Extremos

Salvini: o político espetáculo que deu a mão à extrema direita italiana

Alessandro Garofalo

Diogo Barradas

Diogo Barradas

ALUNO DA NOVA FCSH

Numa Itália fragmentada, Salvini é o conquistador do Norte. Em poucos anos transformou o regionalismo da Lega Nord num populismo exacerbado. Prometeu abraçar toda a Itália. Expulsar imigrantes. Colocá-la primeiro. Mesmo se isso implicar caminhar entre os herdeiros do fascismo.

Até ao final de 2013, a Lega Nord foi um partido autonomista de centro direita. Irrompeu em 1989, pela mão de Umberto Bossi. Propunha uma solução federalista, para defender os direitos da Padania, a rica região do norte Italiano, dominada pelas planícies do rio Pó.

Mas a sua ideologia mudou.

Nas eleições internas de 2013, Matteo Salvini subiu ao poder no partido. O seu carisma conquistou a estrutura. A remodelação total deu-se em apenas cinco anos. As perspetivas moderadas da Lega foram trocadas por eurocentrismo; o seu ataque à imigração escalou; na Europa forjou alianças com a direita nacionalista de Marine Le Pen e de Geert Wilders. E, em Itália, abriu as portas à extrema-direita de Giorgia Meloni, os Fratelli d'Italia.

Do fundo dos corredores da memória, Umberto Bossi ainda grita “nunca com os fascistas!”, como fizera inúmeras vezes antes. A sua voz pertence a um passado longínquo. Já ninguém o ouve. E Matteo Salvini, no centro do poder, não podia discordar mais dele.

Nascimento de um político

Matteo Salvini nasceu em 1973, na cidade de Milão, onde viria também a surgir a Lega Nord. O início do seu percurso político faz-se num quase paralelo com o partido da sua cidade natal. Em 1990, Salvini juntou-se à ala de juventude da Lega, o Movimento Giovani Padani. Entre 1994 e 1997, ficou responsável pela juventude da Lega em Milão. A sua presença no partido é notada desde o início. O seu compromisso com a política tornou-se tão profundo que abandonou os estudos universitários.

O promissor início da sua vida política levou-o, depois, ao jornalismo, sem ter tido qualquer experiência prévia na profissão. Tornou-se repórter do jornal diário associado ao partido, o “La Padania”. Foi no “La Padania” que conheceu Gianluca Savoini, que se tornou seu porta-voz e conselheiro político. Segundo o Il Post, mesmo enquanto escrevia para o jornal, Savoini nunca escondeu as suas tendências fascistas: o ideário nazi acompanhava-o na secretária. Anos depois, Savoini abriu a Matteo Salvini um novo mundo de contactos, entre os quais oligarcas russos e figuras ultra-cristãs.

Entre 2004 e 2013, foi eleito para vários cargos, desde o Parlamento Europeu até à Camara dos Deputados. Salvini trilha um caminho político ascendente na Lega Nord. Chega, em 2006, a líder do partido na Câmara Municipal de Milão e, simultaneamente, a vice-secretário nacional da Lega Lombarda. Por fim, em dezembro de 2013, Salvini toma a liderança da Lega, com uma vitória esmagadora. Torna-se secretário geral do partido com 83% dos votos. A mudança estava prestes a começar.

Remo Casilli

A ascensão do Il Capitano

Desde o momento da eleição, Salvini manifestou a intenção de se aliar com o resto da extrema direita europeia, desde a então Frente Nacional, de Le Pen, até aos holandeses do Partido pela Liberdade, chefiados por Geert Wilders. A nova visão nacionalista do partido, construída por Salvini, viria a ser posta à prova pouco tempo depois. Em abril de 2014, a Lega concorre às eleições europeias e coloca cinco deputados no parlamento europeu. Com 6,2% dos votos, alcança um modesto lugar como 4º partido Italiano nas eleições e torna-se um dos partidos fundadores do identidade e democracia, que agrega uma parte da extrema direita na Europa. A estratégia de crescimento da Lega começa a ganhar forma nos anos seguintes. Ainda em 2014, Salvini projeta-se para o centro e para o sul de Itália, com a lista "Noi con Salvini". Historicamente mais pobre, o Sul não era a arena política tradicional da Lega, originalmente um partido independentista do Norte.

A par da sua aproximação a forças políticas da direita nacionalista europeia, Salvini não se importou de caminhar entre a extrema direita nacionalista e neofascista Italiana. Já a partir de 2014, associou-se aos Fratelli d'Italia e à CasaPound em ações públicas. Em 2015, protestaram em conjunto contra o primeiro-ministro Matteo Renzi. A CasaPound, inspirado no partido Grego Aurora Dourada, é um dos mais proeminentes movimentos neofascistas italianos.

Em 2018, a Lega alia-se à Forza Italia, Fratelli d'Italia e Noi con l'Italia como primeiro partido de uma coligação de direita. De forma triunfante, a Lega consegue 17,4% dos votos nas eleições de março. Une-se ao partido mais votado, o Movimento Cinco Estrelas, para formar governo. Por acordo da coligação, Giuseppe Conte é nomeado primeiro ministro. Por sua vez, Salvini também sobe ao governo. É nomeado ministro da Administração Interna e vice-presidente do Conselho de Ministros. Enquanto ministro, pôs em prática a política dos portos fechados. Em agosto de 2019, Salvini impediu o desembarque de 150 pessoas na ilha de Lampedusa. Os migrantes ficaram 20 dias a bordo do navio “Open Arms”.

Guglielmo Mangiapane

Voar perto do sol

No início de agosto de 2019, Matteo Salvini dança numa das mais famosas discotecas de praia de Itália. Onze dias antes, como nos esclarece o La Repubblica, fora chamado a apresentar-se na Assembleia da República, para prestar justificações, mas não havia comparecido. Segundo uma investigação do Buzzfeed News, meses antes, em outubro de 2018, Gianluca Savoini reunira com políticos russos no Hotel Metropol de Moscovo. Secretamente, negociavam financiamento para a Lega em troca de favores económicos. Apesar de alegar desconhecimento, Salvini estava também em Moscovo na altura. A polémica estalou no final de julho de 2019. Dias depois de ser encontrado na praia, Matteo Salvini ameaçou a saída da Lega do Governo, numa altura em a tensão entre a Lega e o Movimento Cinco Estrelas era palpável. Apesar disso, o governo só cai em setembro, com a renúncia de Giuseppe Conte.

Nesse mesmo ano, em maio, a Lega conseguira o seu mais alto resultado eleitoral de sempre. Afirmou-se como a primeira força política nas europeias, com 34,3% dos votos e 28 deputados eleitos. Por isso mesmo, depois da queda do governo, a intenção de Salvini era convocar eleições, procurando um possível fortalecimento da Lega e a eventualidade de chegar ao cargo de primeiro ministro. Apesar disso, a estratégia falhou. Salvini foi acusado de oportunismo político, enquanto Conte conseguiu formar novo governo, desta vez coligando o Movimento Cinco Estrelas com o Partido Democrático, de centro-esquerda.

Remo Casilli

Segundo o La Stampa, a 2 de junho, a Lega, os Fratelli d’Italia e A Forza Itália (de Silvio Berlusconi) manifestaram-se em Roma sem qualquer atenção às regras de distância social. Em julho, Salvini atacou sistematicamente o governo no Senado – fez campanha pelo desconfinamento. Entre tirar selfies sem máscara e recusar usá-la em público, a mensagem de desvalorização da crise pandémica é evidente. Enquanto Itália procurava resolver a crise sanitária, Giuseppe Conte acusa Salvini e Giorgia Meloni de difundir noticias falsas.

Matteo Salvini tremeu neste mar de contradições. Porém, as eleições regionais, em setembro de 2020, trouxeram desafios ainda maiores ao líder da Lega. A Toscana, que era uma das regiões mais cobiçadas a ir a votos, permaneceu nas mãos da esquerda. Esta derrota frustrou a ascensão de Salvini ao poder nacional. Por outro lado, assistiu-se à vitória retumbante de outra grande figura da Lega, Luca Zaia, em Veneto, que geriu a pandemia na região com um apelo ao cumprimento das regras sanitárias – em oposição às ideias de Salvini. Entre tudo isto, Salvini enfrenta uma batalha dura em tribunal: em outubro foi chamado a uma primeira sessão para responder pelo bloqueio que fez ao desembarque de migrantes em Itália. À porta, Giorgia Meloni animou uma multidão de simpatizantes. Sempre que precisou, Salvini teve a mão da extrema direita – mas será que desta vez é suficiente?

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É um projeto patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian que terá uma expressão multimédia e que incluirá um conjunto de grandes reportagens que a SIC emitirá em fevereiro de 2021. O projeto resulta de uma parceria estabelecida entre a SIC e a NOVA FCSH e pretende mergulhar no difícil tópico do “populismo radical que alimenta a direita nacionalista e antissistema europeia” - título que esconderá derivas em direção aos extremos; em direção ao quadro que molda a extrema direita.

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