Desafios da Mente

Mentes vencedoras: a Psicologia no Desporto

Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Ninguém se atreve a questionar a importância que tem uma boa condição física na carreira de um atleta, mas, muitas vezes, são os fatores psicológicos que acabam por ser decisivos num resultado desportivo ou até na construção de um percurso de sucesso. Rui Patrício e Fábio Silva, dois futebolistas portugueses a jogar em Inglaterra, sabem bem a relevância de conseguir o equilíbrio entre o lado físico e o mental.

Ao longo dos anos, a Psicologia tem afirmado a sua importância nas mais variadas áreas de intervenção, com inegáveis benefícios para a sociedade. A atuação do psicólogo em contexto desportivo é um desses exemplos.

No mundo do desporto, sobretudo de alto rendimento, tem se falado muito sobre as características mentais dos atletas e a sua importância na determinação do sucesso desportivo.

Como se constrói uma mente vencedora?

O melhor mesmo é ouvir na primeira pessoa que caminho é necessário percorrer até alcançar o sucesso. Rui Patrício e Fábio Silva, dois portugueses a jogar no Wolverhampton, explicam como construíram, e continuam a construir, uma carreira recheada de bons resultados.

Rui Pedro dos Santos Patrício, 33 anos, é o guarda-redes titular da seleção nacional de futebol e joga em Inglaterra desde 2018. À conversa com o Desafios da Mente, começa por dizer que o que define uma mente vencedora "é o querer muito estar no top" e fazer tudo para o conseguir, mesmo sabendo que isso implica sacrifícios, que começam muito cedo na vida de um atleta.

Confessa que sempre teve o sonho de chegar à mais alta competição. Por isso, dava o máximo em todos os treinos e jogos. Hoje, não hesita em dizer que o segredo do sucesso é o trabalho.

Fábio Daniel Soares Silva estreou-se na I liga pelo FC Porto em agosto de 2019. Com apenas 17, tornou-se o futebolista mais jovem da história do clube a jogar no campeonato nacional de futebol.

Fábio Silva é muito jovem, tem 18 anos, mas não tem dúvidas que uma mente vencedora é aquela que quer ser a melhor versão de si mesma e superar-se todos os dias. Considera ainda que deve ser focada e humilde e, acima de tudo, deve ter paixão por tudo o que faz.

A resistência mental

A propósito das características psicológicas que contribuem para o sucesso desportivo, destaca-se o conceito de resistência mental.

Um grupo de atletas com experiência internacional foi questionado sobre o significado de resistência mental e avançou com a seguinte definição: “resistência mental é ter a vantagem psicológica natural ou desenvolvida que permite, geralmente, lidar melhor do que seus oponentes com muitos desafios (competição, treinos exigentes, estilo de vida) que o desporto exige e impõe ao atleta. Especificamente, permite um comportamento mais consistente e melhor do que os adversários, no que diz respeito a permanecer determinado, focado, confiante e no controlo em situações de pressão”.

A resistência mental pode ser exibida em comportamentos muito diferentes, inclusive em função do desporto em que se manifesta.

Por exemplo, no golfe, existe a resistência mental da "tacada final", destacada pela força mental que é exigida ao jogador para manter o autocontrolo durante um momento crítico.

Isso contrasta com a resistência mental exigida a desportistas como Lewis Hamilton ou Miguel Oliveira, aos quais é pedido para serem mentalmente fortes o suficiente para assumir os riscos calculados como necessários para vencer num desporto de alta velocidade e alto risco.

Por sua vez, é bastante diferente a resistência mental necessária a um atleta olímpico em que se exige o pico do seu sucesso num determinado momento, comparativamente a atletas que têm de competir todas as semanas, ao longo de várias épocas.

Falar de resistência mental no desporto é integrar um conjunto de atributos, tais como a autoconfiança, a motivação, saber lidar com a pressão e ansiedade, o foco, a dor e o sofrimento, a flexibilidade emocional, a resiliência.

Por isso, importa destacar quatro importantes fatores que a investigação identificou como necessários a um atleta de sucesso.

A influência ambiental e a experiência de vida

O primeiro fator foi a influência ambiental, ou seja, a combinação das características do meio ambiente e as lições aprendidas com a experiência de vida enquanto pessoa e enquanto atleta em desenvolvimento.

Os jogadores nem sempre tiveram sucesso ao longo de seus anos de formação. Ao refletir, vários jogadores demonstraram valorizar o caminho difícil para o sucesso e reconheceram que houve resultados positivos, apesar das experiências ditas negativas.

Também neste âmbito, a influência parental é crucial, pois vários atletas reconhecem que um ou ambos os pais foram uma influência importante.

Fábio Silva confessa que o pai e também o irmão contribuíram para a paixão que tem pelo futebol.

A personalidade

O segundo fator que merece referência é a personalidade, entrando aqui em jogo:

  • a independência, como a capacidade de assumir responsabilidades;
  • a autocrítica, que influencia de forma importante a capacidade dos jogadores para manter padrões elevados de desempenho;
  • a competição com o próprio e com os outros, em que os jogadores ambicionam ser os melhores do jogo e também em relação ao seu próprio potencial;
  • por fim, a confiança e a resiliência, como forma de garantir que os níveis de autoconfiança não sejam facilmente afetados.

A atitude do atleta

O terceiro fator para a formação de uma mente vencedora envolve as atitudes do atleta, em concreto, explorar oportunidades de aprendizagem, acreditar na qualidade dos treinos de preparação, autodefinir metas desafiantes, não desistir e ir até ao limite.

Tudo isto envolve a disponibilidade para correr riscos a fim de dar o próximo passo em direção aos seus objetivos.

O pensamento de vitória

O último e quarto fator diz respeito aos padrões de pensamento que um atleta deve ter.

Uma componente considerável do trabalho da psicologia do desporto concentra-se no desenvolvimento de um pensamento de "vitória", auxiliando o atleta a permanecer totalmente focado, a não ser afetado negativamente por terceiros e a aceitar a ansiedade da competição.

Superar as dúvidas sobre si mesmo e manter o controlo sobre o pensamento são aspetos fundamentais para saber exatamente onde residem os pontos fortes e as limitações, de modo a tomar decisões com base nessa avaliação.

Vencer no desporto não é apenas trabalho físico. Tem, e muito, de componente mental. Rui Patrício explica a importância de conseguir o equilíbrio entre o físico e o psicológico.

O que é a Psicologia do Desporto?

A Psicologia do Desporto diz respeito às interações entre a psicologia e a performance desportiva, em particular os aspetos psicológicos que contribuem para um rendimento de excelência e para o bem-estar dos atletas, treinadores e restantes agentes desportivos.

Abrange ainda os aspetos sociais e de desenvolvimento da participação desportiva, bem como questões relacionadas com o ambiente e organizações desportivas.

Canva

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Desta forma, a atuação pode suceder num registo individual, grupal e/ou organizacional e o objetivo passa por melhorar o rendimento, promover o desenvolvimento pessoal e social, garantir o bem-estar e fomentar competências psicológicas relevantes para o sucesso.

Tal objetivo é alcançado com o recurso a conhecimentos da Psicologia que se encontram suportados em investigação científica sólida, dando assim garantias da prestação de um serviço de elevada qualidade e, sobretudo, de eficácia comprovada.

Assim, o custo-benefício e os resultados positivos da ação dos psicólogos no desporto são uma realidade.

As intervenções na Psicologia do Desporto, ao serem projetadas para auxiliar os atletas e outros participantes (por exemplo, pais, administradores, treinadores) numa ampla gama de configurações, níveis de competição e idades, podem ir de participantes recreativos a atletas e artistas profissionais de alto nível de mestria e exigência.

Rui Patrício consegue identificar facilmente o antes e o depois da Psicologia na sua vida. O guarda-redes começou a trabalhar a performance desportiva e diz que "foi muito importante para o bem-estar interior e desportivo".

Qual o papel do psicólogo do Desporto?

Uma das funções e atividades em que os Psicólogos do Desporto podem aplicar os seus conhecimentos é a avaliação psicológica com recurso a técnicas para medir, de forma adequada e válida, características e comportamentos, ao nível da análise do perfil do atleta.

A intervenção neste contexto pode passar pelo treino de competências associadas com o sucesso em contexto desportivo, tais como competências emocionais, motivação, concentração, autoconfiança, comunicação e relação interpessoal, responsabilidade, autonomia, liderança, trabalho em equipa, comportamento ético, entre outras.

Pode incluir também a monitorização, enquanto acompanhamento regular dos diferentes agentes no seu contexto, com a finalidade de otimizar o desempenho individual e/ou coletivo. Situações de fragilidade emocional, devido a lesões recorrentes, afastamento familiar, gestão de conflitos, transição e fim de carreira, ou outras, beneficiam de uma intervenção em crise.

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O coaching psicológico ao promover o potencial de alguém e maximizando o desempenho é também uma aplicação relevante da ciência psicológica com vista à melhoria do rendimento e bem-estar dos indivíduos, grupos e organizações.

A formação é outro fator crucial para o desenvolvimento, inovação e capacitação dos diferentes intervenientes. A título de exemplo, destaca-se a formação estruturada para treinadores, atletas, pais, árbitros, entre outros, em áreas como capacidade de comunicação, trabalho em equipa, desenvolvimento de talentos, identificação precoce e prevenção de dificuldades psicológicas, motivação atlética, entre outras.

A consultoria e assessoria, tendo em conta os conhecimentos teóricos e práticos sobre o funcionamento do comportamento humano e a capacidade de os integrar numa análise estratégica, é uma mais-valia para as organizações do ponto de vista operacional e no apoio à tomada de decisões. A elaboração de pareceres, a supervisão e coordenação de atividades, a elaboração de projetos vários são igualmente contributos valiosos.

A investigação é também fundamental ao permitir a evolução do conhecimento, a otimização de novas práticas e o desenvolvimento de formas inovadoras de intervenção sustentadas em conhecimento científico.

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