Extremos

André Ventura: o brilho fosco da ambição

NUNO VEIGA

Maria Rodrigues

Maria Rodrigues

Aluna da Nova FCSH

André Ventura é presidente e deputado único do Chega!. Já foi professor universitário, vereador pelo PSD, na Câmara de Loures, inspetor fiscal, comentador de futebol e autor de alguns romances. Em criança, quis ser ciclista, tendo como grande ídolo Lance Armstrong, o campeão que perdeu tudo o que conquistou por uso de dopping em competição. Hoje, Ventura quer ganhar as eleições presidenciais e moldar Portugal à sua visão, nem que para isso tenha que mudar a Constituição.

André Ventura cresceu em Algueirão-Mem Martins, rodeado das bicicletas da loja do pai e a discutir política à mesa do jantar. O pai, ex-combatente do Ultramar, com ideais mais à direita, talvez o tenha inspirado politicamente. Contudo, o que recorda como decisivo foi a vida na vila, que lhe permitiu “conhecer a desigualdade”. Sonhou ser ciclista profissional, como o seu ídolo Lance Armstrong, para deixar Mem Martins e “subir na vida”. Porém, o desejo de ser padre é que, aos 17 anos, acabou por o tirar do local onde nasceu.

Em 2000, foi viver para o Seminário-menor de Nossa Senhora da Graça, em Torres Vedras, onde concluiu o secundário no Externato de Penafirme. Uma paixão de escola leva Ventura a desistir do seminário. Diz manter a fé católica, apesar de, muitas vezes, ser questionado quanto à radicalidade das suas ideias, quando comparadas com os valores cristãos.

Do seminário seguiu para a Faculdade de Direito na Universidade Nova de Lisboa. Tinha já incutidos valores comuns ao seu ídolo de infância, o ciclista Lance Armstrong: extremamente competitivo, focado e disciplinado. Terminaria a Licenciatura com média de 19 valores, o que talvez tenha sido uma porta aberta para a sua carreira na Academia. Abriu-lhe, pelo menos, caminho para se tornar advogado estagiário e, mais tarde, inspetor fiscal, na Autoridade Tributária, onde ficou ativamente até 2014, quando pediu uma licença sem vencimento. O programa eleitoral do partido do qual é presidente chegou a classificar, na primeira versão, a Autoridade Tributária como uma máquina de assalto ao cidadão e de terrorismo de Estado”. No entanto, Ventura assume, em entrevista ao Observador, o desejo de voltar a trabalhar nesta máquina, quando terminar a carreira política.

O período no Autoridade Tributária coincidiu, em parte, com o da tese de doutoramento de André Ventura. Towards a New Model of Criminal Justice System in the Era of Globalised Criminality” foi a tese aprovada, em 2013, em Cork, na Universidade da Irlanda. O líder do partido que hoje defende a prisão perpétua, a castração química e física como forma de punição e o reforço dos poderes policiais, em 2013 criticava o “populismo penal”, no contexto das políticas antiterrorismo, após o 11 de setembro de 2001. Por “populismo penal”, André Ventura nomeia o “processo pelo qual os políticos aproveitam e usam para sua vantagem aquilo que creem ser a generalizada vontade de punição do público”. Mas, se tal como em relação à Autoridade Tributária parece haver alguma contradição, o líder do CH garante ao Diário de Notícias que sempre distinguiu “muito bem a parte científica da parte opinativa”.

Benfica: mais que um clube

André Ventura partilha com muitos portugueses uma característica: é um fervoroso adepto do Sport Lisboa e Benfica. Mas se à maioria dos adeptos isso de pouco vale, a Ventura ter-lhe-á valido um treino discursivo e mediático. É que, apesar do seu sucesso em Direito, André Ventura chega às televisões portuguesas pelo comentário futebolístico, na Benfica TV, em 2014. Acabaria por mudar, no mesmo ano, para a generalista CMTV, mas a defender o Benfica, no programa de comentário desportivo “Pé em Riste”. André Ventura terá sido um dos comentadores que beneficiava da conhecida “cartilha”, informações internas que o Benfica lhe fornecia para ter melhor prestação do que os seus adversários no debate e, deste modo, beneficiar o clube.

Mas os benefícios não se ficam pelo comentário desportivo. Em 2016, André Ventura apresenta-se como o coordenador da plataforma “Benfica para a frente. Vieira a Presidente”, que apoiava a recandidatura de Luís Filipe Vieira à direção do Benfica. Este apoio seria retornado a Ventura, quando encabeçou a lista do PSD, na candidatura à autarquia de Loures, em 2017, com Varandas Fernandes a presidir à Comissão de Honra de Ventura. O vice-presidente do Benfica deixaria de manifestar o seu apoio a Ventura, na sequência das declarações ao jornal I sobre a comunidade cigana. Política à parte, Ventura sentou-se, em muitos jantares de campanha, ao lado de Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica e arguido por suspeitas de corrupção na operação Lex.

O candidato antissistema

“Eu sou o candidato antissistema” talvez seja das frases que André Ventura diz mais vezes ao seu eleitorado. No entanto, Ventura é “filho” de um dos maiores partidos portugueses, o Partido Social Democrata (PSD) e compara-se sistematicamente ao seu primeiro líder, Francisco Sá Carneiro.

Em 2001, Ventura juntou-se ao PSD, na concelhia de Mem Martins. Chegou a ser vogal da Comissão Política da distrital de Leiria e a ponderar candidatar-se à Câmara de Sintra, o que nunca aconteceu.

O grande passo no PSD foi dado quando encabeçou a lista candidata à autarquia de Loures, numa coligação com o CDS, em outubro de 2017. E se em 2013, na defesa da sua tese de doutoramento, Ventura recriminava “fações políticas que alimentaram a discriminação de cidadãos com base nas suas características étnicas e religiosas”, em 2017, põe-se no lugar dos que criticava. Numa entrevista ao Jornal I que o coloca na posição de candidato mais comentado, defende a prisão perpétua e acusa a comunidade cigana de se considerar “acima do Estado de Direito”. Na sequência desta entrevista, o CDS retira a Ventura o apoio político e o candidato do Bloco de Esquerda Fabian Figueiredo apresenta uma queixa à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, que viria a ser arquivada. Apesar da polémica, Ventura é um dos três vereadores pelo PSD eleitos, um dos melhores resultados do partido, em Loures, nos últimos anos.

O mandato de Ventura em Loures acabaria por durar muito menos do que o previsto. Em setembro de 2018, insatisfeito com as decisões de Rui Rio para o partido, Ventura encabeça um movimento para convocar um congresso extraordinário do PSD. O objetivo era destituir o atual líder do partido. Mas o movimento ao qual Ventura dá o nome de “Chega!” teve menos sucesso do que previa. O vereador de Loures garantia que conseguia recolher 2500 assinaturas numa semana, mas a realidade revelou-se mais difícil. A “facada nas costas” foi dada pela Câmara de Loures, que se demarcou da investida.

Em outubro, Ventura renuncia à Câmara de Loures, abandona o PSD e começa a preparar o seu próprio partido. A 9 de abril de 2019, o Tribunal Constitucional formaliza o partido de André Ventura, com o mesmo nome do movimento que outrora parecia fracassado, Chega!. Em maio, na corrida das eleições europeias, Ventura é o cabeça de lista da coligação Basta!, com o Partido Popular Monárquico e o Partido Cidadania e Democracia Cristã.

"Vou colocar o lugar à disposição"

O partido de André Ventura tem pouco mais de um ano, mas já foram três as vezes em que o seu presidente ameaçou deixar o partido.

NUNO VEIGA

Durante a campanha para as europeias, Ventura faltou ao debate organizado pela RTP com os partidos sem assento parlamentar. A hora coincida com a do espaço onde Ventura era comentador desportivo, na CMTV. “Vou colocar o lugar à disposição da coligação” é a proposta de Ventura, após a polémica causada pela sua ausência. A coligação manteve a confiança, acabando por não eleger qualquer eurodeputado.

Em abril de 2020, o até então conhecido como “líder do partido de um homem só” demite-se da liderança, na sequência de conflitos internos. A atividade política não sofre alterações, até porque Ventura anuncia de imediato a recandidatura, desafiando os opositores. Foi reeleito, no início de setembro, com 99% dos votos, mas isso não lhe bastou para conseguir aprovar a lista da direção que propôs ao partido, na Convenção Nacional, duas semanas depois. Aí, viu-se na iminência de ter de abandonar o partido, com a lista para a direção a ser chumbada duas vezes. Assumiu em palco a culpa do fracasso das eleições internas e, após lágrimas de Ventura e dos seus fiéis, conseguiu aprovar a lista. Desta vez, não foi preciso anunciar a demissão, a própria ameaça aprovou a direção.

Também na corrida às presidenciais, Ventura já assumiu uma posição: demitir-se-á, se ficar atrás da candidata Ana Gomes. Diogo Pacheco de Amorim, um dos vice-presidentes do partido, bem tentou justificar, dizendo ao Observador que se tratava de uma “força de expressão”. Mas, no final da Convenção Nacional, André Ventura reforçou à SIC que, se Ana Gomes ficar à sua frente, tem que “pôr o seu lugar à disposição do partido”, porque “fez mal o seu trabalho”.

O líder do CH tem certezas no que quer: disputar a segunda volta das eleições presidenciais com Marcelo Rebelo de Sousa, ser governo em oito anos, mudar a Constituição e romper com o sistema. André Ventura percorre veloz todas as etapas, persegue a amarela do ídolo de infância. O brilho de Lance Armstrong, contudo, sempre foi falso.

Veja também:

ACOMPANHE O ESPECIAL EXTREMOS

É um projeto patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian que terá uma expressão multimédia e que incluirá um conjunto de grandes reportagens que a SIC emitirá em fevereiro de 2021. O projeto resulta de uma pareceria estabelecida entre a SIC e a NOVA FCSH e pretende mergulhar no difícil tópico do “populismo radical que alimenta a direita nacionalista e antissistema europeia” - título que esconderá derivas em direção aos extremos; em direção ao quadro que molda a extrema direita.