Forçados Amadores

Haja o que ouvir

Clint Eastwood no Carnegie Hall, Nova Iorque, 1996

Jeff Christensen

No dia 17 de outubro de 1996, uma centenária sala de espetáculos nova-iorquina acolheu um concerto singular, único e irrepetível. Grandes nomes do jazz, entre cantores, compositores e instrumentistas, reuniram-se para prestar tributo ao legado cultural de um de entre eles que nunca foi realmente um deles.

Mais conhecido pelo imenso talento enquanto ator, produtor e realizador, o homenageado foi, desde muito cedo na sua longa vida, um entusiasta da música, e do jazz em particular. Foi de tal forma intensa a sua paixão que o espetáculo no Carnegie Hall recebeu o nome de ...“Eastwood After Hours”.

Quando novo, chamavam-lhe “Albino Red”, em virtude da sua tez pálida e do cabelo alourado; ainda assim, o que mais se notava eram os olhos, que espreitavam com um misto de curiosidade e admiração pelas estreitas janelas retangulares por onde era raro entrar a luz do dia, incompatível com o ambiente noturno dos bares, cafés e clubes de jazz que animavam as soirées de inúmeras cidades norte-americanas. A história foi contada por, nada mais, nada menos que Quincy Jones, o lendário produtor musical que lembrou a relação de Clint Eastwood com o jazz por influência do ambiente familiar. O pai costumava sentar o pequeno Clint nos joelhos enquanto ambos se debruçavam sobre o piano onde o petiz ensaiou os primeiros acordes. A música ouvida em casa era a das grandes bandas de jazz e do swing, bem como dos cantores da época. Encantado com os sons da infância e juventude, o próprio Clint Eastwood encetou uma abordagem académica à música que haveria de trocar pela arte da representação. Mas os conhecimentos adquiridos e o gosto desenvolvido não apenas pelo jazz mas também pelo “country”, “western” e “blues”, permaneceram ao longo da sua vida e tornaram-no um compositor de referência em muitos dos seus filmes. Não por acaso, a sua primeira realização, em 1971, pôs em evidência um tema de Errol Garner, “Misty”, no deveras curioso “Play Misty for Me”. Pessoalmente, não posso deixar de recomendar o belíssimo e esquecido “Honkytonk Man” (“A Última Canção”), um filme de 1982 que tem a particularidade de Clint Eastwood contracenar com o seu filho Kyle, hoje em dia um reconhecido baixista, compositor e produtor musical. Com nove álbuns no currículo, permito-me recomendar sem hesitação o último deles, de 2019 e sugestivamente batizado de “Cinematic”.

Clint Eastwood no Carnegie Hall, Nova Iorque, 1996

Clint Eastwood no Carnegie Hall, Nova Iorque, 1996

OSAMU HONDA

Do filho para o pai vai a distância de um tributo. Editado em audio e vídeo, “Eastwood After Hours” é, simultaneamente, uma homenagem ao jazz e ao contributo pessoal e profissional de Clint Eastwood para a divulgação de um género ainda tão incompreendido. De qualquer modo, o importante mesmo é assistir ao desfile de talento e bom gosto no palco do Carnegie Hall. Sentado no camarote de honra, Clint terá apreciado as palavras mas sobretudo a música que, ao longo de quase duas horas, encheu e preencheu a sala e os que, fora dela, tiveram acesso a este magnífico concerto que, em excertos ou na íntegra, pode ser visto no streaming que a net coloca à nossa disposição. Entre notáveis instrumentistas que dão vida às partituras assinadas pelo próprio Clint Eastwood, os cantores e cantoras e a magnífica The Carnegie Hall Jazz Band, é música em estado puro que podemos ouvir (o cd está também disponível) e ver sem reservas e sem contemplações. No segundo caso, o vídeo do concerto é enriquecido com excertos dos filmes musicados e por depoimentos do próprio Clint, assim como imagens que, pela sua raridade, permitem uma maior proximidade a um ator, realizador, produtor e compositor que para muitos pode parecer distante. Escutar “The First Time Ever I Saw Your Face” na voz de Jimmy Scott é um absoluto regalo, o mesmo podendo e devendo dizer-se de “Eastwood: After Hours Suite”, em que o próprio Clint acompanha ao piano um “medley” de algumas das suas composições.

Permito-me, em último lugar, lembrar a assinatura de Clint Eastwood” na realização de “Bird”, um filme de 1988 a lembrar a conturbada vida do genial saxofonista Charlie Parker, que viveu escassos 34 anos. E, já agora, recordar que Clint Eastwood foi, no mesmo ano, o produtor do interessante “Thelonious Monk: Straight, No Chaser”, um documentário assinado por Charlotte Zwerin com a chancela, claro, da Malpaso, a produtora de (quase) sempre de Clint Eastwood. A este propósito retomo as palavras de Quincy Jones ao referir que os filmes de Eastwood refletiam muito o “modus operandi” do jazz; como músicos que se conhecem há muito, Clint reúne a sua equipa de quando em vez, faz o que tem a fazer e despede-se até à próxima. É este sentido prático na filmografia e na vida de Clint Eastwood que devemos celebrar assistindo ou ouvindo a “Eastwood After Hours – Live At Carnegie Hall”.