Forçados Amadores

De deuses e monstros

Eva Green na série "Penny Dreadful"

Jonathan Hession

Monstros que podem não sê-lo, monstros que o são realmente, personagens da literatura clássica, enredos entrecruzados, atmosférica banda sonora, uma história sólida e eficaz, uma produção de luxo e um elenco que o não é menos. Juntem-se todos os elementos e assista-se à criação de um exemplar serão televisivo.

Comecemos pelo nome: “Penny Dreadful” se chamava a uma específica literatura de cordel que fez sucesso na Inglaterra vitoriana, ou seja, no século XIX. Destinada a um público pouco letrado mas ávido de histórias sórdidas, sanguionlentas e assustadoras, os folhetins e romances repletos de assassinos, sobrenatural e macabro foram um êxito assinalável e, direta ou indiretamente, em muito terão contribuído para disseminar hábitos de leitura por entre as classes menos favorecidas de um tempo particularmente rico em assimetrias sociais. As histórias tornaram-se acessíveis também por causa do preço: custavam exatamente um “penny”, daí a sua popularidade e a designação que receberam (“dreadful” significa terrível ou medonho).

Estreada há precisamente seis anos no mercado televisivo norte-americano, “Penny Dreadful” cumpriu com mérito um conjunto de três temporadas preenchidas por 27 episódios que, regra geral, mereceram apreciação por parte do público e da crítica. Por cá, “Penny Dreadful” teve exibição assegurada em vários canais de cabo, sendo que está disponível para visionamento integral na HBO. A exibição em alta definição torna ainda mais evidente a excelência desta detalhada produção cujas filmagens decorreram maioritariamente na Irlanda, Inglaterra e também Espanha. Uma palavra também para a notável fotografia assinada por cinco nomes, cada um deles conferindo uma espécie de panegírico gótico repleto de imagens e ambientes soberbos na utilização da luz e da iluminação.

Com uma vasta equipa de produtores, entre os quais Sam Mendes, a série conta com um elenco de exceção, com a curiosidade de alguns dos atores e atrizes (Timothy Dalton, Eva Green, Rory Kinnear e Helen McCrory) terem participado em filmes da série 007, sendo que John Logan, o criador e argumentista de “Penny Dreadful”, foi também coautor dos guiões “Skyfall” e “Spectre”, ambos realizados por... Sam Mendes.

A eterna luta entre o Bem e o Mal tem com ponto de partida a busca empreendida por um rico e aventureiro explorador pela sua filha, misteriosamente desaparecida na lúgubre influência do sobrenatural nas ruas de Londres. Com maior ou menor relutância, é formada uma equipa nesta busca que tem pela frente vários desafios, não sendo menores os do próprio caráter das personagens. Muitas saíram da literatura gótica como Frankenstein, o mito de Drácula e as lendas de lobisomens e outros seres que tais. Há ainda um amoral Dorian Gray, figura central do único romance de Oscar Wilde, e a misteriosa Vanessa St. Ives, um desempenho superlativo de Eva Green.

Eva Green e Josh Hartnett na série "Penny Dreadful"

Eva Green e Josh Hartnett na série "Penny Dreadful"

Jonathan Hession

Harry Treadway no papel do Dr. Victor Frankenstein

Harry Treadway no papel do Dr. Victor Frankenstein

Jim Fiscus

Nove realizadores contribuíram para os 27 episódios das três temporadas onde dirigiram nomes como o por vezes subestimado Josh Hartnett, a pragmática Billie Piper (importante aquando do “ressurgimento” de “Doctor Who” com Christopher Ecclestone), o versátil e seguríssimo Harry Treadaway e os veteranos Brian Cox e David Warner. Tão importante quanto a qualidade dos atores é a qualidade das palavras que dizem. Que se sublinhe, pois, a excelência dos diálogos (muito acima da média em séries para televisão) bem como o “momentum” em que são apresentadas, havendo situações em que diríamos estar perante uma cena de representação teatral.

“Penny Dreadful” é visceral, carnal, mas simultaneamente poética, por vezes romântica, sinistra, sombria, sendo que todas estas caraterísticas nos são apresentadas sem qualquer vestígio de vulgaridade. Assim sendo, naturalmente se sugere o visionamento – noturno, como convém – de uma série que mereceu já uma “continuação”, desta feita estreada há bem pouco tempo e igualmente em exibição na HBO. Muito mais avançada em termos cronológicos, a nova “Penny Dreadful” tem agora o subtítulo “City of Angels”, alusivo ao local onde a ação decorre – a Los Angeles de final dos anos 30 do século XX – e onde as forças do Mal bem não vão fazer a uma série de personagens novamente enriquecidas com uma competente caraterização interior, credibilidade sem esforço e eficácia narrativa. É a própria história da cidade, das suas lendas e mitos, da sua multiplicidade (e complexidade) cultural que nos será revelada numa série com contornos de “film noir” dos velhos e bons policiais narrados por Chandler ou Spillane.

Os valores de produção voltam a potenciar o elenco do qual fazem parte Natalie Dormer (de “Game of Thrones”), outra vez Rory Kinnear, Brent Spiner (o “Data” de “Star Trek – Next Generation”) ou o sempre surpreendente Nathan Lane. A série estreou há apenas duas semanas mas promete continuar o que a sua “antecessora” propiciou: entretenimento em estado puro, justamente o que é preciso para não ficarmos confinados à inércia.