Coronavírus

Covid-19. Ex-ministro brasileiro deixou Governo por divergir sobre uso da cloroquina

Adriano Machado

Pediu demissão 29 dias depois de iniciar a gestão à frente do Ministério da Saúde.

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O ex-ministro da Saúde brasileiro Nelson Teich disse, na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que deixou o cargo por divergir do Governo liderado pelo Presidente Jair Bolsonaro sobre o uso da cloroquina no tratamento da covid-19.

"[Pedi demissão] após constatação de que não teria a autonomia e liderança que imaginava indispensável para o exercício do cargo", disse Teich na CPI, que investiga as respostas do Governo brasileiro à pandemia.

"Essa falta de autonomia ficou mais evidente em relação às divergências com o Governo quanto à eficácia e extensão do uso do medicamento cloroquina para o tratamento da covid-19", acrescentou.

Médico oncologista, Teich era apontado como um quadro técnico dentro do Governo quanto tomou posse em 17 de abril de 2020, mas pediu demissão em 15 de maio, 29 dias depois de iniciar a sua gestão à frente do Ministério da Saúde.

À época do seu pedido de demissão, Teich disse apenas que "a vida é feita de escolhas" e que escolheu "sair", sem explicar os motivos que o levaram a deixar o Governo.

As divergências

Questionado por parlamentares no Senado, o antigo governante explicou que pediu demissão porque divergia de Jair Bolsonaro sobre o uso da cloroquina e, portanto, não poderia permanecer no Governo.

"Naquela semana [de sua demissão], teve uma fala do Presidente na saída do Alvorada quando disse que o ministro tem que estar afinado e cita o meu nome especificamente", contou Teich.

"Na véspera [Bolsonaro] teve uma reunião com empresários em que fala que o medicamento [cloroquina] iria ser expandido. À noite teve uma live [transmissão ao vivo nas redes sociais] que ele fala do uso expandido. Aí no dia seguinte eu peço minha exoneração", acrescentou o ex-ministro.

Noutro momento, porém, ao ser questionado se ouviu diretamente de Bolsonaro uma orientação ou pedido para apoiar a indicação do uso do medicamento no combate à covid-19, Teich respondeu que diretamente isso não lhe foi dito pelo Presidente.

Cloroquina. Substância ineficaz

A cloroquina é um remédio usado contra a malária e algumas doenças como o lúpus que é ineficaz contra a covid-19 embora a sua prescrição tenha sido amplamente defendida por Jair Bolsonaro e seus apoiantes desde o ano passado, quando alguns estudos iniciais foram divulgados.

O Presidente brasileiro, que assumiu ter sido infetado pelo novo coronavírus em julho do ano passado, declarou à época que tomou o medicamento e atribuiu-lhe a responsabilidade pela sua cura.

No entanto, inúmeros estudos demonstraram que a substância é ineficaz no combate ao vírus SARS-CoV-2, causador da doença.

Em março passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que a cloroquina e a hidroxicloroquina, uma substância derivada da primeira, não funcionam no tratamento contra a covid-19 e alertou que seu uso pode causar efeitos adversos nos doentes.

A substância passou por uma análise de um grupo de 32 especialistas da OMS que disseram ter uma grande certeza de sua ineficácia e emitiram uma forte recomendação contra seu uso no combate ao novo coronavírus.

Bolsonaro quis alterar bula para que fosse indicada no tratamento da covid

Jair Bolsonaro quis alterar a bula da cloroquina para que fosse indicada no tratamento da covid-19. Esta é uma das acusações feitas por um antigo ministro da Saúde, ouvido na comissão parlamentar de inquérito.

O regulador brasileiro do medicamento nunca aceitou a proposta e Luiz Henrique Mandetta ficou pouco tempo no Ministério da Saúde. Foi demitido por insistir no cumprimento de regras básicas contra o coronavírus, o que para Bolsonaro não fazia sentido.

Investigadores brasileiros garantem que a subnotificação de vítimas por covid-19 pode ter deixado 130 mil mortes fora da contagem. Numa altura, em que umas das mais recentes mortes por coronavírus está a chocar o Brasil.

Paulo Gustavo era um dos humoristas mais famosos do país e morreu esta terça-feira depois de quase dois meses a lutar contra o vírus num hospital no Rio de Janeiro