Ramos afirma que não pretende fazer mais declarações. Perante a insistência da SIC, o Ministério da Saúde diz apenas que não haverá mais declarações, nomeadamente em relação à própria equipa que coordena a vacinação covid.

A SIC sabe que as irregularidades alegadas por Francisco Ramos no Hospital da Cruz Vermelha já levou a pedidos de demissão de dirigentes do hospital. Ao que a SIC apurou, o processo de vacinação do hospital era da responsabilidade do diretor clínico e da enfermeira diretora, que terão colocado como prioritários profissionais de saúde já reformados ou que não exerciam clínica no hospital há muitos meses. Ambos apresentaram entretanto pedidos de demissão.

Pouco mais de dois meses no cargo

O despacho que determina a criação da task force para o Plano de Vacinação contra a covid-19 foi publicado a 26 de novembro do ano passado e Francisco Ramos foi nomeado para a sua coordenação.

Este despacho designava Francisco Ramos como coordenador da task force, prevendo um núcleo de coordenação composto por elementos do Ministério da Defesa Nacional, Ministério da Administração Interna, Direção-Geral da Saúde e Autoridade Nacional do Medicamento.

A 16 de dezembro de 2020, o Hospital da Cruz Vermelha elegeu em assembleia-geral o novo Conselho de Administração, integrando dois ex-secretários de Estado da Saúde, Francisco Ramos e Manuel Teixeira, que entraram em funções de imediato.

A assembleia-geral do Hospital da Cruz Vermelha, realizou-se no seguimento da compra pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) de 55% do capital da Sociedade Gestora do Hospital da Cruz Vermelha, formalizada na segunda-feira.

JOSÉ COELHO

A task force criada pelo Governo para coordenar todo o plano de vacinação contra a covid-19, desde a estratégia de vacinação à operação logística de armazenamento, distribuição e administração das vacinas, teve um mês para definir todo o processo.

Ao núcleo de coordenação da task force competiu entregar em 30 dias todos os documentos necessários para definir na totalidade o plano de vacinação contra a covid-19, tanto do ponto de vista da logística (armazenamento e distribuição das diferentes vacinas), como da estratégia de vacinação (identificação dos grupos alvo prioritários, administração e seguimento clínico de resultados e reações adversas).

A 28 de novembro, o bastonário e o Gabinete de Crise para a covid-19 da Ordem dos Médicos pediram transparência, equidade e fundamentação na vacinação contra o novo coronavírus, manifestando disponibilidade para colaborar na proposta de vacinação nacional.

No final do ano, a questão de quem deveria ter prioridade nas vacinas à covid-19 gerou polémica em Portugal, com a possibilidade de que maiores de 75 anos sem comorbilidades ficavam de fora do acesso prioritário à vacina.

A situação surgiu por haver uma proposta de especialistas da Direção-Geral da Saúde (DGS) de que pessoas entre os 50 e os 75 anos com doenças graves, funcionários e utentes de lares de idosos e profissionais de saúde devem ser os primeiros a ser vacinados.

Francisco Ramos disso então à agência Lusa que a proposta apresentada pela DGS não tinha "qualquer limite de idade para as pessoas internadas em lares".

A 3 de dezembro, Francisco Ramos apresentou no Infarmed a versão preliminar do Plano de Vacinação, garantindo que a operação logística da vacinação contra a covid-19 pretendia ser "mais robusta" e centralizada do que habitualmente, funcionando numa "lógica de comando e controlo".

Poucos dias depois, o ex-secretário de Estado foi à Assembleia da República prestar esclarecimentos aos deputados da Comissão de Saúde e da Comissão Eventual para o acompanhamento da aplicação das medidas de resposta à pandemia.

Já a 17 de dezembro, Francisco Ramos encontrou-se com os jornalistas para apresentar a versão definitiva do plano de vacinação, tendo anunciado que as primeiras vacinas contra a covid-19 chegariam a Portugal a 24 ou 26 de dezembro e estimando que até abril serão vacinadas 950 mil pessoas.

Mais recentemente, a 28 de janeiro, o ex-coordenador da task force apresentou a atualização do plano de vacinação, que teve como principal novidade a inclusão de todas as pessoas com mais de 80 anos de idade na primeira fase do plano de vacinação contra a covid-19.

Francisco Ramos deixa o cargo numa altura em que são públicas diversas situações de vacinação indevida de várias pessoas em várias regiões do país, o que levou, na segunda-feira, o PSD a pedir o agendamento de uma audição do coordenador da 'task force'.

Numa altura em que já estava em funções no cargo, Francisco Ramos apoiou e esteve ao lado de Marisa Matias na campanha das eleições presidenciais e ainda na semana passada, na SIC Notícias, fez um comentário político para criticar a forma como estava a ser questionados os casos de vacinação indevida.