Forçados Amadores

Navegação à Vista

Pablo Picasso disse um dia, há muitos e muitos dias, que os computadores são inúteis: só nos dão respostas.

A observação de há décadas merece reflexão hoje, quando todos dependemos mais ou menos da era computorizada, do progresso (e das perversões) que a tecnologia vem trazendo, da comunicação global que passou de necessidade imperiosa a desejo imperioso. Quer tudo isto dizer que a internet se tornou no melhor amigo do Homem, mesmo quando pode tornar-se inimiga do Humanismo. Ainda assim, em tempos de imprescindível recolhimento, a net pode e deve ser um importante auxiliar na passagem das horas.

À distância de um clique pode estar o assomar de um prazer, multiplicado por outros tantos na exata medida que o primeiro clique mais não é que o ponto de partida para uma viagem que pode ser de glória e celebração. Que o diga, por exemplo, “Love and Happiness”, título de uma canção de Al Green transformado numa noite de usufruto do melhor que a música tem.

O evento teve o patrocínio da Casa Branca e bastaria o curto discurso inicial de Barack Obama para se perceber a que distância estamos do que a América já foi...

O evento teve lugar no dia 26 de outubro de 2016, já na fase final do derradeiro mandato do Democrata na Casa Branca. Juntou músicos de fina estirpe, sem o formalismo a que o South Lawn do edifício já assistira em diferentes ocasiões.

Tratou-se, tão simplesmente, de celebrar a música, de lembrar o melhor que somos e como podemos ser ainda melhores. Pelo palco passaram nomes como Usher, Janelle Monáe, The Roots ou De La Soul. Entre os oradores estiveram Samuel L. Jackson, Bradley Cooper ou Angela Bassett. E durante uma hora e um quarto o que se viu e ouviu foi o prazer de tocar, cantar, entreter, divertir e afastar para longe todo o tipo de divergência, rancor ou sombras desafinadas.

A noite está disponível na íntegra, em alta definição e ao encontro de quem a procurar na net, de quem a encontrar na “soul” , de quem a alojar no quarto claro do usufruto.

O mesmo poderá dizer-se do precioso excerto da cerimónia do Kennedy Center que, no final de 2012 homenageou, entre outros, os Led Zeppelin.

A fantástica sala de Washington foi o palco para o tributo a uma das mais importantes bandas da história do rock, da história da música. Diz-se que, aquando da estreia de “Led Zeppelin IV”, em 1971, uma estação de rádio norte-americana ficou tão impressionada com o tema “Stairway to Heaven” que o passou ininterruptamente durante 24 horas; realidade ou mito urbano, o facto é que a canção permanece até hoje como um ícone da banda britânica e é considerada como uma das melhores de sempre na longa história do rock.

Vê-la interpretada pelos Heart podia ser um sacrilégio... mas não é. As irmãs Ann e Nancy Wilson honraram com distinção o tema de Jimmy Page e Robert Plant, tendo na bateria Jason Bonham, filho do malogrado John Bonham, o baterista dos Led Zeppelin que morreu em 1980. Foo Fighters, Kid Rock e um impressionante Lenny Kravitz também deixaram marca nestes vinte e poucos minutos de concerto que parecem pouco, mas não são, sobretudo se voltarmos rapidamente ao seu início.

Basta pesquisar para Kennedy Center Led Zeppelin e está tudo ao nosso dispôr.

Termino com a nostalgia do preto e branco, para que se não pense que só o rock tem lugar nestas páginas.

Tenho por isso que recuar até aos idos de 1965. Em setembro desse ano, Frank Sinatra fez um apelo aos “suspeitos do costume” e estes disseram (ou cantaram) “sim” sem hesitações: o “Rat Pack” juntou-se na Kiel Opera House em St. Louis, no Missouri, para um espetáculo de beneficência a favor da Father Dismas Clark´s Halfway House, uma organização pioneira no auxílio a ex-condenados. E assim, o público de então e o público de hoje (se assim o quiser) beneficiaram de um notável espectáculo (chamou-se precisamente Frank Sinatra Spectacular) protagonizado por Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr.

Mais não digo, porque o melhor mesmo é ver um concerto introduzido por um muito jovem Johnny Carson e transmitido para vários cinemas, nomeadamente de Chicago e Nova Iorque.

A qualidade das “performances” é inquestionável e o divertimento é em estado puro. É igualmente histórico em matéria televisiva, dado ser o único registo em vídeo de um espectáculo de longa duração apresentado pelo Rat Pack. A tal ponto que teve honras de exibição no Museu da Televisão e da Rádio em Nova Iorque.

Está à distância da nossa vontade a ele assistir, sem sobressaltos, na intimidade de nossa casa.