Crise na Venezuela

Aberta investigação contra Juan Guaidó e outros dois opositores por traição à pátria

Miguel Gutiérrez

Anúncio feito pelo Ministério Público venezuelano.

O Ministério Público venezuelano abriu esta sexta-feira uma investigação contra o líder da oposição, Juan Guaidó, e outros dois colaboradores, por traição à pátria, por alegadamente estarem a negociar a venda do território Esequibo, disputado pela Venezuela e Guiana.

O anúncio foi feito pelo procurador-geral designado pela Assembleia Constituinte (composta por simpatizantes do regime), Tareck William Saab, depois de o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, acusar o líder opositor de pretender entregar o Esequibo a petrolíferas estrangeiras.

Segundo o procurador-geral, os colaboradores de Guaidó, neste caso Vanessa Neumann e Manuel Avendaño, estariam relacionados com uma negociação ilegal que pretende desistir da histórica reclamação da Venezuela sobre o Esequibo a troco de apoio político do Reino Unido, o que constitui um crime traição à pátria.

"Queremos fazer uma chamada de atenção e um alerta de como personagens anónimos, numa espécie de cartel, aparecem em vários lugares do mundo, como membros deste governo virtual e usurpador que é liderado pelo cidadão Juan Guaidó, em que se lhes dá uma proeminência que não têm, para negociar não apenas o Esequibo, mas também a Citgo (petrolífera venezuelana nos EUA), as reservas de ouro venezuelano e as nossas contas bancárias", afirmou Tareck William Saab numa conferência de imprensa em Caracas, capital do país.

O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acusou hoje o presidente da Assembleia Nacional, presidida por Juan Guaidó e que é detida maioritariamente pela oposição, de estar a negociar entregar o território Esequibo à Guiana e instou o Ministério Público a atuar.

"Chegou às nossas mãos um conjunto de provas de como este bandido e traidor da pátria, Juan Guaidó, está a negocir o (território) Esequibo, para entregá-lo a troco de apoio político ao seu fantasmagórico e pretendido governo farsante", declarou Maduro.

O Presidente venezuelano falava durante uma cerimónia no Forte de Tiúna, a principal base militar de Caracas, durante a qual acusou o líder opositor de ter planos para entregar o Esequibo a petrolíferas internacionais para que explorem os recursos energéticos aí existentes.

"Acho que o Ministério Público, e com convicção, tem de atuar de maneira expedita porque é um delito de traição à pátria pretender entregar o Esequibo a troco de vender o nosso país", frisou Nicolás Maduro.

O Presidente venezuelano divulgou na ocasião o som de uma alegada conversa telefónica entre representantes de Juan Guaidó, em que um deles afirmava "o Esequibo é da Guiana e há que entregá-lo".

Em 29 de março de 2018, a Guiana anunciou ter pedido a intervenção do Tribunal Internacional de Justiça para confirmar a validade jurídica e o efeito vinculativo do texto arbitral de 1899 sobre o conflito que mantém com a Venezuela, há mais de 50 anos, pelo território Esequibo.

O Acordo de Genebra de 1966 foi celebrado entre a Venezuela e o Reino Unido, quando a Guiana era ainda uma colónia britânica, que se tornou depois independente.

Desde então, a região de Essequibo está sob mediação das Nações Unidas. Contudo, a disputa agudizou-se depois de a norte-americana Exxon Mobil ter descoberto, em maio de 2015, jazidas de petróleo em águas localizadas na zona do litígio.O projeto de exploração da Exxon Mobil, ao serviço da Guiana, tem lugar no território do Esequibo.

A Guiana insiste que possui direitos sobre a zona reclamada, mas para a Venezuela a única área sobre a qual é possível negociar é o mar, com base no Acordo de Genebra.

Caracas diz ter delimitado a sua plataforma continental com Trinidad e Tobago, mas que não o faz com a Guiana enquanto não houver um acordo mutuamente satisfatório.A atual fronteira entre ambos países foi delimitada em 1899.

Lusa