Forçados Amadores

Casos Domésticos

Não foi fácil trazer aqui para casa o detetive Nero Wolfe, o que não admira, uma vez que o senhor nunca sai do seu próprio domicílio para resolver os inúmeros casos para os quais é sobejamente solicitado.

A solução encontrada foi transferir para a minha própria “domus” a velha casa de arenito pardo que serve de residência ao próprio Nero Wolfe, ao seu assistente pessoal Archie Goodwin e ao seu chef particular, Fritz. Couberam todos em todos e em cada um dos livros assinados por Rex Stout, todos disponíveis na lendária Coleção Vampiro. Sobre esta última, há que louvar a iniciativa do Grupo Porto Editora que, desde 2016, reedita os títulos que chegaram a Portugal na longínqua década de 40 do século passado.

Rex Stout não será dos mais conhecidos autores policiais entre o grande público, pelo que, também por isso, é digno de nomeação para leitura obrigatória. Nascido nas primeiras horas de dezembro de 1886 em Noblesville, no estado norte-americano do Indiana, Stout foi um filho feliz de pais instruídos e de formação republicana. Curiosamente, este facto não o impediu de estar, na sua vida adulta, sob atento escrutínio do sinistro J. Edgar Hoover, sob suspeita de pertencer a um círculo de escritores comunistas...

Carl Nesensohn

A escrita em si surge na segunda década do século XX, depois de fugaz passagem pela universidade até se alistar na Marinha, onde o facto mais relevante terá sido servir a bordo do Mayflower, o iate do presidente Roosevelt. Para outras águas navegou o autor que o seria em plenitude quando, em 1934, surge o primeiro romance com o detetive privado Nero Wolfe. Figura imensa em corpo e mente, adepto convicto e confesso da boa gastronomia, tem em Fritz o cozinheiro particular com quem debate o cardápio diário de uma casa de onde nunca sai, pese embora a raridade das exceções que amplificam a regra. Depois da comida e da cerveja, ou a par delas, a sua grande paixão vai para a estufa de orquídeas à qual dedica tempo e horário específico, haja o que houver. Há então Archie Goodwin, assistente e faz-tudo, homem de mão, braço e demais membros, moço de recados e recetor privilegiado dos estados de espírito de Wolfe.

É Archie quem narra os casos que o excêntrico detetive aceita, é Archie quem corporiza a parte mecânica, ou seja, as deslocações necessárias para a resolução encontrada algures no cérebro do corpulento Wolfe.

O estilo de Rex Stout é muitas vezes considerado na fronteira entre os autores mais “clássicos” como Conan Doyle e os mais “modernos” como Raymond Chandler. A narrativa é deliciosa na sua ironia, no refinamento do comportamento de Wolfe, nos apertos em que o pobre Archie se vê envolvido, na inteligência com que a trama se desenvolve, no relacionamento mais ou menos atribulado das duas figuras da rua 35 de Nova Iorque. Significa tudo isto que cada um dos livros é um regalo e há muitos regalos para ler, agora no remanso do lar, onde o tempo que faz e o tempo que se vive constituem um duplo convite à leitura.

livrosdobrasil.pt

Stout deixa uma herança literária com quase 50 títulos, entre livros e contos, que contaram com a figura de Nero Wolfe como protagonista. Aqui me permito sugerir o primeiro (“A Picada Mortal”) que introduz a figura do detetive, publicado em 1934 depois de ter visto a luz editorial em folhetins de “pulp fiction” onde Stout deixara a sua marca com cerca de 40 trabalhos publicados. Outros títulos que valem realmente a pena são “O Detetive Imperfeito”, de 1940, “Três à Porta do Lobo”, de 1960, “O Álibi Fatal”, de 1944 ou o polémico “A Campainha Tocou” (1965), que muitos viram como uma crítica mais ou menos velada ao FBI e a J. Edgar Hoover.

Há também alguns (poucos) títulos que se destacam porque o detetive se viu forçado a sair de casa e, até, a viajar. Mas esses não vou para já revelar, deixando ao potencial leitor ou leitora o desafio da descoberta. De qualquer modo, estes são apenas alguns dos muitos exemplos para referenciar a obra de Rex Stout e a boa notícia é que o nosso mercado está bem preenchido em matéria de oferta de casos desvendados por um dos mais originais detetives da ficção policial.

Basta encomendá-los (os preços são mais que modestos) ou, quem sabe, vasculhar numa estante perdida ou numa qualquer arrecadação, visto terem feito parte dos prazeres de leitura de várias gerações. Stout publicou até 1975, ano da sua morte. Quer a sua vida, quer a sua obra merecem seguramente um olhar atempado para que o tempo passe sem que dele demos conta.