Crise na Venezuela

População venezuelana boicota compra de ovos para fazer baixar os preços

Vasily Fedosenko

Um pacote de 30 unidades custa mais de dois salários mínimos mensais.

Os venezuelanos iniciaram hoje uma campanha de boicote à compra de ovos de galinha para fazer baixar os preços deste produto, cujo pacote de 30 unidades custa mais de dois salários mínimos mensais.

"O povo organizado, durante duas semanas, boicotará os ovos nas comunidades. Estamos unidos na luta contra a especulação. Não compremos ovos, mesmo que baixem de preço, até que apodreçam", refere uma das mensagens no Twitter.

A campanha iniciou-se nas redes sociais, mas passou para os supermercados, com a população a queixar-se de que outros produtos, como a carne, o frango, o leite e o queijo estão cada vez mais inacessíveis devido aos altos preços.

À agência Lusa várias pessoas disseram que "em dois meses os ovos duplicaram de preço, apesar de ser um produto venezuelano, produzido no país".

"Os comerciantes dizem que o problema está nos distribuidores e é provável que seja assim, mas não se pode justificar que aumentem o preço dos ovos porque subiu o valor do dólar [:caiu o valor da moeda venezuelana] . As galinhas são daqui", explicou Lucília Mendes.

Esta lusodescendente queixou-se de que um cartão de ovos com 30 unidades custa mais de 80 mil bolívares soberanos (3,54 euros à taxa de câmbio oficial), um valor muito elevado se comparado com os 40 mil bolívares de salário mínimo mensal (1,77 euros).

"Mas não são apenas os ovos, porque tudo está muito caro. Um frango pequenino, inteiro, custa à volta de 100 mil bolívares (4,43 euros), um quilograma de carne de vaca para guisar está à volta de 60 mil bolívares (2,65 euros), a de porco 80 mil (3,54 euros) e o queijo branco duro, de fabricação caseira, não baixa de 50 mil (2,21 euros)", referiu Lucília Mendes.

Segundo a lusodescendente, "os preços estão 'dolarizados', a valores próximos do que cobram internacionalmente, mas os salários mínimos aqui são inferiores a dois euros, enquanto que, por exemplo em Portugal, superam os 600 euros mensais".

Hoje, nalguns locais de Caracas, capital da Venezuela, eram visíveis letreiros a indicar o preço dos produtos em dólares, com a observação, ao câmbio do dia, uma situação cada vez mais frequente em todo o país.

A campanha de boicote à compra de ovos está a gerar acaloradas discussões nas redes sociais, com utilizadores a acusarem o regime de ter começado a campanha, justificando os preços com a hiperinflação, a perda de valor do bolívar e a 'dolarização'.

Outros utilizadores acusam os vendedores de fazer contas em dólares para não se descapitalizarem e poderem repor os inventários, sendo que há quem alegue que a especulação dos preços está relacionada com um futuro imprevisível, havendo ainda quem sugira que a campanha deveria abranger também os plátanos (banana tropical), um fruto indispensável no dia a dia dos venezuelanos.

Lusa