Forçados Amadores

O Dueto da Corda

Stradivarius "Ex-Nachez" construído em 1716

Christian Charisius

Entre 2 milhões de dólares e 15 milhões de dólares. É dentro destes valores que oscila o preço em leilão daqueles que estarão seguramente entre os objetos mais cobiçados na história da música. Quem os concebeu e construiu morreu há 282 anos. Chamava-se Antonio Stradivari, mas assinou sempre as suas obras com o seu nome em Latim: Stradivarius.

Estima-se em cerca de 500 os instrumentos construídos por Antonio Stradivari ainda disponíveis em exposições, coleções privadas e para muito raras vendas. O notável artesão nascido na região milanesa de Cremona terá construído cerca de 1600 instrumentos, entre violinos, violas e violoncelos, entre outros instrumentos de corda. E se a sua assinatura é sinónimo de procura e reverência, são os violinos que despertam o maior interesse por parte de potenciais compradores.

Perlman toca violino numa cerimónia judaica em Washington, EUA, 2010

Perlman toca violino numa cerimónia judaica em Washington, EUA, 2010

Molly Riley

Análises científicas, apreciações técnicas, opiniões várias e divergentes, teses, hipóteses, especulações: de tudo um pouco com um pouco de tudo se disse sobre as caraterísticas que tornam especiais os Stradivarius. Desde a qualidade do material de manufatura, passando pela técnica de construção, pelo tipo de verniz utilizado, pelo tamanho dos instrumentos, pela dimensão das aberturas do corpo, tudo serviu para tecer considerações mais ou menos avalizadas sobre o “mistério” que torna os violinos do mestre Antonio tão especiais. Quanto a mim, tão ou mais importante que apurar estes factos, é escutá-los (aos violinos, claro). Para tal recorro, com a devida vénia, à prestimosa colaboração de dois virtuosos: Yehudi Menuhin e Itzhak Perlman.

O segundo dos dois nomes será, em teoria, se não o mais conhecido, eventualmente o mais popular, sobretudo porque é ele o solista em vários dos temas que preenchem a magnífica banda sonora que o incrível John Williams compôs para “Schindler's List” (“A Lista de Schindler”) - talvez a “opus magnum” do realizador Steven Spielberg. Mesmo quem não viu a película do já distante ano de 1993 é capaz de reconhecer o tema inicial deste que é simultaneamente um poderoso libelo acusatório e um comovente retrato dos limites da condição humana na sua capacidade de resistência e da falta deles na capacidade de ser cruel.

Com um vasto e honroso percurso como instrumentista, maestro e professor de música, Itzhak Perlman foi contemplado com 16 prémios Grammy, um deles de Carreira, tendo atuações inesquecíveis um pouco por todo o mundo, incluindo na tomada de posse de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos. Violinista de exceção, é o feliz proprietário de um Soil Stradivarius que o artesão terá construido em 1714. A história é ainda mais interessante e não menos curiosa: o anterior possuidor do instrumento foi... Yehudi Menuhin.

Yehudi Menuhin com a Orquestra Filarmónica de Sarajevo, 1996

Yehudi Menuhin com a Orquestra Filarmónica de Sarajevo, 1996

Danilo Krstanovic

Nascido na Nova Iorque de 1916, o violinista e também homem de batuta nasceu de uma família judaica com raízes lituanas. Aos sete anos de idade deu o seu primeiro concerto com a Orquestra Sinfónica de São Francisco. As qualidades que logo ali lhe foram reconhecidas não diminuíram a surpresa e absoluta rendição do público e da crítica às suas performances com a Orquestra Filarmónica de Berlim. Tinha 12 anos. E, apesar da idade ser quase do bê-a-bá, devorou três dos maiores bês da história da música: Bach, Beethoven e Brahms ganharam redobrada vida através do seu violino.

Avançar no tempo é vê-lo tocar para as forças aliadas durante a II Guerra Mundial e num emotivo concerto para prisioneiros, três meses depois da sua libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen. Curiosamente, Yehudi Menuhin foi o primeiro judeu a atuar na Alemanha de 1947, o que lhe valeu um duro conjunto de críticas que o consideraram um veículo de reabilitação do país que tinha executado milhões de judeus. Ainda para mais quando alguém transportava no próprio nome a sua origem: Yehudi significa judeu em hebraico.

Nada disto impediu uma longa carreira de sucesso da qual deixou um impressionante legado de largas dezenas de gravações, o que não admira: o seu primeiro disco data de 1928 e só deixou de gravar no ano da sua morte, em 1999. O seu contrato com a EMI permanece como o mais longo de sempre na história da indústria discográfica.

E eis como dois homens, cuja obra está inteiramente à disposição dos internautas, prestaram um inegável tributo a um artesão italiano que desde 1737 jaz na Basílica de San Domenico, em Cremona, província italiana da Lombardia.