Presidenciais

Livre declara apoio oficial a Ana Gomes nas presidenciais

JOSÉ SENA GOULÃO

Ex-eurodeputada recolheu 88,9% dos votos de membros e apoiantes.

O partido Livre anunciou esta segunda-feira o seu apoio oficial à candidata Ana Gomes, nas eleições presidenciais, depois de uma consulta interna na qual a ex-eurodeputada recolheu 88,9% dos votos de membros e apoiantes.

Em comunicado, o partido anunciou os resultados da consulta interna que teve lugar nos dias 18 e 19 de setembro, o "em que a antiga eurodeputada obteve uma esmagadora maioria dos votos (88,9%)" - que correspondem a 255 votos.

Em segundo lugar, com 9,88% (25 votos) ficou a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, Marisa Matias, numa eleição que contou ainda com 3 votos em "restantes candidatos", 16 brancos e 11 nulos.

Os membros e apoiantes foram também claros quando questionados sobre se o Livre deveria ou não apoiar um candidato às eleições presidenciais, com 91% a votar "sim" e apenas 9% a optar pelo "não".

"Ana Gomes tem mostrado que será uma presidente livre, dialogante e firme. Este é um posicionamento fundamental em vésperas de Portugal assumir a Presidência do Conselho da União Europeia e de beneficiar de um Pacote de Recuperação Económica", sustentou o Livre em comunicado.

Para o partido da papoila, Ana Gomes será "decisiva nos combates contra a corrupção e a evasão fiscal", caracterizando-a como uma Presidente "conhecedora, respeitadora e zeladora da Constituição da República Portuguesa" que "responderá à emergência de ameaças autoritárias e salvaguardará acima de tudo os Direitos Humanos".

Na passada quarta-feira, o Grupo de Contacto (Direção) do partido tinha já recomendado aos seus membros e apoiantes a escolha de Ana Gomes como candidata a apoiar na corrida a Belém por considerar que a "área política de esquerda deve ser reforçada nestas eleições".

A seis meses do fim do mandato do atual Presidente da República, são já oito os pré-candidatos ao lugar de Marcelo Rebelo de Sousa.

São eles o deputado André Ventura (Chega), o advogado e fundador da Iniciativa Liberal Tiago Mayan Gonçalves, o líder do Partido Democrático Republicano (PDR), Bruno Fialho, a eurodeputada e dirigente do BE Marisa Matias, a ex-deputada ao Parlamento Europeu e dirigente do PS Ana Gomes, Vitorino Silva (mais conhecido por Tino de Rans), o ex-militante do CDS Orlando Cruz e a partir de hoje João Ferreira, do PCP.

Ana Gomes: "Cada macaco no seu galho. Há demasiado encosto do Presidente ao Governo"

A ex-eurodeputada socialista Ana Gomes afirmou que "há demasiado encosto" entre o Presidente da República e o Governo e advertiu que num segundo mandato Marcelo Rebelo de Sousa tentará comandar o primeiro-ministro.

Ana Gomes, que anunciou que irá candidatar-se a Presidente da República, assumiu estas posições numa entrevista à RTP3, durante a qual também revelou que vai ser apoiada por Isabel Soares, filha do antigo chefe de Estado e fundador do PS, Mário Soares.

Durante a entrevista, a diplomata fez sobretudo críticas à atuação do chefe de Estado e à linha política seguida pela direção do seu partido em relação às eleições presidenciais de 2021.

"Mesmo que fosse o meu melhor amigo, eu jamais teria tolerado com um sorriso embaraçado ou cúmplice que um primeiro-ministro lançasse a minha recandidatura à Presidência da República, que foi aquilo que se passou naquele episódio na fábrica da Autoeuropa", em abril, entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, referiu Ana Gomes.

Um Presidente "completamente ausente"

Ana Gomes acusou também Marcelo Rebelo de Sousa de "estar completamente ausente do debate sobre as grandes prioridades estratégicas de Portugal", embora esteja sempre "a comentar a espuma dos dias", mas insurgiu-se principalmente sobre o sistema de relações entre os órgãos de soberania Presidência da República e Governo.

"Repito que faço um mandato globalmente positivo do Presidente da República, mas acho que cada macaco no seu galho. Há demasiado encosto do Presidente ao Governo e do Governo ao Presidente", apontou.

Na entrevista, a ex-eurodeputada procurou também dirigir várias mensagens aos eleitores do espaço do PS, chegando mesmo a dizer que Marcelo Rebelo de Sousa não pode ser apoiado "por verdadeiros socialistas".

"Somos diferentes. Eu sou progressista e ele é conservador", disse, procurando traçar aqui uma linha de demarcação de caráter ideológico.

O aviso de Ana Gomes

Mas Ana Gomes foi mais longe com um aviso sobre o que poderá ser um segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República.

"Dá ideia de que um dia vai querer de facto comandar quem quer que exerça o cargo de primeiro-ministro. Está-lhe na massa do sangue, do tipo de jogos em que ele se compraz, o tipo de percurso político nos bastidores da política em que ele sempre foi exímio. Ora bem, eu acho que este é o momento para os socialistas pensarem bem que, se se mobilizarem, podem ter alternativa", disse.

E a sua relação com o PS?

Em relação ao PS, Ana Gomes afirmou esperar que este partido dê liberdade de voto aos seus militantes nas próximas eleições presidenciais e recorreu ao passado das décadas de 80 e 90 para tirar a seguinte conclusão: "Sempre que o PS esteve unido nas eleições presidenciais fez a diferença, elegendo Mário Soares e Jorge Sampaio; sempre que o PS esteve desunido ou não foi a jogo, a direita ganhou".

A ex-eurodeputada socialista tentou ainda estabelecer diferenças face a outras candidaturas presidenciais já anunciadas, como as de João Ferreira, do PCP, e de Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, classificando-as como "candidaturas partidárias".

Questionada sobre o líder do Chega, a diplomata respondeu que não o conhece pessoalmente e considerou "uma medalha de honra" André Ventura caracterizá-la como "candidata cigana", salientando que a extrema-direita é a sua inimiga nas próximas eleições presidenciais.

Já na parte final da entrevista, Ana Gomes foi confrontada com as acusações de que é populista, faz julgamentos na praça pública e desrespeita a presunção da inocência, mas rejeitou-as.

"Fiz denúncias escritas sempre com a minha cara e nunca anónimas. Vi foi muitas vezes as instâncias de justiça serem abafadas para que não se fizesse justiça, como nos casos dos submarinos ou do apagão fiscal", contrapôs.

Depois, a ex-eurodeputada do PS voltou a criticar a atitude "altamente questionável" do primeiro-ministro, António Costa, manifestar apoio à recandidatura do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira.

"Isso sim é que é uma deriva populista. E não foi só do primeiro-ministro", acrescentou.