Football Leaks

Rui Pinto: "O meu trabalho como denunciante está terminado. Nunca recebi dinheiro pelo que fiz."

Rui Pinto, criador da plataforma Football Leaks

MARIO CRUZ

Declarações do criador da plataforma Football Leaks no início da primeira sessão do julgamento, no Tribunal Central Criminal de Lisboa.

Rui Pinto, criador da plataforma Football Leaks, disse esta sexta-feira que o seu "trabalho como whistleblower (denunciante) está terminado" e que nunca recebeu dinheiro pela divulgação de documentos confidenciais do mundo do futebol e alegados esquemas de evasão fiscal.

"O meu trabalho como whistleblower está terminado. Nunca recebi dinheiro pelo que fiz. Não sou hacker, sou denunciante. Tornei pública muita informação importante, que de outra forma nunca seria conhecida", afirmou Rui Pinto, no início da primeira sessão do julgamento, no Tribunal Central Criminal de Lisboa.

Rui Pinto, que não quis comentar factos concretos, manifestou-se "indignado" com o que descobriu e disponível para "continuar a colaborar com as autoridades", assinalando que estão em curso "inquéritos importantes que foram iniciados" com as suas denúncias.

"Estou aqui numa estranha situação: sou arguido e testemunha protegida. Fui alvo de uma campanha da calúnia e difamação. Estive um ano e meio preso, com sete meses de isolamento total. Foi muito difícil", observou.

A primeira sessão do julgamento, presidida pela juíza Margarida Alves, que estava agendada para as 09:30, começou às 10:45, rodeada de forte aparato policial - expresso num perímetro de segurança em torno das instalações e com a presença de unidades especiais da Polícia de Segurança Pública (PSP) - e mediático, atraindo dezenas de jornalistas de vários países.

Nas imagens recolhidas por repórteres de imagem e fotojornalistas antes do início da sessão foi ainda possível observar Rui Pinto na sala com máscara de proteção, devido às regras sanitárias por causa da pandemia da Covid-19.

MARIO CRUZ

Rui Pinto vai responder por 90 crimes

À entrada, os advogados que representam o criador do Football Leaks, Francisco Teixeira da Mota e William Bourdon, não quiseram prestar declarações, à semelhança do advogado Aníbal Pinto, o outro arguido do processo, pronunciado apenas pelo crime de extorsão, na forma tentada.

Rui Pinto, de 31 anos, vai responder por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol e a Procuradoria-Geral da República, e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada.

Já na pausa para almoço, Aníbal Pinto disse que vai desmontar a tese de acusação e acredita numa absolvição.

"NADA JUSTIFICA O ESTATUTO DE DENUNCIANTE"

Tiago Rodrigues Bastos, advogado da PLMJ, sociedade que terá sido "atacada" por Rui Pinto, falou antes de entrar no tribunal.

O advogado considera "difícil encontrar uma razão para ver aqui o whistleblower [denunciante]". Para ele "o que interessa neste momento é que este julgamento se faça à volta dos factos que constam na acusação".

"Os factos que constam na acusação são muito claros, muito evidentes e parecem absolutamente incontornáveis.", disse o advogado da PLMJ.

APOIANTES PEDEM PROTEÇÃO DE RUI PINTO À PORTA DO TRIBUNAL

Alguns apoiantes de Rui Pinto juntaram-se esta manhã à porta do tribunal. Em declarações à SIC, consideraram que o arguido deve ser absolvido e defenderam que tudo o que fez foi ajudar a denunciar esquemas de corrupção.

Rui Pinto encontra-se em liberdade desde 07 de agosto, "devido à sua colaboração" com a Polícia Judiciária (PJ) e ao seu "sentido crítico", mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.

QUEM É RUI PINTO?

Tem 31 anos, é natural de Vila Nova de Gaia. Foi detido há um ano e meio na Hungria e está há um mês ao abrigo do programa de proteção de testemunhas em Portugal.

Génio da informática, autodidata dos computadores, apaixonado por arqueologia, fanático do futebol e amante do Porto. Rui Pinto nasceu em Mafamude, cresceu na praia dos Lavadores, em Vila Nova de Gaia.

Estudou história na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e fez Erasmus na cidade onde anos depois foi detido. Na Hungria criou um negócio de venda de livros raros pela Internet.

Mas autoridades dizem que o apartamento onde viveu não serviu apenas para o negócio familiar. Terá servido também de base tecnológica a partir da qual acedeu a sistemas informáticos e a caixas de correio eletrónico com identidades falsas.