Extremos

A mulher do Vox

Susana Vera

Diogo Barradas

Diogo Barradas

ALUNO DA NOVA FCSH

No dia 8 de março de 2020, as feministas saíram às ruas de Madrid, para reivindicarem igualdade. Noutra parte da cidade, a extrema direita do Vox reunia-se em congresso. Nessa reunião magna, o partido de Santiago Abascal afirmou o ideário alternativo ao “feminismo totalitário”. Sob a ameaça invisível do coronavírus, a capital espanhola tornou-se uma cidade fragmentada.

Todos os anos, o Dia Internacional da Mulher pinta as ruas das principais cidades espanholas de roxo. Nos cartazes, a mesma mensagem repete-se: “igualdade no trabalho, luta contra a violência de género e luta pelos direitos sexuais e reprodutivos, como aborto”. Em 2020, dias antes de outro 8 de março, o Vox lançou a campanha #NoHableEnMiNombre (“não falas em meu nome”) contra o "feminismo radical". Rocio Monastério, a proeminente líder do Vox na comunidade de Madrid, afirmou-se líder do protesto. O início da campanha antecedeu o congresso do Vox, que procurou afirmar-se como alternativa às marchas feministas.

O feminismo define-se como a crença na igualdade política, social e económica entre homens e mulheres. Em Espanha, o movimento tem raízes profundas. Segundo dados da RTVE, a greve feminista de 2018 fez sair às ruas 370.000 pessoas só em Madrid e Barcelona. Nas estimativas dos sindicatos, 5,9 milhões de pessoas aderiram às paralisações. Neste panorama, o Vox nada contra a maré. No ponto 70 do seu programa eleitoral para as eleições de 2019, o partido propõe a “supressão de organismos feministas radicais subvencionados, que fazem persecução efetiva de denuncias falsas”. Alguns destes organismos “feministas radicais” dedicam-se a apoiar órfãos de vítimas de violência doméstica ou mesmo a proteger vítimas de violação. Segundo dados de 2019, da Macroencuesta de Violencia contra la Mujer, 57,3% das mulheres espanholas já sofreram algum tipo de violência de género.

Contra a educação sexual

A animosidade do Vox não se restringe ao feminismo. O partido também se coloca em oposição ao ensino de educação sexual nas escolas. A sua posição gerou debate quando forçou a entrada do chamado PIN parental na agenda governativa da Andaluzia, como moeda de troca para apoiar a coligação regional do PP e dos Ciudadanos. A medida pretendia dar poder aos encarregados de educação para impedirem os alunos de participarem em atividades escolares obrigatórias. O discurso do Vox sobre a medida foi acompanhado por várias ações de desinformação, destinadas a demonizar as aulas sobre género e sexualidade.

VEJA TAMBÉM:

ACOMPANHE O ESPECIAL EXTREMOS

É um projeto patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian que terá uma expressão multimédia e que incluirá um conjunto de grandes reportagens que a SIC emitirá em fevereiro de 2021. O projeto resulta de uma parceria estabelecida entre a SIC e a NOVA FCSH e pretende mergulhar no difícil tópico do “populismo radical que alimenta a direita nacionalista e antissistema europeia” - título que esconderá derivas em direção aos extremos; em direção ao quadro que molda a extrema direita.