Extremos

O projeto Marine

Pascal Rossignol

Rita Murtinho

Rita Murtinho

ALUNA DA NOVA FCSH

Marine Le Pen é a presidente do partido francês Rassemblement National, antiga Frente Nacional. Assumiu o negócio de família com a promessa de abandonar os radicalismos do pai, Jean-Marie Le Pen. 48 anos depois da edificação do partido de extrema-direita, Marine ainda veste o casaco vermelho do pai.

“Foi o frio que me acordou. Um silêncio mortal, ensurdecedor o suficiente para arrancar uma menina de oito anos do seu primeiro sono.” Marine Le Pen abre a sua autobiografia, ‘Contra as marés’, com o episódio que lhe marcou a vida. No dia 2 de novembro de 1976, Marine repousava no aparente conforto de casa quando uma bomba de dinamite desfez o apartamento da família em Villa Poirier, no 15º distrito de Paris. Acompanhada pelas duas irmãs mais velhas, Yann e Marie Caroline, e pelos pais, Pierrette Lalanne e Jean-Marie Le Pen, Marine testemunhou a tentativa de assassinato do pai.

Gonzalo Fuentes

Jean-Marie fundou o partido francês de extrema-direita, Frente Nacional, em 1972. O nacionalismo do pai Le Pen rapidamente revelou as bases tradicionalmente fascistas. Homossexuais, judeus, muçulmanos, comunidade cigana: ninguém escapou ao discurso de ódio de Jean-Marie Le Pen nos últimos 40 anos. Desde usar a islamofobia como motor do partido, passando pela negação do Holocausto, Jean-Marie fez-se ouvir: o partido conquista um total de trinta e cinco deputados na Assembleia da República nas eleições legislativas de 1986, que excecionalmente se realizaram num único ato eleitoral usando o sistema proporcional.

Marine e a família foram arrastados para debaixo dos holofotes do controverso palco político de Jean-Marie Le Pen. “Uma família que parecia ser próxima, mas na verdade era muito distante”, conta ao The Guardian David Doucet, coautor da biografia de Marine, ‘Apesar disso, política’.

Hoje, com 52 anos, divorciada e com três filhos, Marine Le Pen recusa dar à família a mesma exposição pública.

Charles Platiau

O divórcio dos pais e o abandono da mãe, quando tinha apenas 15 anos, aproximou Marine do pai. O interesse pela política uniu-os. Marine cresceu na sombra do líder da Frente Nacional. Ao formar-se em Direito, em 1991, Marine tenta quebrar a ligação de dependência com o pai, “mas foi um fracasso”, explica Renaud Dely no seu livro ‘A verdadeira Marine Le Pen’. “Ela tentou vingar por conta própria, mas nunca se conseguiu separar do pai”. Marine abandona a advocacia seis anos mais tarde.

“O meu pai diz que sou como o Obelix: caí na poção mágica da política quando era jovem”, conta. Na verdade, Marine foi empurrada para a política de Jean-Marie. A pequena Le Pen acompanhou por várias vezes o pai nos grandes eventos do partido. “Filha de um fascista”, ouviu recorrentemente nos corredores da escola. Marine cresceu na bolha política do pai. Aos 18 anos oficializa o compromisso familiar ao ingressar na Frente Nacional.

De poção mágica a veneno mortal

Marine Le Pen foi registada à nascença como Marion Anne. “Apressámo-nos na escolha [do nome]. Preferi Marine pelos seus olhos azul marinho”, revela a mãe Pierrrette. Já Jean-Marie acredita que “Marine é uma criação dos media”.

O surpreendente sucesso de Jean-Marie Le Pen na primeira volta das eleições presidenciais de 2002 suscitou fortes protestos contra os resultados. É neste contexto que Marine se apresenta à televisão nacional em defesa do líder de extrema-direita. “Algo extraordinário aconteceu naquela noite”, relata Carl Lang ao jornal L’ Obs. Segundo o ex-membro da Frente Nacional, a estreia de Marine Le Pen transformou “o campo mediático minado por Jean-Marie” em “tapete vermelho”.

"Os media sempre foram alérgicos a Jean-Marie Le Pen”, afirma o comentador político, Alain Duhamel, no livro ‘Uma história pessoal da Quinta República’. Mas com Marine foi diferente: os “cabelos loiros”, “a juventude dos 33 anos” e o “poder argumentativo” foram alguns dos fatores que espoletaram o súbito interesse dos jornais. “A obsessão dos media pela novidade”, como aponta Alain, foi o momento que marcou o nascimento de Marine Le Pen.

Charles Platiau

A filha de Le Pen vai ganhando espaço dentro da Frente Nacional: em 2003 chegou a vice-presidente do partido, em 2006 administrou a campanha política do pai e em 2011 ascendeu a presidente, enquanto Jean-Marie passa a presidente honorário.

Jean-Marie perde controlo do projeto de formação política da filha. A inocente curiosidade de ‘Marion Anne’ depressa vira ambição de Marine. "Ela é ainda mais perigosa que o pai. Jean-Marie Le Pen queria apenas ser um jogador, captar a atenção, exibir-se. Marine Le Pen quer liderar e vencer", explica Alain Duhamel ao jornal Independent.

A nova líder francesa percebeu que a chave do sucesso seria afastar-se do radicalismo do pai. Em 2015, chegou por fim a oportunidade: depois do pai ter afirmado que as câmaras de gás dos campos de concentração nazis eram apenas "um detalhe" da História, o comité executivo da Frente Nacional, com o apoio de Marine, abriu um processo contra o velho Le Pen. Desta vez, o tiro foi certeiro e Jean-Marie, aos 87 anos, é expulso com 94% dos votos dos membros.

“Foi o momento mais difícil da minha vida”, desabafa Marine numa entrevista à estação televisiva M6. “Culpo-o por nos ter forçado a fazer isto”, continua. Mas Jean-Marie não perdoa: “Tenho vergonha que ela carregue o meu nome”, ataca numa entrevista à Europe 1.

A presidente da Frente Nacional iniciou, desde logo, uma limpeza interna no partido, expulsando todos aqueles que se identificavam com as ideologias extremistas do pai. Para alguns, Marine tornou-se o “rosto humano” que faltava; a “salvação” da Frente Nacional.

Em 2018, a filha Le Pen muda o nome e a imagem do partido, terminando a arrumação da casa com uma pintura exterior. Assim, nasce o Rassemblement National (‘Encontro Nacional’) como um “grito de união, lançado a todos os que têm a França no coração”, afirma Marine durante a apresentação do restaurado partido.

A reforma do nada

Marine Le Pen, aos olhos dos mais desatentos, transformou o Rassemblement National num partido credível e moderado. “Não somos nem de direita, nem de esquerda”, esclarece a líder francesa, condenando aqueles que rotulam o partido de extrema-direita.

Contrariamente ao que defendia o pai, Marine passa a apoiar temas como o aborto e o casamento homossexual, mas nem isso é suficiente para tapar o fundo preconceituoso que persiste. Para Cécile Alduy “a renovação retórica iniciada por Marine Le Pen corre o risco de ser apenas isso: uma mudança estilística mais do que ideológica”. A professora universitária francesa, no artigo Novos discursos, novos sucessos, explica que tanto “o silêncio e a omissão do vocabulário racista do pai”, como a “recuperação de valores antirracistas”, continuam muito presentes.

Depois da crise dos refugiados da Síria e dos ataques de 13 de novembro de 2015 em Paris, a líder francesa regressa “à linha radical desinibida, essencialmente nacionalista, anti-imigração e autoritária”, como explica Cécile Alduy. Marine Le Pen transforma o medo em ódio, a insegurança em revolta. O controlo rígido da imigração e a eliminação da comunidade islâmica em França são o foco político da líder de extrema-direita.

Para Nicolas Lebourg, investigador francês da extrema-direita, Marine “não é racista”, apenas “não o pode evitar”. A líder francesa não resiste aos fantasmas radicais do pai Le Pen: “Ela volta sempre ao ADN da Frente Nacional para mostrar que é a candidata contra o sistema”, explica Nicolas.

Hoje, Marine Le Pen é considerada pelos jornais franceses como a principal oponente e crítica do governo. Depois da esmagadora derrota contra Emmanuel Macron na segunda volta das eleições presidenciais de 2017, Marine prepara-se para a desforra. “Não vou desistir, isso é certo”, afirma a presidente do Rassemblement National na apresentação da sua candidatura às eleições presidenciais de 2022.

Apesar do sonho de Marine ter ficado muito aquém das expectativas de Jean-Marie, o legado Le Pen vai conquistando terreno dentro e fora das fronteiras francesas. Marine Le Pen é o rosto dos novos populismos da Europa; a esperança do retorno dos radicalismos disfarçados. Mas o império Le Pen só vai até onde os eleitores democráticos franceses permitirem.

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É um projeto patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian que terá uma expressão multimédia e que incluirá um conjunto de grandes reportagens que a SIC emitirá em fevereiro de 2021. O projeto resulta de uma parceria estabelecida entre a SIC e a NOVA FCSH e pretende mergulhar no difícil tópico do “populismo radical que alimenta a direita nacionalista e antissistema europeia” - título que esconderá derivas em direção aos extremos; em direção ao quadro que molda a extrema direita.