Forçados Amadores

La Vie en Rose

O realizador Blake Edwards com a Pantera Cor de Rosa, Los Angeles, 1999

NEIL JACOBS

Poucos terão dado conta mas, na história do cinema, há um conjunto de filmes que perpetuaram no tempo uma figura capaz de rivalizar em matéria de longevidade e de títulos com as sagas James Bond ou Star Wars. Entre uma joia e um boneco animado sejamos todos bem-vindos ao fascinante universo da Pantera Cor de Rosa.

Há três nomes fundamentais para entender as películas, os desenhos animados, os livros e demais derivados do fenómeno que foi “Pink Panther”. Desde logo a dupla que criou a animação: David DePatie e Fritz Freleng. Ambos haviam trabalhado em dois gigantes da produção do filme animado: a Hanna-Barbera (que nos deu, entre outros, “Os Flintstones”, “Os Jetsons” ou “Scooby-Doo”) e a Warner Brothers Cartoons, o centro nevrálgico de onde saíram obras-primas da animação assinadas por Chuck Jones, Tex Avery ou Frank Tashlin. Para avivar a memória dos eventualmente mais distraídos basta recordar que as figuras atrás mencionadas nos brindaram com as loucuras de Daffy Duck, Bugs Bunny, Yosemite Sam, Porky Pig ou os adoráveis e esquecidos Droopy ou Chilly Willy.

A vasta e riquíssima experiência adquirida por Freleng e DePatie traduziu-se num notável sucesso enquanto dupla quando criaram uma pequena sequência animada a servir de genérico inicial na estreia de um filme realizado por Blake Edwards em 1963: “A Pantera Cor de Rosa”. O título remete para uma rara e cobiçada joia, tentação maior para larápios de topo, nomeadamente o “infame” ladrão internacional conhecido apenas como “The Phantom”. Um homem tem a difícil e honrosa tarefa de capturar o meliante e proteger a joia. Esse homem é o inspetor Clouseau: incompetente, trapalhão, absolutamente singular, tem tanto de dedicação quanto de falta de jeito. O resultado é um conjunto imperdível de situações absurdas e hilariantes que tornaram “A Pantera Cor de Rosa” um sucesso com direito a (muitas) sequelas.

O outro nome fundamental para o sucesso desta “saga” é então o do realizador Blake Edwards que escreveu e dirigiu 8 dos 12 filmes que brilharam desde 1963 e foram perdendo fulgor até 2009. Pessoalmente, não tenho qualquer pudor em recomendar a primeira mão cheia de filmes assinados pelo realizador que, em 2004 foi agraciado com o Óscar honorário em reconhecimento de uma carreira onde pontuam títulos como “A Festa” (1968), “Boneca de Luxo” (“Breakfast at Tiffany´s”), de 1961, “Escravos do Vício” (“Days of Wine and Roses”), de 1962 ou “Victor Victoria” (1982).

Peter Sellers com as atrizes Capucine e Elke Sommer, Londres, 1964

Peter Sellers com as atrizes Capucine e Elke Sommer, Londres, 1964

Anonymous

Finalmente, os outros dois grandes trunfos dos filmes da Pantera Cor de Rosa dirigidos por Blake Edwards residem no imenso talento de Peter Sellers, o inspetor Clouseau até à sua morte em 1980, e na banda sonora composta e imortalizada pelo grande Henri Mancini. Sobre o primeiro, é conhecida a vasta colaboração com o realizador nascido em Tulsa, no Oklahoma, como é igualmente conhecida a relação amor-ódio entre os dois o que, narram testemunhas várias, originou sérias discussões durante as filmagens dos filmes em que ambos participaram. É, aliás, quase lendário o mau feitio de Peter Sellers ao longo da sua vasta carreira, facto absolutamente impensável para quem o vê interpretar a figura do inábil inspetor francês. Quanto a Henri Mancini, basta dizer que fez arranjos para Benny Goodman e para a orquestra de Glenn Miller e compôs os temas de “Peter Gunn” - além de ter assinado partituras para “Hatari” (1962), de Howard Hawks - bem como assinalar as várias colaborações com Alfred Hitchcock.

Regressados ao universo de “Pink Panther”, cumpre aqui dizer que, além da filmografia supra-citada e disponível em vários formatos vídeo, não podemos nem devemos ignorar o sucesso que foi e merece ser a transposição para desenho animado da icónica pantera cor de rosa. Os filmes, sempre assinados pela dupla Freleng-DePatie, são um absoluto regalo para todas as gerações e um visionamento mandatório para toda a família que, por razões que bem conhecemos, reencontrou hábitos de partilha domiciliária e quotidiana. A boa notícia é que o YouTube tem inclusivamente um canal dedicado às inocentes travessuras daquela que é, muito provavelmente, a criatura mais “cool” do cinema de animação. As histórias são curtas, não carecem de legendas, evidenciam ainda mais a qualidade da banda sonora e são um deleite num tempo em que os mais pequenos são confrontados com super-heróis americanos, animé japonesa da pior espécie (a da melhor está reservada para um público mais adulto) ou por bonecada que lembra derivações alucinadas de Miró, Picasso ou de duvidosa proveniência em matéria de gosto artístico. Sejamos, pois, bem-vindos ao fantástico universo de A Pantera Cor de Rosa.