Extremos

“Portugal é um dos campeões da negação do racismo”

Henry Nicholls

Diogo Barradas

Diogo Barradas

ALUNO DA NOVA FCSH

Maria Rodrigues

Maria Rodrigues

Aluna da Nova FCSH

Marisa Torres da Silva

Marisa Torres da Silva

Professora Auxiliar NOVAFCSH

Entrevistas a Jorge Vala e Alexander Coutts.

As crenças racistas estão profundamente disseminadas na sociedade portuguesa mas há uma síndrome da negação do racismo em Portugal. A equipa do Extremos falou com dois académicos que têm trabalhado este tema e que mostram que os números da discriminação escondem uma parte importante deste cenário – até porque o preconceito racial pode ser um processo ao nível do inconsciente.

Para Jorge Vala, investigador emérito do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, “Portugal é um dos campeões da negação do racismo”, porque persiste “o mito de que nós fizemos uma colonização exemplar”. A ilusão de que não há discriminação tem, contudo, consequências dramáticas, de acordo com o ex-coordenador nacional do European Social Survey.

“Quando nós dizemos que as crenças racistas não têm um impacto nos comportamentos quotidianos esquecemos por um lado a história. É difícil encontrarmos comportamentos que não estejam baseados em crenças, atitudes e emoções e também é difícil imaginar crenças, atitudes e emoções que não se transformam em comportamentos.”

Do lado das vítimas, os números reportados de discriminação étnico-racial em Portugal não refletem necessariamente a realidade.

“As pessoas minimizam a discriminação de que são alvo, nomeadamente no contexto nacional, e, por outro lado, quando têm a coragem de apresentar queixas formais, essas queixas não são consideradas”, sublinha.

Alexander Coutts, professor auxiliar na NOVA SBE e autor do estudo Racial Bias Around the World, concluiu que Portugal está entre os países com maior preconceito racial (ocupando o 26º lugar em todo o mundo), onde mais de 70% dos participantes mostraram um enviesamento pró-branco.

O docente e investigador utilizou os dados do Implicit Association Test (IAT), que procura medir a rapidez com que são feitas associações de palavras positivas ou negativas a rostos brancos ou negros.

“Este teste mede enviesamentos inconscientes, que não sabemos que temos. Podemos não ter consciência de que tratamos as pessoas de forma diferente, se calhar reagimos por instinto e nem sequer temos noção de que o estamos a fazer”, explica.

No entanto, Alexander Coutts mostra surpresa com o facto de o racismo ser um tema tabu no país, ao contrário do que acontece noutros países, como os Estados Unidos ou o Canadá.

“Não só não é discutido, como também, quando se tenta debater o tema, é algo a que as pessoas tendem a reagir de forma negativa.”

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É um projeto patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian que terá uma expressão multimédia e que incluirá um conjunto de grandes reportagens que a SIC emitirá em fevereiro de 2021. O projeto resulta de uma parceria estabelecida entre a SIC e a NOVA FCSH e pretende mergulhar no difícil tópico do “populismo radical que alimenta a direita nacionalista e antissistema europeia” - título que esconderá derivas em direção aos extremos; em direção ao quadro que molda a extrema direita.