Crise na Venezuela

ONU diz que encerramento das fronteiras da Venezuela não trava êxodo

Edgard Garrido

Pode sim representar alguns perigos para a população.

O encerramento dos postos fronteiriços com a Colômbia e o Brasil, decretado pelo governo da Venezuela, não está a travar o êxodo diário de milhares de venezuelanos, mas sim a torná-lo mais perigoso, alertou hoje a ONU.

O alerta foi feito pelo porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Andrej Mahecic, que disse, em Genebra, que "as pessoas desesperadas em atravessar a fronteira" encontram outras maneiras de o fazer.

"Infelizmente, são muitas vezes vítimas de redes de traficantes, contrabandistas ou de grupos armados", salientou Andrej Mahecic.

O porta-voz do ACNUR relatou que muitos destes migrantes irregulares são confrontados com avultadas dívidas que são exigidas por quem os ajuda a atravessar ilegalmente a fronteira e "são particularmente vulneráveis a várias formas de exploração, abusos sexuais e de discriminação".

Segundo dados recentes, só no ano passado, em média, cerca de 5.000 pessoas terão deixado diariamente a Venezuela, país afetado por uma crise política com sérias repercussões económicas e humanitárias, para procurar proteção ou melhores condições de vida.

Na última terça-feira, dia 02 de abril, viveram-se momentos de grande tensão na ponte internacional Simón Bolívar, entre as cidades de San Antonio de Tachira (Venezuela) e de Cúcuta (Colômbia), quando cerca de 46 mil pessoas tentaram cruzar a ponte fronteiriça, em ambas direções, e depararam-se com a resistência das forças de segurança venezuelanas e colombianas.

"No meio dos tumultos, bebés, crianças, mulheres grávidas, idosos e pessoas com deficiência correram o risco de serem esmagados pela multidão, mas felizmente não existiram vítimas a lamentar", afirmou Mahecic.

Muitos habitantes tentam fazer a travessia através de rios

O aumento do fluxo de pessoas na ponte Simón Bolívar deve-se, em parte, à subida das águas do rio fronteiriço Táchira, o que dificulta a passagem a pé através do rio.

Muitos venezuelanos atravessam diariamente a fronteira não para imigrar para outros países, mas sim para trabalhar, estudar ou para comprar produtos na Colômbia que escasseiam na Venezuela, explicou ainda o porta-voz.

As chuvas tornaram também inviável o uso de muitos trilhos (estradas não pavimentadas) que eram habitualmente usados para atravessar a fronteira.

"As previsões para a época das chuvas fazem temer que a situação vai continuar a ser muito perigosa", concluiu o ACNUR.

Outro alerta relacionado com a Venezuela surgiu hoje através do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que antevê que o número de crianças venezuelanas que irão precisar de assistência este ano vai aumentar em mais de 50%.

Segundo a agência da ONU, quase 500 mil crianças estão atualmente nesta situação, mas, como resultado da crise migratória na Venezuela, este número vai elevar-se para 1,1 milhão.

Os mais recentes dados das Nações Unidas estimam que o número atual de refugiados e migrantes da Venezuela em todo o mundo situa-se nos 3,4 milhões, dos quais 2,7 milhões encontram-se em outros países da América Latina.

A Colômbia é o principal país de acolhimento, com 1,1 milhões de imigrantes e refugiados, seguido do Peru (506.000), Chile (288.000), Equador (221.000), Argentina (130.000) e Brasil (96.000).

A Venezuela enfrenta desde 23 de janeiro uma crise política sem precedentes, marcada por uma forte contestação contra o Presidente Nicolás Maduro e pela autoproclamação do opositor e presidente da Assembleia Nacional (parlamento), Juan Guaidó, como Presidente interino venezuelano.Na Venezuela residem cerca de 300.000 portugueses ou lusodescendentes.

Lusa