Eleições nos EUA

Alterou Trump a política americana?

Jonathan Ernst

Nuno Rogeiro

Nuno Rogeiro

Comentador SIC

Pode Trump mudar a política americana, mesmo depois de partir, agora ou em 2024?

Há políticos que deixam marca, para além da passagem institucional e física pelos cargos.

Cavaco Silva alterou indelevelmente o PPD de Sá Carneiro. Transformou-o noutra coisa.

De Gaulle modificou, em quantidade e qualidade, por acção e omissão, a ideia da França, como se mostra aliás brilhantemente num livro recém-publicado de Michel Onfray.

Abraham Lincoln atravessou o Rubicão, e atou os Republicanos, de forma inescapável, à causa da abolição da escravatura.

Concorrendo como independente, George Washington habituou os EUA a uma figura presidencial que pudesse ultrapassar os partidos, mesmo vindo deles.

Como tentei explicar em cerca de 800 páginas e dois livros («O Pacto Donald» e «Trump: Um Balanço»), o inquilino número um da Casa Branca não só mudou a política do Partido do Elefante, como a política estadual e federal, e a forma de estar, de pensar e de falar a mesma política.

1. A estratégia pessoal de intervenção por twitter e Facebook foi uma revolução. Muitos dirigentes recorriam às redes sociais, desde que estas se tornaram populares. Mas faziam-no essencialmente como forma ou de promoção da política pública conhecida, ou de recordações pessoais de bagatelas, que os humanizassem.

Trump preferiu usar esses meios como segunda linha de intervenção, às vezes reforçando, às vezes pormenorizando, às vezes interpretando e às vezes contradizendo o que chamaremos de «política evidente do Estado».

Por outro lado, utilizou a comunicação em rede como forma de defesa e ataque pessoal, entendendo que não tinha outra alternativa, face a um universo mediático hostil.

Muitos detectaram as transformações que isto produziria em todo o sistema político. Mas poucos seguiram essas mudanças, no dia a dia, analisando-as em bloco. E a verdade é que todos os actores, partidários ou não, acabaram por assumir nas suas vidas um constante estado de alerta, resposta ou antecipação aos «Trump tweets». O jogo estava marcado e tinha uma lógica.

Esta transformação obrigou também as instituições públicas a um constante modo de vigília, com a necessidade de explicar algo que não era nem verdadeiramente política oficial, nem o seu contrário. Mike Pompeo foi o homem que mais tentou uma linha de escape: o Twitter era um universo à parte, pessoal, de Trump, não comentável. Mas a evasiva nem sempre resultou.

2. Um segundo elemento de transformação Trumpista da realidade não foi original, mas foi marcante. Trata-se da chegada ao centro do poder do estado de um «político anti-político», de «fora do sistema». Isto tem tradição na história americana, com o chamado «mito da cabana de madeira», dos nascidos em berço pobre que se fazem homens ricos, dos homens ricos que não precisam da política, e por isso se decidam a ela, ou dos que se declaram fartos das mesuras e regras de Congresso, Tribunais e gabinetes executivos, e preferem uma via «iluminada» por si mesmos, ou pelas suas inspirações de vida.

Trump chega à Casa Branca disposto a violar todas as regras de conduta e protocolos, a não respeitar nenhum comando que lhe pareça ou injusto, ou desnecessário, ou incompreensível, embora se tenha esforçado para aprender algo com os mestres de etiqueta pública, um pouco como a rebelde cockney de Pigmaleão.

Esta «maneira própria de fazer as coisas» (eufemismo para um furacão) transformou as relações de dominância dentro da Casa Branca, e entre a Casa Branca e outros sectores da administração e do poder político. Resultou numa torrente de nomeações e demissões, cortes de relação mais ou menos bruscos, mais ou menos azedos. Claro que há uma longa tradição de facadas nas costas na presidência, desde há dois séculos e meio. Mas os episódios tornam-se mais picantes, desta vez, porque a sociedade também se tornou mais «voyeurista», e porque a bagagem televisiva e empresarial de Trump foi mais forte do que as vozes dos arautos do silêncio tumular.

Costumava dizer-se, desde Tip O’Neill, que dominou o parlamento durante muito tempo, que «toda a política americana é local». Com Trump, toda a política americana passou a ser pessoal.

Neste reino, as fidelidades individuais valem mais do que o apoio político ou doutrinário. Um discordante das propostas de Trump, ou daquilo que podemos presumir como suas ideias, pode ser bem aceite pela corte presidencial, desde que respeite pessoalmente o titular. Um adepto convicto dos programas anunciados por Trump para mudar a América – do sistema fiscal ao regresso à ind´sutria pesada, depressa E EM FORÇA – pode tornar-se uma besta negra do presidente, se mostrar que não o considera como ser humano.

3. Um terceiro elemento de mudança reporta-se à própria estrutura do partido que, formalmente, apoia Trump, e que este apoia. Há quem diga que uma derrota de Trump pode transformá-lo num novo Nixon. Mais vale que o partido o esqueça. Vae victis. Ai dos vencidos.

Mas tudo depende de saber que dimensão terá a derrota. Se esmagadora, claro que provocará o fim total. Mas se ligeira, pode manter viva uma ala «Trumpista» dentro do partido. Mesmo não maioritária, poderá ser decisiva para desempatar questões, e pode crescer com os seus meios próprios de comunicação.

Se Trump ganhar, porém, mesmo que sem o voto popular, em patamares que vão de 274 a 280 votos eleitorais, as coisas serão diferentes. Os Republicanos terão de passar a ser o partido-símbolo de Trump, acelerando mais a tendência, detectada entre os adversários, de se transformarem de partido em culto.

PS- Numa entrevista a George Glass, embaixador dos EUA em Lisboa, o Diário de Notícias cita uma frase do PM António Costa, segundo o qual «uma reeleição de Trump será um desastre». Independentemente do que cada um possa pensar intimamente, ou de forma pública, sobre Trump e a sua política, há que distinguir entre o comentador, o analista, o cidadão e o chefe de governo de um estado. Este encontra-se obrigado a não interferir nos assuntos internos de outros países. O PM português conhece a lei, a Constituição, a prática internacional e a política da UE. Não poderia ter assim dito o que foi citado. E não observo isto apenas pelo motivo cínico da possibilidade de uma vitória Trump. Falo por uma questão de princípio.

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