Forçados Amadores

Fascínio

Confinado a limitação doméstica por força de maleita crónica, incompatível com o risco inflacionado trazido pela universal pandemia, entrei há dias em modo de faxina; fiquei, por isso, fascinado.

Não tanto pela tralha que o não é, pela redescoberta de objeto que se pensava perdido, pela surpresa de reencontrar a memória que já não tinha relativa a este ou aquele livro, a este ou aquele disco, a este ou aquele filme. Deste e daqueles se preenche o cada vez mais acanhado espaço do domus, decorado com abundante material de alfarrabistas, de memorabilia a que só eu dou valor, de bonecada alusiva ao cinema e à televisão.

Em tempo de justificada ansiedade, dei por mim a amenizá-la quando a reposição de fronteiras me trouxe um sorriso ao rosto por escanhoar: se abrisse as fronteiras de casa e permitisse a livre circulação de pessoas, nada me garante que comigo permaneceriam amizades de longa data.

Nada me diz, por exemplo, que podia impedir a saída de notáveis figuras que me têm acompanhado ao longo dos anos; não quero sequer imaginar a fila de celebridades que, com mais ou menos bagagem, afluiria à porta de saída que sempre foi porta de entrada.

Como reagiria ao pungente adeus dirigido à família Amis, Kingsley o pai, Martin o filho? O primeiro completaria no dia 16 deste mês de abril 98 anos de idade. Quis o destino que morresse em 1995, mas a sua obra permanece tão contemporânea quanto o seu primeiro livro publicado em 1954; o terceiro data de 58 e é absolutamente maravilhoso: “Gosto Disto Aqui” (“I Like It Here”) tem Portugal como destino de um jornalista e autor de uma obra só que, cansado de Londres, vê no retângulo mais ocidental da Europa uma possibilidade de redenção perante si próprio e perante os outros.

Envolto em peripécias da mais variada ordem, confrontado com hábitos e costumes que distam muitas léguas da capital do (seu) reino, o protagonista é forçado a lidar com a nova realidade pondo à prova a sua capacidade de adaptação em inúmeros episódios de puro divertimento. Lê-se como quem degusta um bom petisco e é bem capaz de levar para longe o aperto que hoje trazemos no coração.

O mesmo se poderá dizer da sua primeira obra: “A Sorte de Jim” (“Lucky Jim”) é apontado por muitos como um dos seus melhores trabalhos, e a verdade é que este título de estreia, na sua faceta de mordaz comédia do absurdo, é suficientemente cativante para merecer uma leitura urgente e, naturalmente, aprazível.

Martin Amis, que partilha com o pai a arte de bem escrever, nem sempre foi próximo do progenitor -- coisa de génios, provavelmente; hoje com 70 anos, continua tão irascível e avesso a entrevistas como quando publicou o seu primeiro romance, o notável “The Rachel Papers” de 1973, adaptado ao cinema em 1989, em filme que não merece grande oportunidade. Justamente ao contrário da obra de Martin Amis que, felizmente, está bem representada entre nós.

Permito-me destacar “Dinheiro”, romance de 1984 em que o autor tece uma poderosa e bem urdida crítica ao capitalismo e à essência que o faz mover, que faz ascender e cair na teia social os que a ele aderem como princípio primeiro e último de uma ingrata filosofia de vida. O retrato é cruel, atual e particularmente acutilante, tendo em conta a crise de 2008, as suas consequências e a ameaça que novamente paira sobre todos nós. Para ler e refletir.

Seria, pois, uma perda considerável ver sair estas figuras das estantes que as mantêm unidas no propósito comum da disponibilidade de quem as acarinha e olha como objetos de apreço... sem preço.

Uma rotação de ângulo reduzido no pescoço é suficiente para perceber o que demais há que não pode partir, em particular os 732 volumes da coleção Vampiro, ajuda imprescindível na passagem do tempo, sobretudo quando o tempo oprime, comprime e induz à resignação. Nada disso! Troquemos as voltas ao infortúnio porque, à semelhança de tanta outra coisa, a vida... é aquilo que se faz com ela...