Coronavírus

A “6ª vaga” entre erros de comunicação e excesso de política 

24.05.2022 11:54

Opinião

A chamada 6ª vaga voltou a trazer aparentes erros de comunicação do governo e da DGS. Sinalizei-os sempre que encontrei motivos para isso, mas em relação a este momento não acho que as críticas sejam justas.

Princípios da comunicação de risco em saúde pública foram respeitados: evitar fazer antevisões em público, deixar claro que as decisões são tomadas em função da situação atual, justificar os critérios que estão na base da decisão, mostrar a coerência da decisão e deixar em aberto a revisão da decisão. No fundo, trata-se de transmitir a incerteza com a qual continuamos a lidar.

As críticas mais recentes relacionaram-se muito com a utilização da máscara. Numa avaliação justa, os decisores fizeram a única coisa que podiam ter feito: retirar essa obrigatoriedade, porque num Estado de Direito, as obrigatoriedades têm que ser fundamentadas por riscos coletivos inequívocos e passíveis de serem antecipados. A prevalência da doença que se tem verificado desde a vaga anterior não legitima a manutenção dessa obrigatoriedade onde deixou de existir.

Tendo caído a obrigatoriedade, os responsáveis não deixaram de transmitir uma mensagem de cautela, as aparições públicas foram acompanhadas por máscaras e fizeram-se apelos à sua utilização numa ótica de informação consciente da população.

Dizer que a prova dos supostos erros de comunicação está nos comportamentos relaxados das pessoas não é sério por dois motivos.

Primeiro, tendo havido uma mensagem de apelo à vacinação e de as pessoas terem aderido de forma inequívoca, de termos o conhecimento de que o vírus não irá desaparecer no imediato, que as reinfeções farão parte do quotidiano, mas sem que tenhamos prova do agravamento do estado de saúde da população, era óbvio que o comportamento das pessoas voltasse a uma normalidade pré-pandemia.

Em segundo lugar, porque não é possível isolar a não obrigatoriedade da utilização da máscara como o principal motivo do contágio galopante das últimas semanas. A par dessa medida, beijinhos e abraços voltaram em eventos, festas, almoços e jantares quase ininterruptos.

Por isso, a obrigatoriedade da utilização da máscara não só não tinha fundamentação e teria pouco impacto na transmissão, como seria pouco necessária dado que os comportamentos individuais adaptam-se em função da perceção de risco. Deve-se pensar mais na pedagogia através da comunicação social e menos nas restrições legais. Estas últimas apenas devem ser equacionadas perante um notório agravamento da prevalência da doença.

Se há incerteza e conseguindo respeitar aspetos-chave da comunicação, torna-se difícil encontrar a fronteira entre o que é político e o que é científico. Há uma discussão de fundo que ultrapassa a pandemia sobre onde acaba a ciência e onde começa a política.

Para muitos, onde me incluo, esta fronteira é artificial e, por norma, pouco útil. Salvo raras exceções, a decisão política incorpora evidências científicas, além de que a complexidade dessas evidências implica elevados graus de interpretação e adaptação à esfera política. Acresce que os cientistas nem sempre põem de parte as suas crenças pessoais ou motivações políticas no modo como fazem ciência e a comunicam ao grande público.

O que a evidência técnica diz sobre esta fase da pandemia é que interessa monitorizar as mutações do vírus, o impacto da doença na comunidade, assegurar o processo de vacinação e equilibrar as restrições face à saturação das pessoas.

Estas orientações técnicas são encontradas na tomada de decisão política em Portugal nos últimos meses? Sim. As decisões tomadas em Portugal estão em linha com as decisões em países com níveis semelhantes de vacinação? Sim. As orientações técnicas apontam linhas vermelhas sobre como aligeirar ou quando restringir as medidas? Não.

Por isso, esta fase da pandemia em que a doença não é pronunciada e que a ciência tem dificuldade em antever o que se segue, não há forma de decidir sem graus de subjetividade, e essa subjetividade é tanto política quanto científica.

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