Forçados Amadores

Índios, Cowboys e Outros

Quem disse que um bom "western" só pode ser visto num ecrã?

Grandes paisagens do Velho Oeste; ruas enlameadas ou secas, reflexos inevitáveis do capricho dos elementos; saloons repletos de seres ébrios na sede de vingança; a música possível do piano esburacado pelo impacto dos projéteis ou pela força da briga que desnudou punhos e boas maneiras; a cantora que ninguém escuta porque está ali para ser vista; as vidas entrecruzadas pela força da terra e do gado; o destino encurtado no arbítrio de um duelo; os índios e os cowboys que se degladiam entre estigmas nascidos de romances ou da dura realidade dos factos; e o herói solitário que nem sempre parte na direção do sol porque a sua vida é um imenso eclipse. Quem disse que um bom “western” só pode ser visto num ecrã?

Foi há 50 anos que um belga naturalizado francês e um belga que assim se manteve criaram uma das mais importantes personagens do universo da banda desenhada. O primeiro chamava-se Greg (pseudónimo de Michel Louis Albert Regnier), o segundo chama-se Hermann (de apelido Huppen) e juntos fizeram nascer a série “Comanche”. O sucesso iniciado na revista Tintin prolongou-se no tempo que, ao longo de quatro décadas, assistiu à publicação de 15 títulos enriquecidos com um conjunto de personagens memoráveis para os amantes da nona arte.

“Comanche” é o nome adotado pela jovem e corajosa proprietária do Triple Six, um rancho situado no Wyoming que herdou do pai e que gere com o velho “Ten Gallons”. Curiosamente, porém , o personagem mais complexo e fascinante é o bravo e circunspecto “Red Dust”, cuja aura misteriosa entre forasteiro e voluntarioso cativa a determinada “ranchera”, tornando-se capataz e protetor do rancho e daquela a quem chamam “Comanche” – o nome verdadeiro fica para descobrir com a leitura da série. Esta está, felizmente, disponível na íntegra no mercado português. Sublinhe-se, aliás, que ainda recentemente a editora Ala dos Livros publicou o terceiro e último volume que reúne os integrais de “Comanche”, incluindo as histórias curtas, e com a particularidade de ser uma edição a preto e branco, reveladora da excecional qualidade do traço assinado por Hermann, presente em 10 dos 15 álbuns, substituído nos últimos cinco pelo francês Michel Rouge. Já a presença de Greg enquanto argumentista é transversal a toda a obra que se recomenda vivamente, não apenas ao público juvenil mas a todo o público que daí para a frente vai contabilizando anos de vida.

De entre a dezena e meia de títulos, todos eles absolutamente recomendáveis, permito-me destacar “Os Lobos do Wyoming”, “E o Diabo Gritou de Alegria”, “O Corpo de Algernon Brown” e o soberbo “Red Dust”, onde mergulhamos na história pessoal de um personagem extraordinariamente rico em matéria de composição interior e de densidade de caráter. A cores ou a preto e branco, em álbuns individuais ou agregados, “Comanche” merece definitivamente um olhar demorado e o consequente prazer que reduz a passagem do tempo ao ápice de um momento.

O mesmo se dirá de um outro personagem que há muito habita o mundo da banda desenhada e que, ao contrário de “Comanche”, prolonga no tempo uma tradição iniciada em 1963 na revista “Pilote” pela dupla Charlier/Giraud. O belga é justamente considerado um dos mais importantes autores de banda desenhada à escala mundial, sendo que os seus (muitos) argumentos são apontados como exemplo de qualidade narrativa e da construção de histórias cuja complexidade não é fácil de encontrar na nona arte. “Blueberry” é, a todos os títulos, paradigmático nesta matéria. Claro que as pranchas desenhadas pelo francês Giraud (que é também o quase lendário Moebius, num outro tipo de desenho e destinado a um outro tipo de público) foram um contributo decisivo para o longo e merecido sucesso de um personagem que havia de tornar-se numa verdadeira saga.

Importantes críticos de banda desenhada associaram a figura de “Blueberry” – um soldado pouco ortodoxo, quando não, indisciplinado, paladino da justiça e das boas causas – à do ator francês Jean-Paul Belmondo, pese embora pessoalmente considere a comparação algo disparatada. Seja como for, o facto é que as aventuras deste quase “enfant terrible” deram origem a uma impressionante coleção com cerca de 50 títulos, dos quais 40 tiveram afortunadamente edição portuguesa. Na prática, este conjunto abrange duas décadas da vida e do percurso do tenente Blueberry, incluindo a sua juventude e as tarefas que foi desafiado a aceitar por entre as diversas aventuras que foi vivendo. Impossível que é, naturalmente, adquirir e ler a obra integral de Blueberry, aqui se sugere a leitura de “Forte Navajo”, título inaugural da série, bem como o excelente “O Homem da Estrela de Prata” (uma espécie de tributo a “Rio Bravo” de John Ford) ou os notáveis e sequenciais “A Mina do Alemão Perdido” e “O Espectro das Balas de Ouro”. Qualquer destas leituras é um extraordinário aperitivo para as maravilhosas aventuras de um herói por vezes solitário na aridez e perigosidade do Velho Oeste americano.