Forçados Amadores

O Mundo e a bola colorida

Siphiwe Sibeko

O futebol são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha. Prognósticos só no fim do jogo. O quarteto defensivo é hoje formado por três elementos: o A e o B. Somos todos treinadores de bancada. Etc. Chamado Desporto-Rei em boa parte do planeta, o futebol está cheio de clichés, lugares-comuns e uma espécie de sapiência individual onde praticamente toda a gente tem algo a dizer sobre o universo futebolístico. Muitos disseram-no através do talento da sua escrita. É ela que hoje se recomenda, baseada nos exemplos que vão seguir-se.

Tornaram-se referência para os amantes da bola as prosas em forma de crónica que há vários anos têm a assinatura de Jorge Valdano no “El País”. Sofisticadas mas acessíveis, delicadas na palavra, incisivas no pensamento e elegantes na escrita, as reflexões deste antigo jogador argentino, técnico e dirigente, nomeadamente no Real Madrid, foram e continuam a merecer objeto de atenção mesmo por parte daqueles (e daquelas) que não têm no futebol uma das suas prioridades de entretenimento. A este propósito há duas boas notícias: continuam disponíveis na sua periodicidade semanal (sexta-feira) e, para quem não domina o castelhano, estão também ao dispor na edição brasileira do “El País”.

No “el país” que é o nosso, lembro com um misto de saudade e nostalgia as crónicas de Carlos Pinhão no jornal “A Bola”, bem como a de todos os cronistas e colunistas que deixaram a sua marca bem impressa nos jornais desportivos, num tempo em que o ódio visceral andava afastado dos relvados, e a indignação tinha um grau bem abaixo das temperaturas atuais que reduzem a prática futebolística a um mundo muito próprio, onde os adeptos são inseridos sem pudor na vasta equação dos negócios à qual se reduziu uma atividade desportiva.

Camilo Jose Cela, à esquerda, recebe o Nobel da Literatura das mãos do Rei da Suécia, Estocolmo, 1989

Camilo Jose Cela, à esquerda, recebe o Nobel da Literatura das mãos do Rei da Suécia, Estocolmo, 1989

TOBBE GUSTAVSSON

Na literatura, permito-me sugerir uma obra esquecida, datada de 1963 e assinada por um dos mais importantes escritores espanhóis do século XX. A obra chama-se “Onze Contos do Futebol” e quem a escreveu foi Camilo José Cela. Galego dos sete costados, figura singular nas letras do outro país ibérico, Cela chegou a viver alguma da sua juventude em Valença do Minho e o seu percurso conduziu-o bem alto na literatura da nação de Cervantes. Dele recebeu o prémio, assim como o do Príncipe das Astúrias e a eterna consagração com o Nobel literário com que foi distinguido em 1989. De origem aristocrática, serviu nas tropas franquistas na Guerra Civil espanhola e terá sido censor depois dela, o que é um absoluto paradoxo em função do que foi o seu percurso literário, algumas vezes experimentalista e nas outras seguramente inovador. Na obra acima citada, o futebol funciona como pretexto para o desenvolvimento de várias metáforas e alegorias sobre a condição humana. Mais do que o jogo em si, é o fenómeno social que interessa ao autor, assim como as consequências ditadas por esse fenómeno para quem dele faz parte, direta ou indiretamente. Claro que este pressuposto não faz deste livro uma obra fácil, mas não é menos apetecível para quem quiser ver o futebol de uma outra perspetiva, ao mesmo tempo que pode deliciar-se com bela prosa. A este propósito, não resisto a recomendar dois outros títulos do autor que, rezam as lendas, terá oferecido um burro devidamente enlaçado com a cor da rosa como prenda de casamento para a infanta Cristina. A primeira Chama-se “A Colmeia” e é provavelmente o seu romance mais conhecido, mas é o notável “A Família de Pascual Duarte” que é de leitura obrigatória.

Também o devia ser “O Negro no Futebol Brasileiro”, infelizmente disponível apenas por simples encomenda, pois que o livro do grande Mário Filho reside apenas no outro lado do Atlântico. Ainda assim, faz sentido recomendá-lo para quem quiser perceber melhor de onde vem e porque existe ainda essa “mística” em torno do futebol brasileiro. Do ponto de vista sociológico, é um trabalho único sobre como a diversidade cultural moldou o futebol de Vera Cruz, e como as diferenças sociais tiveram de lutar para ultrapassar obstáculos e democratizar o jogo da bola. Para quem não sabe quem é Mário Filho, bastará dizer que, 16 anos depois da sua inauguração (1950) o Estádio do Maracanã passou a ter o nome deste jornalista (1908-1966), escritor e exímio cronista desportivo que aproximou o modo de ver do jogo ao modo de ver do adepto. Irmão de Nelson Rodrigues (também ele jornalista e escritor) Mário Filho é um nome a ser lembrado quando de futebol se fala... ou se escreve.

Outro jornalista, outro livro imperdível, este com edição portuguesa integrada, aliás, com boa parte da obra do autor que em boa hora mereceu publicação nacional. Chama-se “Futebol ao Sol e à Sombra” e foi escrito em 1995 por Eduardo Galeano. Conjunto de deliciosas crónicas saídas da memória pessoal do autor, e também por isso algumas delas em registo de reportagem, esta é uma leitura deveras agradável, capaz de agarrar os fãs de futebol, capaz de seduzir o mais distante desse universo. O autor, nascido no primeiro país a conquistar o Campeonato do Mundo da modalidade (Uruguai, 1930) morreu há 5 anos e deixa um importante legado de intervenção política, crónica jornalística, reportagem, e de vasta reflexão sobre os problemas do mundo.

Sem tempo para prolongamento, aqui deixo uma última e bem conhecida reflexão sobre o tal desporto-rei, proferida por Bill Shankly, histórico jogador e treinador escocês, que durante 15 anos treinou o Liverpool: “Algumas pessoas acham que o futebol é uma questão de vida ou morte. Posso assegurar que é muito mais que isso”.