Presidenciais

André Ventura: o candidato anti-sistema gerado pelo próprio sistema

Rafael Marchante

É líder e motor do Chega. Licenciou-se e fez o doutoramento em Direito, porque queria fugir ao destino daqueles que nascem e crescem em zonas suburbanas. Ganhou espaço como político no PSD, como comentador na CMTV e como professor universitário em diferentes faculdades.

Tem 38 anos, nasceu em Algueirão, Sintra, e é uma das figuras mais polémicas e disruptivas da política em Portugal. O seu pai era dono de uma loja de bicicletas e a mãe empregada de escritório.

Por convicção própria, quis batizar-se, fazer a primeira comunhão e o crisma aos 14 anos. Daí seguiu-se a ida para o Seminário, impulsionada pela grande fé que ainda hoje tem. A paixão veio a ditar o fim do seu caminho para o sacerdócio. Atualmente, é casado com Dina Nunes, que o acompanha discretamente em eventos públicos, e com quem partilha a fé.

Considera que o Papa Francisco tem prestado um mau serviço ao cristianismo, mas revê-se em João Paulo II. Em dezembro, escreveu no Twitter que Deus lhe tinha confiado “a missão de transformar Portugal”. E para definir o seu modo de estar na vida, gosta de invocar São Paulo: ”Deus vomitará os mornos”.

“Eu vejo a fé como São Paulo a vivia: ou é para sermos radicais ou não vale a pena. Talvez eu seja um pouco radical em tudo o que faço na vida. No futebol e na política sou uma pessoa de convicções muito fortes. E acho que, de alguma forma, Deus me ajudou a perceber isso”, revelou numa entrevista ao jornal Sol.

O sucesso na Academia

Licenciou-se em Direito na Universidade Nova de Lisboa com 19 valores. Foi um aluno brilhante, o que mais tarde lhe valeu um lugar na Autoridade Tributária das Finanças, entidade que deixou em 2014 quando pediu uma licença sem vencimento.

Prosseguiu para o Doutoramento em Direito Público pela Faculdade de Direito da Universidade de Cork, na Irlanda. A tese, concluída em 2013, criticava o “populismo penal” e a “estigmatização de minorias” - duas ideias que são a antítese do que agora defende.

Nesse ano começou a lecionar na Universidade Autónoma de Lisboa, na qual permaneceu até 2019, e depois na Universidade Nova de Lisboa, até 2018. Fazia comentário futebolístico na CMTV e mantinha a atividade política no PSD ao mesmo tempo que dava aulas. Mas, na sala de aula, só havia espaço para falar de leis e não de ideologias políticas. Já nos intervalos os alunos procuravam-no para falar sobre o programa de futebol.

Do PSD ao Chega o caminho fez-se rápido

No meio da aparente calmaria, Ventura dá o primeiro grande passo no PSD. Encabeçou a lista candidata à Câmara Municipal de Loures, numa coligação com o CDS. Levava para o debate ideias arrojadas como, por exemplo, criar 10 mil postos de trabalho e arrancar, um por um, todos os parquímetros do concelho.

Numa entrevista ao jornal I, em julho de 2017, declarou: “Os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado”, abrindo a porta a uma luta que trava até hoje. Defendeu ainda, nessa entrevista, a prisão perpétua para certos tipos de crimes, como é o caso de “terroristas perigosíssimos”.

“O que acontece hoje em Portugal é que, no máximo, terá 25 anos de pena, que na verdade nunca serão 25 anos. Começa a chegar ao fim da pena, 21, 22, e o terrorista diz: ‘Quando eu sair vou matar mais gente’. Sabe o que acontece? Ele tem de sair na mesma porque cumpriu a pena e o sistema não permite alargá-la”, explicou ao I, utilizando também o caso de Pedro Dias como exemplo.

Perdeu a Câmara de Loures, mas conseguiu um lugar como vereador que ocupou por pouco tempo. Em 2018, entrou em rota de colisão com a liderança de Rui Rio e criou o movimento “Chega!” dentro do partido, prometendo recolher 2.500 assinaturas numa semana. Ao longo do processo, a Câmara de Loures decidiu demarcar-se da iniciativa do vereador e Ventura acabou por renunciar ao cargo.

Inspirado pelo movimento que criara contra Rio, avançou com a fundação do seu próprio partido. Recolheu assinaturas em tempo recorde, num processo que viria a gerar polémica. No meio de milhares de nomes surgiram centenas de assinaturas inválidas - de pessoas já mortas ou de menores de idade. Entretanto, outras centenas foram submetidas e validadas pelo Tribunal Constitucional. E assim, nasce o Chega a 19 de abril de 2019.

Anunciou-se como um candidato anti-sistema, apesar de ter crescido politicamente no seio de um dos grandes partidos do sistema. Até hoje, tem Francisco Sá Carneiro, fundador do PSD, como um ídolo.

Sem perder tempo, candidatou-se às eleições europeias em maio de 2019, como cabeça de lista da coligação Basta!, integrada pelo Chega, pelo Partido Popular Monárquico e pelo Partido Cidadania e Democracia Cristã, mas não conseguiu um lugar no Parlamento Europeu.

Em apenas cinco meses, o Chega cresceu o suficiente para conquistar um lugar na Assembleia da República. O partido arrecadou 1,29% dos votos nas eleições legislativas, em outubro de 2019. André Ventura chega ao Parlamento menos de um ano depois da fundação do partido, e senta-se no lugar mais à direita do hemiciclo.

O Chega é ou não de extrema-direita?

Considera que o Chega não é um partido de extrema-direita, uma vez que é "europeísta e acredita na liberdade”. Mas a discussão não fica por aqui. Quando André Ventura conseguiu um lugar no Parlamento, noticiava-se a chegada da extrema-direita a Portugal. E, por mais que se queira distanciar do “rótulo”, as amizades que nutre com políticos europeus da extrema-direita denunciam o gosto que tem por determinadas ideologias.

Pedro Nunes

Marine Le Pen, líder da União Nacional francesa, é uma dessas figuras. Na semana passada, viajou até Portugal para apoiar a candidatura de André Ventura às eleições presidenciais. Numa conferência de imprensa conjunta, o líder do Chega voltou a frisar: “Nós não somos de extrema-direita”.

Em 2017, José Pinto Coelho, líder do PNR, chegou a classificar Ventura “como um dos seus” e, mais tarde, veio a acusá-lo de copiar o programa do Partido Nacional Renovador, uma formação de extrema-direita assumida.

“Repudio veementemente o apoio da extrema-direita”, disse na altura André Ventura, definindo o PNR como um partido de caráter “extremista, racista e xenófobo”.

A tolerância ou intolerância em relação aos ciganos

A comunidade cigana é uma das mais visadas por André Ventura, que defende que Portugal é “demasiado tolerante com algumas minorias”.

“Dizem-me muitas vezes: ‘Se os tira de casa, eles vão acampar para o meio da rua ou para a porta da câmara municipal.’ É preciso esclarecer o seguinte: o Estado de direito não pode ter medo de grupo nenhum nem de minorias nenhumas, tem de estar acima de tudo. As pessoas ditas "normais" ou da "maioria", se não pagarem a sua casa ou a sua renda, não são despejadas?”, questionou numa entrevista ao jornal I.

O discurso do líder do Chega contra a comunidade cigana foi-se agravando ao longo do tempo. Publicações no Twitter, onde dizia que quase 90% da comunidade cigana vivia de 'outras coisas' que não o seu próprio trabalho, valeram-lhe multas aplicadas pela Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial.

Em maio de 2020, na sequência da pandemia de covid-19, chegou a propor um “plano de confinamento específico para a comunidade cigana”. Indignado com a proposta de Ventura, o futebolista Ricardo Quaresma disse que o discurso do líder do Chega era racista. No seguimento da polémica, André Ventura foi dispensado da CMTV.

O homem que vai a todas

Depois de se candidatar às eleições europeias, apresentou-se também como candidato nas legislativas - onde conseguiu a sua primeira vitória, um lugar no Parlamento - e às eleições presidenciais.

Foi o primeiro a avançar como candidato, a 8 de fevereiro de 2020, em Portalegre. Em dezembro, entregou 10.250 assinaturas no Tribunal Constitucional para formalizar a candidatura, que foi aprovada no dia 30 desse mês.

Convidou a atriz Maria Vieira para ser a mandatária presidencial junto das comunidades portuguesas no estrangeiro e Patrícia Sousa Uva para mandatária nacional, que se demitiu do partido, e que veio a ser substituída por Rui Paulo Sousa, 7.º vogal da direção nacional.

MIGUEL A. LOPES

Há Chega sem Ventura? E Ventura sem Chega?

A linha que separa André Ventura do Chega é ténue. É até conhecido como o “líder do partido de um homem só”.

Na sequência de conflitos internos, Ventura demitiu-se da liderança do partido em abril de 2020. Porém, no vídeo em que anunciou a sua demissão aproveitou para lançar também a sua recandidatura. Pouco ou nada mudou no partido. No início de setembro foi reeleito, com 99,1% dos votos.

Mas foi na Convenção Nacional do Chega, em Évora, que os militantes lhe trocaram as voltas ao chumbarem a sua lista para a direção por duas vezes. Foi ao palco assumir o fracasso e até chorou, quando se viu na iminência de ter sair do partido que fundou.

Há agora a possibilidade de uma nova demissão. André Ventura prometeu demitir-se do partido caso Ana Gomes, candidata independente apoiada pelo Livre e pelo PAN, fique à sua frente na corrida a Belém.

O líder considera que, se Ana Gomes ficar à sua frente, tem de "pôr o seu lugar à disposição do partido", porque "fez mal o seu trabalho”. No entanto, pode recandidatar-se, tal como fez quando anunciou a primeira demissão.

André Ventura entra na corrida a Belém com o objetivo de ir a uma segunda volta com Marcelo Rebelo de Sousa, atual Presidente da República e recandidato ao cargo.

Esta semana, o líder do Chega tem estado debaixo de fogo por ter insultado os seus adversários. Criticou o batom vermelho de Marisa Matias, chamou "contrabandista" a Ana Gomes, "avô bêbedo" a Jerónimo de Sousa e "operário beto" a João Ferreira.

  • 1:13