Crise na Venezuela

Juan Guaidó, um líder em construção

O líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, após um comício contra o Governo do Presidente venezuelano Nicolás Maduro, em Caracas.

Carlos Jasso

Juan Guaidó tem tido o apoio de grande parte da comunidade internacional e testou o regime de Nicolás Maduro.

O autoproclamado Presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, que desde os primeiros dias com esse estatuto granjeou apoio internacional, testa esta terça-feira a solidariedade dos militares e o apoio nas ruas para expulsar o "regime de terror" de Nicolas Maduro.

"O primeiro de maio começou hoje", afirmou Juan Guaidó, no início da manhã de 30 de abril, ao lado de militares que o ajudaram a libertar Leopoldo López, o líder do seu partido e mentor político que Nicolas Maduro tinha mandado prender.

Apoiado por grande parte da comunidade internacional

Ao longo dos últimos meses, Juan Guaidó tem tido o apoio de grande parte da comunidade internacional e testou o regime de Nicolás Maduro ao forçar a ajuda humanitária que o Presidente eleito tentava reter nas fronteiras, mas o maior teste começa à sua força política começa esta terça-feira com aquilo que o governo de Maduro já reconheceu ser "um golpe de Estado".

Para ter sucesso, Juan Guaidó terá de provar que a influência que conquistou junto de parte da população se estendeu às Forças Armadas, para conseguir derrubar o regime de Maduro e cumprir a promessa que fez a vários líderes mundiais: a marcação de eleições livres e democráticas, respeitando a Constituição.

Quando levantou a mão direita para jurar que respeitaria essa mesma Constituição, enquanto autoproclamado Presidente interino, perante milhares de manifestantes em Caracas, no dia 23 de janeiro, Juan Guaidó exibiu o pulso ferido.

Cristian Hernandez

Detido por enfrentar o regime de Maduro

O vermelho do pulso era a marca das algemas que o tinham prendido, no dia 13, por ter enfrentado o regime de Nicolás Maduro, declarando-se presidente do único órgão legítimo da Venezuela, a Assembleia Nacional.

Em plena via pública e à luz do dia, um grupo de elementos dos serviços secretos venezuelanos, encapuzados, deteve o líder da oposição, para algumas horas depois o libertar, deixando-o com um cadastro que Guaidó agora gosta de exibir.

A ameaça de detenção tinha sido feita pela ministra do Poder Popular para o Serviço Prisional, Maria Iris Rangel, que na rede social Twitter não deixara dúvidas das intenções do governo de Maduro:

"Já tenho uma cela preparada para si e o devido uniforme e espero que nomeie rapidamente a sua equipa de governo para saber quem lhe vai fazer companhia, seu estúpido rapaz".

Ivan Alvarado

A Geração de 2007

A pressão governamental não é novidade para Guaidó, que em 2007 esteve na primeira linha do movimento estudantil que se tentou opor ao encerramento do canal Caracas Televisión - um dos meios de comunicação social que Hugo Chávez silenciou.

Juan Guaidó ficou assim com direito a exibir a "medalha" de pertencer à chamada "Geração de 2007", um grupo de jovens ativistas que se tentou opor à alteração à Constituição da Venezuela e que rapidamente se tornou um alvo de ira do aparelho do regime "chavista".

Juan Guaidó fez o tirocínio político ao lado de outros jovens como Miguel Pizarro e Stalin Gonzalez, agora também deputados na Assembleia Nacional, e que se tornaram um núcleo duro de jovens políticos que prometeram não fazer vida fácil do então Presidente Hugo Chavéz.

Reinaldo Diaz, Rafael del Rosario, Gilbert Caro e Juan Guaido, 2015. Em greve de fome pelas eleições no parlamento.

Reinaldo Diaz, Rafael del Rosario, Gilbert Caro e Juan Guaido, 2015. Em greve de fome pelas eleições no parlamento.

Ariana Cubillos

À frente do partido da oposição

Foi ao lado de Leopoldo López, um pouco mais velho, que Guaidó partiu para a fundação do partido Vontade Popular, em 2009.

López, que era presidente da Câmara de Chacao, foi uma das mais fortes influências em Guaidó, sobretudo na área judicial, onde já no Parlamento conseguiu algumas reformas relevantes, apesar da pressão da máquina do governo.

Quando López foi detido e se tornou o mais famoso preso político na Venezuela, Guaidó ocupou o seu lugar de primeira linha na oposição ao governo.

Em 2012, Guaidó candidatou-se às primárias da coligação que integrava diversas forças da oposição Mesa da Unidade Democrática, para o lugar governador do Estado de Vargas, mas foi derrotado e permaneceu na Assembleia Nacional, para onde tinha sido eleito em 2010.

Em 2015, já com Nicolás Maduro no poder, chegou a coordenador do Vontade Popular e, no Parlamento tornou-se presidente de uma das comissões permanentes, o que lhe aumentou a visibilidade política, mas também acicatou ainda mais as resistências do Presidente, em particular quando começou a referir-se ao "regime de terror".

Guaidó gaba-se de usar a metodologia de engenharia, que estudou na Universidade, para desmontar os aparelhos de poder.

2017, depois de ser ferido pelas autoridades durante um protesto

2017, depois de ser ferido pelas autoridades durante um protesto

Ariana Cubillos

A luta pelo país

Profissionalmente, recusou um sedutor lugar numa empresa no México, para se manter na Venezuela e continuar a luta que tinha iniciado como ativista juvenil, empurrando o seu partido Vontade Popular para uma linha mais extremista e sendo um dos mais entusiastas organizadores de manifestações de protesto contra Maduro.

Quando no final de 2018, Guaidó começou a maturar a ideia de criar um governo transitório, não reconhecendo o resultado das eleições de maio, por considerar que não tinham sido justas nem transparentes, rapidamente percebeu que o seu principal objetivo seria aliciar o exército.

"Não temos armas, por isso precisamos do exército", disse um dia Lilian Tintori, mulher de Leopoldo López e também uma importante mentora de Guaidó.

Contudo, horas depois de Guaidó se autointitular Presidente interino, o exército declarou lealdade a Nicolás Maduro e deixou o novo governo transitório dependente do apoio externo, que começou a chegar ao telefone do líder do Parlamento desde vários países.

O apoio ao Presidente interino

O Presidente dos EUA, Donald Trump, foi o primeiro líder mundial a declarar o seu apoio, dando argumentos aos que dizem que Guaidó há vários meses que negociava com os norte-americanos um processo de retirar poder a Maduro.

Aliás, Guaidó foi alimentando conexões diplomáticas e políticas com líderes de vários países, na América do Norte e na Europa.

"O Parlamento liderado por Juan Guaidó é o último vestígio da democracia no vosso país", afirmou o vice-Presidente dos EUA, Mike Pence, num vídeo divulgado nas redes sociais, em janeiro, logo a seguir à declaração em que aquele se autoproclamou Presidente interino.

Hoje, o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, reiterou o apoio dos EUA às intenções de Guaidó, dizendo que "aprova totalmente o povo venezuelano na sua procura pela liberdade e democracia", em resposta à Operação Liberdade, que o governo de Maduro já reconheceu ser uma tentativa de "golpe de Estado".

Lusa

Fernando Llano

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