Forçados Amadores

Duas faces, uma moeda

Kevin Lamarque

Numa das inúmeras e brilhantes tiradas com que nos brindou ao longo dos seus 74 anos de vida, Samuel Langhorne Clemens disse um dia que os políticos, à semelhança das fraldas, deviam ser mudados com frequência, e pelas mesmas razões.

A acutilância espirituosa de Mark Twain ganha especial fulgor nos dias que correm, com vívidos exemplos de lideranças políticas que provam à saciedade não estarem à altura dos desafios que são forçados a enfrentar. Sem qualquer juízo de valor subjacente às opções ideológicas de cada um, parece-me evidente que a praxis política de Donald Trump e de Jair Bolsonaro deixa muito a desejar no que concerne à defesa do interesse maior dos países que lideram e, por consequência, do seu próprio povo.

No primeiro caso, e pondo de parte apreciações de natureza pessoal, o que se tem assistido, de forma sistemática, é a um comportamento politicamente errático, egocêntrico, de quando em quando irresponsável, de “bullying” diplomático desajustado no tempo, de ausência de civilidade, de absurdo e gratuito confronto, para além das “gaffes” que são já uma longa tradição na política norte-americana. Os exemplos não são meras caricaturas; antes se aplicam com redobrada gravidade perante a crise mundial instalada com a disseminação do novo coronavírus.

Na altura em que escrevo esta crónica, os Estados Unidos contabilizam mais de 16 mil vítimas da Covid-19. Uma vez mais, o comportamento presidencial revelou mais características pessoais do que uma atitude de estadista. Forçado a contrariar a sua própria desvalorização do fenómeno pandémico, Trump foi progressivamente adotando um discurso mais cauteloso mas que, ainda assim, está longe de descansar quem continua sem vislumbre de uma postura assertiva. Que o diga o governador do Estado de Nova Iorque, a braços com uma brutal crise de saúde pública, clamando e reclamando uma ajuda federal que tarda em chegar. A tudo isto respondeu Trump da forma habitual, com a suspensão das contribuições do país para a Organização Mundial de Saúde, a quem acusou de não ter sabido atuar como devia face à pandemia da Covid-19 – a mesma pandemia que o próprio Trump desvalorizou...

Esta conjugação de fatores parece-me o pretexto adequado para a leitura de um livro que muitos comentaram aquando da sua publicação, mas que muitos mais não terão tido a oportunidade de ler. Chama-se “Medo – Trump na Casa Branca” e é assinado pelo prestigiado Bob Woodward que, lembram-se, denunciou com Carl Bernstein o escândalo Watergate, que acabaria por ditar a demissão de Richard Nixon da presidência dos Estados Unidos em 1974.

Bob Woodward na Trump Tower, NY, 2017

Bob Woodward na Trump Tower, NY, 2017

Mike Segar

No mesmo continente, mais a sul, temos o imenso Brasil e o pequeno Bolsonaro, cuja polémica mais recente é o atrito latente com o seu ministro da saúde. Motivo: o ministro percebeu a dimensão da pandemia e o potencial de risco num país com uma população genericamente de parcos rendimentos e com um sistema de saúde particularmente frágil. Bolsonaro não gostou: nem da dimensão dada ao surto do novo coronavírus, nem às medidas preventivas que vários Estados adotaram para evitar a sua propagação. Bolsonaro saíu à rua e contestou dura e abertamente as ações de contenção decretadas por parte das escolas e da Igreja, bem como da sociedade em geral alegando que, mais importante que o surto são as consequências económicas para o país cujo presidente entende que não pode nem deve parar, sobretudo por causa de uma... “gripezinha”.

Creio não haver até ao momento no mercado nacional qualquer biografia independente sobre o presidente brasileiro. O que existe, sim, é uma edição recente “Sobre o Autoritarismo Brasileiro”, assim se chama a obra assinada por Lilia Moritz Schwarck e agora disponível entre nós. O livro é interessante, mas necessariamente sucinto, ao abordar a origem do autoritarismo na sociedade brasileira que enfrentou, em tempos não muito distantes, vários quadros de ditadura. A historiadora considera nomeadamente que “os brasileiros, em momentos de crise, mostram uma veia autoritária” e descreve as características associadas a laivos autoritários em democracia: “o ataque à imprensa e à intelectualidade, uma histeria em relação às novas agendas de género e sexualidade, e o uso das redes sociais”. A autora refere ainda que os governos de matriz autoritária usam de desfaçatez para com a imprensa, para com a ciência e especialistas, “para se arvorarem como a única voz real”. Sinais dos tempos?