Coronavírus

A próxima pandemia? Dromedários do Quénia sob vigilância apertada

Rapaz pastor nómada Samburu com um dromedário na aldeia de Sissia, Quénia, janeiro de 2020.

Patrick Ngugi / AP

Eles também não gostaram da zaragatoa pelo nariz acima.

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Na reserva natural Kapiti, no sul do Quénia, um dromedário é submetido a um teste PCR para detetar um primo do SARS-CoV-2, o MERS-CoV (Síndrome Respiratória do Médio Oriente), um coronavírus que pode vir a causar a próxima pandemia global.

Com 2 metros de altura e 300 kg, o dromedário rosna e debate-se, está preso pelo pescoço, focinho e cauda por três homens, enquanto o veterinário trata de recolher rapidamente a amostra, relata a agência France-Presse.

“Recolher uma amostra de um animal é difícil porque nunca se sabe o que pode acontecer (...) se fizermos mal, pode ainda ser pior porque pode dar-nos um coice ou morder”, explica Nelson Kipchirchir, veterinário da Kapiti.

Na reserva de Kapti, uma imensa planície de 13.000 hectares que pertencem ao International Livestock Research Institute (Ilri), com sede em Nairobi, coexistem animais selvagens e rebanhos de gado para investigação científica. Os 35 dromedários que ali vivem estão a ser submetidos ao desagradável teste nasal e sanguíneo.

O Ilri começou a estudar os dromedários do Quénia em 2013, um ano após o aparecimento de um vírus perturbador na Arábia Saudita: o MERS-CoV, acrónimo em inglês para coronavírus da Síndrome Respiratória do Médio Oriente.

Morcegos, pangolins, aves: com a pandemia de covid-19, o mundo está a descobrir a extensão das zoonoses, vírus transmitidos por animais responsáveis por 60% das doenças infecciosas humanas, segundo a OMS.

No caso do MERS-CoV, ainda de acordo com a OMS, foi através do contato próximo com este ruminante que o vírus terá sido transmitido ao homem, provocando uma epidemia que fez várias centenas de vítimas em todo o mundo entre 2012 e 2015, principalmente na Arábia Saudita.

Nos seres humanos, este vírus causa sintomas semelhantes à covid-19 - febre, tosse, dificuldades respiratórias - enquando para o dromedário provoca uma ligeira constipação.

46% dos dromedários testaram positivo ao MERS

No Quénia, onde existe uma população de 3 milhões de dromedários, uma das maiores do mundo, este animal tem cada vez mais sucesso, com mais consumidores do seu leite e carne, enquanto os pastores nómadas elogiam a boa adaptação destes animais nas regiões áridas.

"O dromedário é muito importante", diz um dos tratadores de Kapiti, Isaac Mohamed. “Primeiro porque não pode morrer em caso de seca. Segundo, porque pode ficar 30 dias sem beber”.

Nos laboratórios de Ilri em Nairobi, a bióloga Alice Kiyong'a recebe regularmente amostras retiradas de camelos de diferentes regiões do Quénia. Munida de pipeta, reagentes e máquinas, ela analisa cada um para detetar a presença do MERS, transmitido inicialmente pelo morcego.

A investigação que liderou em 2014 revelou a existência de anticorpos para o MERS em 46% dos dromedários estudados, mas em apenas 5% dos humanos testados (ou seja, 6 positivos em 111 tratadores de camelos e trabalhadores em matadouros).

“O MERS que temos atualmente no Quénia não é tão facilmente transmitido aos humanos”, em comparação com o MERS da Arábia Saudita, que é mais contagioso, esclarece Alice Kiyong'a.

Vigilância apertada para quando o pior acontecer, e não apenas se acontecer

Mas o problema é que também aqui, tal como está a acontecer com o SARS-CoV-2, o surgimento de variantes podem tornar o MERS do Quénia mais contagioso para os humanos, e essa é a preocupação e obsessão dos investigadores.

“É exatamente como com a covid-19, (...) surgiram variantes, como por exemplo a B.1.1.7 (em Inglaterra). Acontece o mesmo com o MERS: o vírus está sempre a mudar", sublinha Eric Fèvre, especialista em doenças infecciosas na Ilri e na Universidade de Liverpool, no Reino Unido.

“Adorava ter uma bola de cristal para poder dizer se algum dia [o MERS] se vai tornar extremamente perigoso para os humanos. Acho que o importante é manter um esforço de vigilância (...) porque assim estaremos prontos quando isso acontecer ”, diz Fèvre.

Em 2020, o Grupo de Especialistas em Biodiversidade da ONU (IPBES) alertou que as pandemias serão mais frequentes e mortais no futuro devido ao aumento do contacto entre a vida selvagem, o gado e os humanos, devido à destruição do meio ambiente.

“Há um interesse renovado por tudo o que se relaciona com os vírus, as doenças zoonóticas devido à covid-19”, lembra Eric Fèvre, referindo-se sobretudo ao finamciamento de investigações científicas. "Este interesse renovado está a ajudar-nos a fazer este trabalho muito importante".

Mais de 3 milhões de mortos no mundo

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 3.046.134 mortos no mundo, resultantes de mais de 142.838.730 casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Portugal já contabilizou 831.645 casos e 16.951 mortes, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A covid-19 é uma doença respiratória causada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2 detetado no final de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

A grande maioria dos pacientes recupera, mas uma parte evidencia sintomas por várias semanas ou até meses.

Links úteis

Mapa com os casos a nível global