Desafios da Mente

E se tivesse dito e se tivesse feito...

Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

A necessidade de o cérebro terminar o que começa e o facto de nos arrependermos mais de coisas que não fizemos ou não dissemos.

Este ano atípico está a chegar ao fim e, como é habitual, iniciam-se os balanços entre o que fizemos, ou não; o que dissemos, ou não.

Para evitarmos repetições e dissabores futuros, este pode ser o momento para refletirmos sobre o que nos incomoda mais e permanece frequentemente às voltas na nossa mente: o que fizemos e dissemos, ou o que ficou por fazer e dizer?

O que o nosso cérebro se lembra mais?

Para melhor perceber a importância e interesse que a ciência psicológica dedicou ao tema, precisamos recuar até 1927, quando Bluma Zeigarnik, psicóloga russa, concluiu que as tarefas inacabadas (em que o sistema não é descarregado, em que o capítulo não é encerrado) são muito mais bem recordadas do que as tarefas terminadas.

Esta constatação de que a lembrança de tarefas inacabadas é maior do que a de tarefas acabadas ficou conhecida por Efeito de Zeigarnik.

Várias foram depois as teses e investigações que se debruçaram sobre as questões relativas à perceção e à memória.

Em termos psicológicos, o sistema de tensão que até então aumentava ao ser descarregado e encerrado tende a não deixar marcas na memória, porque foi resolvido. Este é um dos ensinamentos dos autores clássicos que ainda hoje pode ser pensado para o nosso mundo do dia a dia, não dispensando, claro está, uma ponderação conjunta com outras variáveis e investigações mais recentes.

Por exemplo, a nossa seletividade percetiva, as nossas experiências prévias, eventuais defesas emocionais e os fatores contemporâneos ao momento da decisão (tais como, fome, depressão, cansaço) irão também interferir na nossa perceção sobre as situações que exigem uma tomada de decisão.

Para que tenha ideia, quando estamos tristes, os níveis de atividade do córtex pré-frontal baixam e geramos menos pensamentos. Ainda assim, fique com a referência de que para o nosso cérebro é melhor terminar uma tarefa do que a mesma ficar pendente e passar o resto da vida a perguntar-se “e se tivesse dito” e “se tivesse feito”.

O afunilar da atenção para as preocupações que estão por resolver pode conduzir a uma preocupação intensa e descontrolada, da qual seja difícil desligar.

Miguel Oliveira, piloto de motociclismo português, revelou a Daniel Oliveira, no Alta Definição, que numa das suas vitórias preferiu arriscar uma determinada curva, mesmo que tivesse de cair, do que ficar a perguntar-se constantemente o que teria acontecido, se não tivesse arriscado.

A ansiedade nem sempre me deixa decidir

Também aqui podemos recuar até 1908, aos trabalhos dos psicólogos Robert M. Yerkes e John Dillingham Dodson, mais concretamente à Lei de Yerkes-Dodson, para aprendermos algo sobre esta questão.

A lei pode ser representada graficamente com um U invertido para ilustrar a relação entre a aptidão mental e o desempenho em geral. Como podemos ver na imagem seguinte, temos um U invertido, com pernas que se estendem para as extremidades.

A alegria, a eficiência cognitiva e os melhores desempenhos acontecem no pico do U. Na parte inferior de uma das pernas fica o tédio, na outra parte a ansiedade. O que podemos constatar é que a ansiedade, ou o stress, não são por si só necessariamente maus.

A grande questão é a intensidade dessa ansiedade, ou stress, pois, a partir de um determinado nível ótimo de desempenho, quanto maior é a ansiedade que vivenciamos, mais prejudicada é a eficiência cognitiva do nosso cérebro, mais prejudicado é o nosso desempenho.

Por outras palavras, o ápice do desempenho cognitivo ocorre onde a motivação e o enfoque atingem o seu ponto mais alto, na intersecção da dificuldade de uma tarefa com a nossa capacidade de fazer face às suas exigências. Logo após esse pico de eficiência, os desafios começam a exceder as nossas capacidades, iniciando-se uma curva descendente.

Durante os períodos de ansiedade muito intensa, o cérebro liberta altos níveis de cortisol, que interferem com o funcionamento harmonioso dos mecanismos neuronais da aprendizagem e da memória, logo dificultando o processo de tomada de decisão.

Como se caracteriza a ansiedade?

A ansiedade caracteriza-se por um vasto conjunto de sintomas físicos (como palpitações, tremores, respiração acelerada, produção excessiva de suor, diminuição do tónus muscular) e de manifestações cognitivas, tais como a apreensão, hipervigilância, inquietação e maiores dificuldades em manter a atenção focada.

Estas respostas podem ser temporárias e expectáveis em situações de tensão, porém, poder-se-á falar em perturbações de ansiedade, quando estas manifestações ocorrem sem causa aparente ou se a reação a essa causa é desproporcional; quando estão relacionadas com elevados níveis de sofrimento ou com baixa capacidade de tolerância; quando estas manifestações são recorrentes ou persistentes. Nestes casos, o comportamento tende a ser disfuncional, com consequências negativas para o funcionamento global da pessoa.

Perante níveis elevados de ansiedade, que bloqueiem, inclusive, a capacidade de decidir, será fundamental beneficiar de uma intervenção psicológica especializada na promoção de recursos e procura de estratégias alternativas.

VEJA TAMBÉM:

A PÁGINA DESAFIOS DA MENTE