Coronavírus

Dezassete mil profissionais de saúde morreram com covid-19 em 2020

Marko Djurica

“É uma tragédia e uma injustiça que, a cada 30 minutos, um profissional de saúde morra com covid-19."

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Pelo menos 17 mil profissionais de saúde morreram com covid-19 em 2020. Os números resultam de uma análise feita em mais de 80 países pela Amnistia Internacional em conjunto com a Public Services International e com a UNI Global Union.

Para chegar a este número foram analisados dados divulgados por governos, sindicatos, imprensa e organizações de sociedade civil, mas a Amnistia Internacional alerta que os óbitos de profissionais de saúde por covid-19 deverão ser ainda superiores, já que nem todos os países divulgaram dados oficiais ou fizeram-no de forma parcial.

Como causas para estes números, as organizações apontam a falta de condições de trabalho e equipamento e a desigualdade na vacinação. Um relatório da Amnistia Internacional de julho do ano passado registou escassez de Equipamentos de Proteção Individual adequados em quase todos os 63 países monitorizados.

Enfermeiras vestem fatos de protecção antes de tratarem doentes com covid-19 nas salas de pressão negativa do hospital Curry Cabral em Lisboa.

Enfermeiras vestem fatos de protecção antes de tratarem doentes com covid-19 nas salas de pressão negativa do hospital Curry Cabral em Lisboa.

Armando Franca

Três vezes mais probabilidade de morrer infetado

O problema intensifica-se quando se fala nos exemplos da Malásia, México ou Estados Unidos, onde trabalhadores do setor da saúde nas áreas da limpeza, auxiliares e assistentes sociais sofreram represálias, incluindo despedimentos, após exigirem condições de trabalho seguras.

Só nos Estados Unidos morreram com covid-19 pelo menos 1.576 funcionários de lares de idosos. No Reino Unido, morreram 494 assistentes sociais e, segundo dados do governo britânico, funcionários de lares de idosos e centros de cuidados comunitários tinham três vezes mais probabilidade de morrer infetados.

Atrasos nas vacinas e vacinação indevida

Outra das causas apontadas é a desigualdade na vacinação. A Amnistia Internacional revela que “apesar de os profissionais de saúde que se encontram altamente expostos aos riscos de contágio terem sido considerados prioritários nos planos nacionais de vacinação da maioria dos Estados, as desigualdades no acesso global significam que nenhum trabalhador foi vacinado em mais de 100 países”.

Nos países onde já foram iniciados os planos de vacinação, a organização aponta que os atrasos na entrega das vacinas podem obrigar a um tempo de espera elevado para que estes profissionais sejam vacinados.

Outro problema é a vacinação indevida, aponta a Amnistia Internacional.

“Por outro lado, em alguns locais, o pessoal administrativo e de gestão foi vacinado antes de quem está na linha de frente”.

A cada 30 minutos um profissional de saúde morre com covid-19

“É uma tragédia e uma injustiça que, a cada 30 minutos, um profissional de saúde morra com covid-19. Trabalhadores em todo o mundo colocaram as suas vidas em risco para tentar manter as pessoas protegidas contra a covid-19, mas muitos foram deixados desprotegidos e pagaram o preço mais elevado”, denuncia Steve Cockburn, especialista em Justiça Económica e Social da Amnistia Internacional.

Por essa razão, a Amnistia Internacional, a Public Services International e a UNI Global Union consideram que é urgente dar prioridade a todos os profissionais de saúde na linha da frente e tomar medidas para reforçar a capacidade de produção das vacinas, para que estas cheguem aos países atempadamente

O alerta destas organizações acontece numa altura em que continuam a aumentar as desigualdades no acesso à vacina. Segundo a Amnistia Internacional, mais de metade das doses da vacina contra a covid-19 foram administradas “apenas em 10 países considerados ricos”.

“Mais de 100 países ainda não vacinaram uma única pessoa”, informa.

“Os governos devem garantir que todos os profissionais de saúde, em qualquer lugar, estão protegidos contra a covid-19. Por terem arriscado a vida durante a pandemia, é hora de terem prioridade na vacinação. Devem ser tomadas medidas urgentes para eliminar as enormes desigualdades globais no acesso às vacinas, para que seja protegido tanto um agente comunitário no Peru como um médico no Reino Unido”.

Ranking dos países com mais doses da vacina administradas por 100 habitantes

À data desta quinta-feira, 4 de março de 2021, Israel lidera a tabela, com 97 doses administradas, seguido dos Emirados Árabes Unidos, com 62 doses por cada 100 habitantes e, em terceiro lugar, o Reino Unido, com 61 doses.

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MAPA COM OS CASOS A NÍVEL GLOBAL

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