Presidenciais

Marcelo dominou, Ana Gomes foi 2.ª mas Ventura venceu mais distritos. Esquerda caiu a pique

MÁRIO CRUZ

Os números, o comparativo, os discursos e a análise, candidato a candidato, dos resultados finais das eleições presidenciais 2021.

Está apurada a totalidade dos votos destas eleições Presidenciais. Os resultados provisórios deixavam antever uma noite eleitoral de poucas surpresas, que, entretanto, os resultados oficiais vieram confirmar.

Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito à primeira volta, com 60,7% dos votos, tendo a disputa pelo segundo lugar sido discutida entre Ana Gomes e André Ventura. A candidata conseguiu 13,0% dos votos, seguida por André Ventura, com 11,9%.

Uma das surpresas da noite chegou com a derrota pesada de Marisa Matias, com 4,0% dos votos, menos cerca de seis pontos percentuais do que nas anteriores Presidenciais, e atrás de João Ferreira, que conquistou 4,3% dos eleitores que foram às urnas.

Por fim, Tiago Mayan, que se destaca com um resultado de 3,2%, ficando à frente de Vitorino Silva, que juntou 2,9% dos votos.

Abstenção foi a mais elevada de sempre para a escolha do chefe de Estado

Um dos grandes números da noite é o da abstenção, que nestas eleições Presidenciais, a nível global, ficou em 60,5% (território nacional e votação no estrangeiro). Em território nacional foi de 54,5%, a mais elevada de sempre para a escolha do chefe de Estado, superior à de 2011 (53,5%) e 2016 (51,3%). Ainda assim, os especialistas sublinham a mobilização dos portugueses, que foram às urnas mesmo com mau tempo e durante uma pandemia.

Nestas eleições em contexto de pandemia, nas quais Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito Presidente da República, votaram 4,2 milhões de eleitores, menos de metade dos 9,3 milhões de inscritos no território nacional.

Nota ainda para os votos em branco (1,1%) e nulos (0,9%).

Os destaques da noite: A ‘soberania’ de Marcelo

Marcelo, à semelhança das últimas eleições Presidenciais, em 2016, conquistou a maioria dos votos dos eleitores portugueses, garantindo uma vitória à primeira volta, com uma distância considerável para o segundo candidato mais votado. Não só conseguiu mais votos, como venceu em todos os distritos do país.

As projeções da SIC, ao início da noite eleitoral, apontavam para números entre os 55,5% e 60,5%, tendo o candidato conseguido 60,7%, uma subida considerável em relação a 2016.

"Sinto-me profundamente honrado". O discurso de vitória de Marcelo Rebelo de Sousa

O Presidente reeleito começou o discurso lembrando as vítimas de covid-19 e afirmou depois que estava "profundamente honrado" pela confiança manifestada pelos portugueses "em condições tão difíceis".

"Deixem-me dizer, de coração aberto, como me sinto profundamente honrado e agradecido por essa confiança em condições tão mais difíceis do que as de 2016", declarou Marcelo Rebelo de Sousa, num discurso feito no átrio da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde foi aluno e professor.

Deixou um agradecimento a todos os portugueses, os que votaram, os que não conseguiram, os que não quiseram e aqueles que estiveram por trás do ato eleitoral.

"Para todos eles, em particular os que mais se sacrificaram para que a democracia não fosse vencida pela pandemia, vai uma palavra de gratidão ilimitada pelo serviço que prestaram à liberdade, ao Estado de direito e a Portugal."

Ventura ficou em segundo lugar em 11 distritos

André Ventura juntou nestas eleições Presidenciais 11,9% dos votos, um crescimento acentuado face ao resultado que o partido que lidera, o Chega, obteve nas eleições legislativas de 2019, 1,29%. O candidato ficou em terceiro lugar, logo atrás de Ana Gomes, que obteve apenas mais um ponto percentual.

André Ventura ficou em segundo lugar em 11 distritos e na Região Autónoma da Madeira. São eles:

  • Bragança
  • Vila Real
  • Viseu
  • Guarda
  • Castelo Branco
  • Leiria
  • Santarém
  • Portalegre
  • Évora
  • Beja
  • Faro

André Ventura ficou em segundo lugar em todos os distritos do Interior, de Norte a Sul. Leiria foi o distrito onde o candidato do Chega obteve a menor votação (12,5%) e Portalegre aquele onde conseguiu a maior percentagem de votos (20,04%).

Além disso, o candidato de extrema-direita André Ventura ficou em segundo lugar nas presidenciais em cerca de 200 concelhos, mais do dobro do que Ana Gomes, segundo cálculos do portal de estatística Eyedata.

Dos 308 concelhos, Ana Gomes ficou em segundo lugar em 90 concelhos e terceiro em 192.

André Ventura: "Esmagámos a extrema-esquerda em Portugal"

O candidato André Ventura anunciou este domingo que vai pedir a demissão de presidente da direção nacional do Chega, após ter ficado em terceiro lugar atrás da sua adversária Ana Gomes e para cumprir uma processe eleitoral.

"Nós somos firmes naquilo que defendemos. Ficámos aquém dos 15% que eu deveria ter, com algumas décimas de diferença da candidata que representa o que Portugal de pior tem, a esquerda mais medíocre e colada às minorias e àqueles que têm destruído Portugal. Não fugirei à minha palavra. Devolverei a palavra aos militantes do Chega", disse.

No discurso num hotel em Lisboa, que serve de sede à candidatura, André Ventura confirmou a decisão de "devolver a palavra aos militantes", anunciando que se irá recandidatar ao cargo.

O terceiro classificado na corrida presidencial alertou o PSD de que "não haverá Governo em Portugal sem o Chega".

"Não há segundas-vias depois desta noite. Hoje ficou claro em Portugal e para a Europa e para o Mundo que não haverá Governo em Portugal sem que o Chega seja parte fundamental. Não há volta a dar. PSD, ouve bem, não haverá governo em Portugal sem o Chega!", gritou.

O candidato apoiado pelo Chega falou numa "noite histórica". Afirmou que conseguiu "criar uma avassaladora força antissistema" e que a extrema-esquerda em Portugal foi "esmagada".

André Ventura ficou em terceiro lugar nestas eleições presidenciais, com cerca de 496 mil votos.

Será este um sinal da reformulação da direita?

O resultado está a ser considerado “surpreendente” e representativo de uma “alteração profunda do sistema partidário”, sobretudo à direita, e motivou reações de vários candidatos e partidos. Marisa Matias foi das primeiras a reagir, informando que falou com Ana Gomes e que elogiou a “frontalidade e solidariedade” da adversária “acima das aldrabices e ódio de André Ventura”.

João Ferreira afirmou-se apenas empenhado na defesa da Constituição, da democracia e da liberdade, e em combater “projetos antidemocráticos e de confronto com a Constituição”, deixando uma crítica indireta ao adversário.

Seguiu-se Tiago Mayan, apoiado pela Iniciativa Liberal, defendendo a ideia de que "há cada vez mais gente que quer um caminho que não passe pelas alternativas dos últimos 40 anos, mas também não alinham no discurso que quer colocar portugueses contra portugueses".

A nível partidário, o CDS foi o primeiro a manifestar-se, destacando o "pior resultado de sempre" da esquerda em eleições presidenciais, mas deixando de lado o resultado de André Ventura. Já o PAN considerou a vitória de Ana Gomes também uma vitória do seu partido, e defendeu reflexão sobre a elevada abstenção e o crescimento de "movimentos inorgânicos e não democráticos".

Ana Gomes: "Responsabilidade por falhar é só minha"

Ana Gomes considera que a extrema-direita teria mais progressão se não se tivesse candidatado à corrida a Belém. A candidata assume a derrota e admite que falhou.

No discurso, a candidata presidencial assume ter falhado o objetivo de uma segunda volta nas presidenciais, mas diz ter cumprido o "objetivo patriótico" de impedir que a ultradireita assumisse uma posição de "possível alternativa".

"Se eu não tivesse estado nesta disputa, estaríamos hoje a lamentar ainda mais a progressão da extrema-direita", afirmou Ana Gomes, em declarações aos jornalistas, no final da noite eleitoral.

Uma esquerda em queda

Surpresa da noite para os resultados eleitoral dos candidatos do Bloco de Esquerda e PCP. Marisa Matias sofre uma pesada derrota, com 4,0% dos votos, uma descida acentuada face às últimas Presidenciais, em que conseguiu 10,12%.

Sobre o seu resultado, diz que ficou aquém do esperado e que não é “o resultado que desejava”. Mantém a intenção de continuar com as lutas por um país solidário, que defenda a democracia e que não aceite “crise e divisão como política”.

Por fim, a candidata agradece aos eleitores e compromete-se a continuar com o legado do movimento #VermelhoEmBelém por “cada mulher, menina e homem” no combate ao fim da violência contra as mulheres.

Com números abaixo dos esperados ficou também João Ferreira. A sondagem SIC à boca das urnas dava-lhe 3,3 a 6,3%, mas o candidato pelo Partido Comunista obteve apenas 4,3%. No seu discurso, afirmou-se empenhado na defesa da Constituição, da democracia e da liberdade, optando por não fazer referências à queda da esquerda.

Há cinco anos os candidatos de esquerda obtiveram em conjunto 41,19%, então, já aí, o pior resultado desde as primeiras eleições presidenciais de 1976.

Duelo entre Mayan e Tino, mas o “novato” ganhou

Na sua estreia numa corrida presidencial, Tiago Mayan Gonçalves conseguiu 3,2% dos votos, ficando à frente de Vitorino Silva, que conseguiu 2,9%. O candidato de Rans conseguiu praticamente igualar o resultado que obteve nas últimas Presidenciais (3,28%), tendo perdido, no entanto, a luta na sua freguesia, vencida por Marcelo.

O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal, Tiago Mayan, afirmou este domingo que tomou a decisão certa em avançar com a candidatura e que, sem ela, "milhares de portugueses teriam sido impedidos de validar uma alternativa liberal, humanista e tolerante".

Na reação aos resultados eleitorais, que o colocam em 6.º lugar, com mais de 128 mil votos, Tiago Mayan disse que foi uma "corrida bonita".

Já o candidato Vitorino Silva afirmou que os objetivos da campanha foram cumpridos. "Toda a gente sabe que fiz uma campanha limpinha, com respeito", rematou.

As análises à noite eleitoral. “Não há terramoto político. Bloco central Costa-Marcelo não muda”

Francisco Louçã, comentador SIC, manifesta ter dúvidas sobre a transferência de votos de Ana Gomes para André Ventura, apontando que são “campos políticos muito diferenciados”. Diz que haverá uma “jogada de admissão de recandidatura” de Ventura, mas que isso “desaparece em poucos dias”.

Por isso, o comentador da SIC afirma não haver grandes mudanças, sobretudo no “bloco central Costa-Marcelo", que ficará igual. Francisco Louçã aponta mudanças, no entanto, nas respostas que têm vindo a falhar, dando o exemplo da crise sanitária, e ainda na recomposição de alianças, que se encontra em aberto.

“A grande interrogação é ‘como é que Portugal vive a partir de agora?’”, conclui.

"Há um potencial crescimento do populismo em Portugal que me preocupa muito"

José Miguel Júdice alerta para o potencial crescimento do populismo em Portugal e reconhece que houve uma derrota da esquerda nestas eleições presidenciais.

"Houve uma derrota da esquerda nestas eleições, mas a derrota foi sobretudo por falta de comparência", diz o comentador da SIC, afirmando ainda que "nenhum daqueles candidatos era capaz de capaz de atrair leitores moderados de esquerda".

Na SIC Notícias, defende ainda que o voto entre Ana Gomes e André Ventura "se transfere com muita facilidade", pois são ambos candidatos populistas.

“Há três bons resultados: Tiago Mayan Gonçalves, André Ventura e Ana Gomes”

Para Luís Marques Mendes há três resultados que se destacam: o de Tiago Mayan Gonçalves, que o comentador SIC considera ser um “novato nestas campanhas”, seguido de André Ventura, que poderá ter um “resultado surpreendente” acima de 10% para um partido recente e, por fim, Ana Gomes, que “beneficia imenso do voto útil à esquerda”.

O comentador SIC destaca ainda o vencedor absoluto da noite, Marcelo Rebelo de Sousa, que ganha à primeira volta mas que, mais importante, com um resultado superior ao de há cinco anos. Com isto, Marques Mendes considera que António Costa sai vencedor indiretamente.

“Parceiros à esquerda não sairão fortalecidos, e porque o Costa esteve colado a Marcelo a nível de apoio político informal. À esquerda, o maior beneficiário é o PS”.

“Costa sai daqui bem: ganhou o candidato que apoiou e as esquerdas saem fragilizadas”

Para Bernardo Ferrão, é de assinalar o resultado de Marcelo Rebelo de Sousa, que “apanhou votos de todos os lados partidários”, incluindo de eleitores que tentaram travar a subida de Ventura, papel que o jornalista apontava que fosse fortalecer a candidatura de Ana Gomes, mas que isso “não aconteceu, fortalecendo antes a candidatura de Marcelo”.

Considera ainda que os resultados da noite eleitoral favorecem o primeiro-ministro, António Costa, que “ganha” porque apoio o candidato que teve melhor resultado, porque as esquerdas saem fragilizadas e “vão tender a não querer provocar nenhuma crise política” e ainda porque “ficam assustadas com a direita radical de Ventura”.

Bernardo Ferrão concluiu acrescentando que, sobretudo, Costa ganha por ter como principal opositor Rui Rio e o PSD, partido que afirma ter um “grave problema para o futuro”, ficando refém de um partido extremista.

André Ventura “é populista, mas corporiza a vontade de mudança”

José Gomes Ferreira alerta que as eleições Presidenciais foram um “teste nas urnas” que pode ser extrapolado para as próximas eleições legislativas, apontando que, nessa altura, o partido de André Ventura, o Chega, poderá ter uma multiplicação dos votos.

O jornalista considera que o resultado do candidato de extrema-direita é um sintoma de que o “atual regime não responde a boa parte dos problemas dos portugueses”, sobretudo a nível económico e de representatividade política.

José Gomes Ferreira defende que “não é com populismos e frases desgarradas” que se constrói uma proposta para mudar o regime, mas afirma que André Ventura corporiza a vontade de mudança e que a votação que obteve significa que “boa parte da população quer mudar”.

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