Forçados Amadores

Carris, Texas

É um livro extraordinário; o que é tanto mais notável quanto “extraordinário” é um dos encómios que pode ser lido na contracapa deste romance recentemente editado entre nós.

Sempre desconfiei dos elogios que adornam algumas edições, propaganda mal disfarçada que recorre a autores consagrados para apregoarem os méritos de outros da mesma estirpe ou, como é o caso, de cores mais recentes na imensa paleta que decora a literatura universal.

Desta feita, há razões de sobra para o cumprimento, mais ainda para a celebração.

Nunca tinha ouvido falar e muito menos havia lido qualquer palavra escrita por Jeanine Cummins. Não é propriamente insólito, dado que “Terra Americana” é apenas o seu terceiro romance, além de uma obra autobiográfica publicada em 2004.

Os outros dois romances, “The Outside Boy” e “The Crooked Branch”, viram a luz do público em 2010 e 2013, respetivamente, e, que eu saiba, não mereceram edição portuguesa. Mesmo sem os ter lido começo a sentir falta deles porque, se tiverem o fôlego deste “Terra Americana”, serão seguramente imperdíveis.

E o que é este “American Dirt”, além de ser um título muito mais adequado do que aquele com que foi batizada a edição portuguesa? Bem, é basicamente a viagem de uma mãe e de um filho pelas ruas da amargura, para parafrasear uma conhecida obra de Baptista Bastos. É uma fuga com fantasmas reais e tenebrosos, uma fuga comum aos milhares que fogem à violência, aos cartéis, à corrupção, às perseguições que ditam o câmbio do valor da vida, sempre diminuto, sempre em acelerado processo de redução.

A viagem de Lydia e Luca cruza-se com a dos migrantes que, provenientes do México (ambos são de Acapulco), da Guatemala, das Honduras, de El Salvador, da geografia do medo, confluem para as regiões fronteiriças de um país refém dos senhores do narcotráfico, em busca do sonho americano.

É simultaneamente uma jornada de luta e uma jornada de luto, sem tempo para cumprir o segundo, sem forças para enfrentar a primeiro; mas, surpreendentemente, elas vão surgindo desse âmago que desconhecemos até precisarmos dele. O exemplo de Lydia e Luca não é melhor nem pior que o das histórias de vidas que vão sendo contadas ao sabor de um itinerário (es)forçado no cimo d´A Besta, o comboio que ruma a um “el dorado” que se supõe existir lá longe, a Norte, onde a bandeira americana emerge como a meta possível de um destino que ninguém controla.

“Terra Americana” é um livro muito bem escrito; a frase é, na sua simplicidade, uma constatação que é rara por entre as edições literárias que pululam nos escaparates. E é tão bem escrito... que nem parece: não ostenta palavras a mais nem a menos, palavras difíceis que tantas vezes mais não são que o reflexo da vaidade de quem as escreve.

A linguagem é profundamente visual, a narrativa um regalo sequencial, os personagens talhados com o rigor dos simples. Há muita miséria neste livro, mas não há miserabilismo; há dolência mas não há pungência: as coisas são como são porque as coisas são o que são. É essa a realidade dos migrantes: os que vemos e lemos, nas reportagens escritas e nas imagens que congregam a banalidade da repetição. Porque, neste drama concretos dos que fogem aos males do mundo, a realidade repete-se. E nunca é banal.

É o que nos diz, é o que nos conta este notável livro que alguma crítica, afoita em fazer parangonas, compara às “Vinhas da Ira” dos tempos modernos. Não é a obra-prima de Steinbeck, mas pode muito bem ser uma obra-prima por mérito próprio. Não é pouco nos dias que correm.

Correram cinco anos para a autora concluir um livro que será, com poucas dúvidas, um dos melhores deste ano bruscamente suspenso mas que avançará, apesar de tudo.