Forçados Amadores

O Canto e o Cisne

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No ano de 1958, neste mesmo mês de maio, o homem que dizia que a sua voz não era para usar de dia, entrava por isso à noite nos Capitol Studios em Los Angeles, inaugurados havia apenas dois anos, para gravar um disco, o décimo quinto de uma já distinta carreira. Manteve-se a distinção e prolongou-se a carreira até à sua morte, a 14 de maio de 1998.

Quarenta anos antes, o homem gravava “Frank Sinatra Sings for Only the Lonely”, acompanhado por orquestra conduzida pelo mestre de arranjos musicais e seu colaborador próximo (juntamente com Don Costa), o maestro Nelson Riddle. O disco foi destacado pelo próprio cantor como sendo um dos mais importantes do seu catálogo (os outros foram “In the Wee Small Hours”, de 1955 e “Come Fly With Me”, de 1957). São 12 temas de amor e infortúnio, onde se destaca o soberbo “One For My Baby (And One More For The Road)” ou “Guess I´ll Hang My Tears Out To Dry”. O disco foi número um de vendas e permaneceu no top durante 25 meses.

O sucesso foi uma constante na vida de Sinatra, que assim se chamou formalmente desde 1945, uma vez que, devido a erro técnico, a sua certidão de nascimento, alusiva ao dia 12 de dezembro de 1915, o nomeara Sinestro... Foi importante a correção, pois que o seu apelido se tornou imagem de uma marca que foi muito além do canto. Este, no entanto, imortalizou a figura que se tornou lenda na história da música. O timbre único, o fraseado perfeito, sílaba a sílaba, a extraordinária capacidade de se reinventar no improviso, o olhar matreiro, o difícil equilíbrio de se manter “cool” e sofisticado, a alma emprestada e adaptada a cada tema, tudo isto e muito mais definiram para sempre aquele a quem muito justamente chamaram “A Voz”.

Foi com ela que, sempre rodeado grandes músicos, de grandes orquestras e maestros, que Francis Albert Sinatra gravou incontáveis discos, tal é a profusão de reedições, de edições especiais, de coletâneas, compilações, de “best of”, de músicas natalícias, de “grandes êxitos”, etc, etc. De qualquer forma, é possível contabilizar mais de 50 álbuns de estúdio, pelos quais perpassa o melhor do cancioneiro norte-americano. De entre todos os discos de Sinatra, há dois que, na subjetividade inerente à opinião pessoal, me permito dar ênfase. O primeiro chama-se “Sinatra Live At The Sands”, sendo que o Sands foi um importante resort turístico, composto por hotel e casino, um ícone entre vários da pecaminosa Las Vegas. O disco refere-se a um espetáculo que teve lugar no início de 1966, que reuniu no mesmo palco o glorioso Sinatra, a orquestra de Count Basie e a direção de Quincy Jones. De salientar ainda que, felizmente, a gravação preserva os monólogos descontraídos do “Ol´ Blue Eyes” bem como o ambiente dos que tiveram o privilégio de assistir ao concerto. São 22 intervenções do homem e do seu talento.

O segundo disco que gostaria de mencionar chama-se “Sinatra – The Main Event”, e é considerado por muitos o melhor concerto ao vivo (e para a televisão) dado por Francis Albert. Gravado e lançado em 1974, o espetáculo é puro entretenimento, sobretudo pela enorme cumplicidade entre o cantor e o público que encheu os 25 mil lugares do mítico Madison Square Garden. Do “medley” de abertura ao final com o “hino” (é o próprio Sinatra que assim lhe chama) que é “My Way” (um original de Paul Anka, nunca é demais lembrar), o concerto é uma celebração da música e do virtuosismo de uma figura que também encheu os ecrãs.

"Até à Eternidade", 1953

"Até à Eternidade", 1953

Vencedor do Óscar para Melhor Ator Secundário em “From Here to Eternity” (“Até à Eternidade”), realizado por Fred Zinnemann em 1953, Sinatra teve ainda um desempenho exemplar e consequente nomeação para óscar de Melhor Ator em “The Man With the Golden Arm” (“O Homem do Braço de Ouro”), um poderoso e à época arriscado filme realizado por Otto Preminger em 1955, uma das primeiras abordagens ao universo das drogas duras no cinema. Sinatra participou ainda em notáveis musicais e filmes de ação, tendo conquistado um óscar honorário em 1972. Na música, inúmeros Grammys adornaram as suas estantes e a sua vasta discografia aí está para nosso contentamento.

Graças à net é possível ouvir muito do muito que Sinatra nos deixou, bem como assistir a concertos, na íntegra ou em excertos, pelo muito mundo por andou “o mais duro dos duros”, como lhe chamou, brincando, Bono aquando da atribuição de um Grammy de carreira. É só pesquisar pelo nome que há muito é marca e constatar a suprema de uma despedida já com 22 anos.