Crise na Venezuela

O estado a que chegou a Venezuela

Marco Bello

A crise política soma-se a uma grave crise económica e social que levou mais de 2,3 milhões de pessoas a fugirem da Venezuela desde 2015, segundo dados da ONU. No país vivem cerca de 300 mil portugueses ou luso-descendentes.

Há mais de uma década debaixo das sanções dos EUA, a Venezuela tem resistido estoicamente à crise económico-financeira que se transformou em social e política nos últimos anos.

A inflação galopante atirou o país para uma situação de emergência: sem medicamentos nas farmácias, sem bens essenciais nos mercados, sem água nas torneiras, sem eletricidade, nem mesmo nos centros de saúde, hospitais e escolas.

Uma investigação no New York Times revela que os casos de malnutrição são cada vez mais comuns em crianças e menores na Venezuela. Durante cinco meses, o jornal norte-americano seguiu o trabalho de 21 hospitais onde a capacidade de resposta é cada vez menor.

A oposição diz que pelo menos 20 pessoas morreram por falta de cuidados médicos. O presidente Nicolas Maduro continua a acusar os Estados Unidos de estarem por trás dos cortes na eletricidade e diz que a América está a usar ataques cibernéticos contra a Venezuela.

Com os preços dos bens essenciais a subirem todas as semanas (ou até no mesmo dia) os venezuelanos tiveram de lidar com uma nova moeda, o Bolívar Soberano, que não travou a hiperinflação que emagrece os salários dos venezuelanos e esvazia os supermercados.

O Governo venezuelano decidiu instituir um horário especial para empresas e escolas, devido aos inúmeros apagões que deixaram várias vezes o país às escuras.

A 07 de março de 2019 uma falha na barragem de El Guri deixou o país às escuras durante uma semana.

Em 25 de março, verificou-se um novo apagão, que afetou pelo menos 18 dos 24 estados, incluindo Caracas, que estiveram às escuras, total ou parcialmente, pelo menos durante 72 horas.

Quatro dias depois, pelo menos 21 estados ficaram sem eletricidade durante 24 horas.

A 01 de abril, a Venezuela ativou um programa de racionamento de eletricidade que, segundo o ministro de Energia Elétrica, Igor Gavidia, "poderá prolongar-se por um ano".

Como parte do racionamento, algumas regiões têm apenas 12 horas de eletricidade ao dia.

O Governo atribuiu as falhas elétricas a atos de sabotagem, situação que, segundo a imprensa, é contestada por vários engenheiros que atribuem a situação à falta de manutenção e de investimentos no setor, sublinhando que o sistema elétrico funciona de maneira isolada e que não permite o acesso remoto.

A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de janeiro deste ano, quando o líder do parlamento, Juan Guaidó, se autoproclamou Presidente da República interino e declarou que assumia os poderes executivos de Nicolás Maduro.

Guaidó, 35 anos, contou de imediato com o apoio da maioria da comunidade internacional e prometeu formar um Governo de transição e organizar eleições livres.

A maioria dos países da União Europeia, entre os quais Portugal, reconheceram Guaidó como Presidente interino encarregado de organizar eleições livres e transparentes.

Nicolás Maduro, 56 anos, no poder desde 2013, recusou o desafio de Guaidó e denunciou a iniciativa do presidente do parlamento como uma tentativa de golpe de Estado liderada pelos Estados Unidos.

Com o país em convulsão, são frequentes os episódios de violência. Dentro da Venezeual mas também além fronteiras

A Amnistia Internacional denunciou o uso de força excessiva por parte das forças de segurança venezuelanas, sob o comando do Presidente Nicolás Maduro, com execuções e detenções arbitrarias para reprimir os protestos no país.

"As autoridades de Nicolás Maduro estão a tentar usar o medo e a punição para impor uma estratégia repulsiva de controlo social contra aqueles que exigem mudanças. O seu Governo está a atacar as pessoas mais pobres que afirma defender, mas, em vez disso, mata, detém e ameaça-as", assinalou Erika Guevara-Rosas, diretora para as Américas da Amnistia Internacional (AI).

Num país onde falta mas sobretudo a paz qualquer incidente é um rastilho num barril de pólvora como um erro informático num supermercado da rede Central Madeirense, na Venezuela,que fixou o preço da margarina muito abaixo do normal e provocou um tumulto no país, no ano passado.

Pelo menos três pessoas foram detidas.

A escassez de bens essenciais no país faz disparar o número de casos de saques e cenas de violência em supermercados.