Forçados Amadores

Contos e Reais

foto: Zeca Fonseca

Faria 95 anos na passada segunda-feira; ficou-se pelos 94, pois que a morte o tomou como passageiro para uma última viagem na manhã do passado dia 15 de abril. E se a morte o impediu de ver maio, a vida ocultou-lhe o José que precedia os nomes pelos quais ficou conhecido: Rubem Fonseca.

Mineiro de ascendência portuguesa, em S. Juiz de Fora nasceu um homem singular no caráter e na trajetória de uma vida que fez dele causídico, polícia e mestre das artes da escrita. Esta se daria à estampa em 1963 quando surpreende com a publicação de “Prisioneiros”, o primeiro de muitos livros de contos onde a inovação da narrativa assinala uma percetível mudança no estilo a que as letras brasileiras não estavam acostumadas. Porém, o costume ficou, não imutável mas antes se aperfeiçoando, aprimorando e encurtando cada vez mais distâncias entre o autor, o público e a crítica. O feito é tanto mais notável, porquanto a escrita de Rubem Fonseca sempre primou pelo estilo direto, sem subterfúgios nem demasiadas preocupações com desviados conceitos de moralidade.

Comissário de polícia no bairro de S. Cristovão, no Rio de Janeiro (cidade onde sempre viveu e onde acabou por ceder a falecimento súbito na cobardia de um enfarte), o autor que ainda não o era exerceu atividade policial entre o último dia de 1953 e o sexto dia de fevereiro de 1958, quando a exoneração de funções o atirou para o universo da escrita. Nele viria a traduzir muita da sua experiência pessoal e profissional, designadamente a geografia física e humana do submundo do crime. Alguns casos narrados na sua obra provêm desta experiência, numa linguagem que muitos consideram dura mas que, pessoalmente, prefiro chamar direta. É, aliás, um dos seus trunfos: personagens credíveis, situações que o não são menos, e uma fina ironia que nos teima em dizer que a ficção tem muito de realidade, e vice-versa.

Ilhéu de si próprio, não se lhe conhecem entrevistas nem grandes manifestações de mundanismo. Chamar-lhe espartano seria, contudo, demasiado. Gostava de um bom charuto e apreciava a boa comida, um e outra sem os excessos suscetíveis de transformar o prazer em caricatura. Também por isso, a obra de Rubem Fonseca reflete alguns excessos que fazem de nós humanos (mas será que nos humanizam?) como o sexo, a gula, a violência que parece gratuita. Tudo regado com o raro dom do sorriso que, aqui e ali, se vai abrindo numa luta sofisticada para não se tornar desabrido.

Rubem Fonseca na Feira do Livro de Guadalajara, México, 2003

Rubem Fonseca na Feira do Livro de Guadalajara, México, 2003

GUILLERMO ARIAS

Dono de uma obra deveras invulgar, o intelectual brasileiro deixou-nos uma dúzia de romances e uma vasta coleção de contos repartidos numa vintena de títulos onde é impossível não destacar “Feliz Ano Novo” (1975), cujo conteúdo algo gráfico levou a censura a proibi-lo, “O Cobrador” (1979, notável exercício de versatilidade e mestria na narrativa curta, “A Confraria dos Espadas” (1998) ou ainda “Calibre 22” (2017) ou “Carne Crua”, editado em 2018 e que constitui o seu último registo literário. Felizmente, a sua obra está muito bem representada em Portugal e, no domínio do romance, o destaque vai para “Agosto” (1990), uma importante crónica sobre os acontecimentos que levaram à sórdida morte de Getúlio Vargas, “O Caso Morel”, editado em 1973 e que é o romance de estreia de Rubem Fonseca, já bem fornecido do ambiente e da temática de toda a sua obra, “O Seminarista” (2009), provavelmente o mais obviamente amoral dos seus romances ou “Mandrake, a Bíblia e a Bengala”, recuperação em grande do magnífico personagem apresentado em “A Grande Arte” – o advogado que tem tanto de sofisticado quanto de perverso na imensa urbe que é o Rio de Janeiro”. O livro daria origem a uma série televisiva com a chancela da HBO do Brasil tendo Marcos Palmeira como protagonista. É, também ela, imperdível.

Rubem Fonseca conquistou diversos prémios literários, entre os quais o Prémio Camões, que o distnguiu em 2003. Nove anos depois, o escritor embeveceu o privilegiado público que teve oportunidade de o ouvir e de com ele contactar quando foi convidado do Correntes D´Escritas em Viana do Castelo. Aí lembrou, com orgulho, as suas origens portuguesas e enalteceu a língua de Camões, cujos poemas o seu pai lhe lia quando era muito jovem. Sê-lo-á para sempre, sendo que se dúvidas existissem, aí está a sua obra, à nossa espera, para nosso prazer, numa demonstração inequívoca de imortalidade.