Forçados Amadores

Sobre o Natural

Um dia antes da Revolução dos Cravos em Portugal, nascia em Toledo, mediana cidade do Ohio, alguém que, sem naturalmente o saber, criaria um produto televisivo que se tornou um objeto de culto. Fala de mitos e lendas, monstros e assombrações, deuses e demónios, o Bem e o Mal, bênçãos e maldições, subidas e descidas vertiginosas ao céu e ao inferno, crimes inexplicáveis, fenómenos misteriosos e o mais que se não diz por ser verdade. E a verdade é que “Supernatural” é entretenimento em estado puro.

Foi em 2005 que Eric Kripke deu nas vistas, já depois de nelas não ter dado quando assinou argumentos para séries televisivas sem grande alcance e reduzido sucesso. As coisas mudaram ligeiramente de figura quando escreveu o argumento de “Boogeyman”, filme que deu a primeira projeção ao jovem argumentista exatamente no mesmo ano do grande salto em frente no caminho do sucesso. Este chegou, um tanto inesperadamente, com a estreia de “Sobrenatural” (desta vez o título português não inventou e traduziu literalmente o original). Ninguém diria que o primeiro episódio exibido em setembro daquele ano nos Estados Unidos daria origem a mais 326(!) até ao momento, uma vez que a 15ª e provavelmente última temporada foi interrompida no passado dia 23 de março por força deste dramático evento pandémico. A produção já avisou entretanto que, se tudo correr bem, setembro será o mês a partir do qual serão exibidos os episódios restantes das fantásticas aventuras dos irmãos Winchester.

Sam e Dean são os protagonistas das incríveis histórias passadas na imensa América que tem tanto de desconhecido e surpreendente quanto de assustador. Esta saga que tem no conceito de família um dos seus pólos de atração é simultaneamente um trunfo bem usado pelo seu criador para alargar o espectro (a palavra não é inocente) de sedução de um público eminentemente jovem para um universo maior de potenciais espectadores. Estes não regatearam aplauso a uma série que já mereceu adaptação à banda desenhada e ao desenho animado, para além de ter gerado um muito razoável mercado de merchandising à escala global.

Muito enraizada nos mitos urbanos, a série foi alargando horizontes em matéria ficcional que transformou a luta pessoal dos irmãos Winchester num poderoso embate do Bem contra o Mal. Esta contenda é cada vez mais evidente à medida que os episódios se sucedem e, para se revitalizar enquanto produto televisivo, o criador (outra palavra pouco inocente) recorreu a alguns episódios “hors serie” que cumprem integralmente a sua missão de surpreenderem “fora da caixa”. A série tem outro grande mérito, raro nos dias que correm, que é uma enorme capacidade de ironizar sobre si própria.

Este difícil, e por isso mesmo exigente e complexo equilíbrio entre terror, drama, mistério e divertimento é cumprido na íntegra num projeto francamente bem sucedido e com uma longevidade assinalável. Com uma sequência admirável em termos de narrativa, “Sobrenatural” surpreende igualmente pelos volte-faces que não raras vezes acontecem ao longo da jornada de muitas e muitas milhas que leva os dois jovens a enfrentar as realidades mais inesperadas. E por neles falar cumpre aqui dizer que Jared Padalecki e Jensen Ackles estão perfeitos no papel que desempenham, demonstrando para além do mais uma notável cumplicidade que os faz aproximar sem resistência de um público cada vez mais fiel.

Quem se aventurar a dar uma chance a “Sobrenatural” vai seguramente confrontar-se com o absurdo de situações assaz excessivas (até em termos gráficos) mas tem de aceitar benignamente o incontornável facto de muito do melhor entretenimento estar pejado de maravilhosa inverosimilhança, algo que acabará por torná-lo ainda mais cativante. É o que fazem dois irmãos num Chevrolet Impala de 1967, combatendo as mais estranhas forças do Mal por entre alianças de dúbia moralidade, inesperadas traições e perigos em cada esquina, mesmo quando estas não existem.

Segundo o poema de Borges, Swedenborg conversava com os anjos nas ruas de Londres. Segundo Eric Kripke, os Winchester conversam com eles numa qualquer ruela de uma qualquer localidade escondida à vista de todos na América profunda. Para ver sem moderação.