Forçados Amadores

Onde está o óleo?

Do mesmo modo que, em tempos não muito distantes, a picanha, o sushi, a rúcula e a quinoa, entre outros, se tornaram moda primeiro e hábitos depois na “nossa” gastronomia, também o mercado televisivo foi invadido por novas tendências que despertaram hábitos antigos, adormecidos ou tradicionais. Falo, naturalmente, do mundo automóvel e dos sub-produtos que invadiram os nossos ecrãs.

Lembro-me, criança ainda, de ver na enorme Grundig a preto e branco (e cujas válvulas de som tinham de ser substituídas de quando em quando) um programa chamado “Sangue na Estrada”. Podia ser um policial negro, mas era um interessante documento televisivo sobre prevenção rodoviária, apresentado entre 1965 e 1974 por Joaquim Filipe Nogueira, ele próprio praticante de modalidade automobilística. Pedagógico, sério, convidava a uma necessária reflexão sobre os perigos inerentes à condução, o programa primava pela dureza das imagens e por se focar mais nas questões de segurança e menos na análise das características técnicas deste ou daquele veículo.

Jeremy Clarkson, Richard Hammond e James May

Jeremy Clarkson, Richard Hammond e James May

Tudo isso mudou com o passar dos anos e é neste segundo ponto que reside agora o foco dos programas automobilísticos, muitos deles chamarizes mais ou menos discretos para a aquisição deste ou daquele produto. E, no entanto, há efetivamente alguns programas que merecem ser vistos, ou simplesmente descobertos. “Top Gear” foi uma lenda nesta matéria e, não contente com isso, deu origem a outra lenda. Sem precisar de garagens sujas, carros ferrugentos, restaurações cabotinas ou mecânicos cobertos de viscosidade.

Criado em 2002 por três loucos mosqueteiros do reino das máquinas, o programa que ainda habita as antenas da BBC (já sem os seus criadores) tornou-se uma referência à escala planetária do que deve ser um programa automóvel. Claro que o carisma da tripla de apresentadores bem como a loucura orçamental da produção tiveram um contributo decisivo para o sucesso planetário do programa: 200 países e territórios exibiram, parcial ou totalmente, as temporadas de “Top Gear”. Jeremy Clarkson, Richard Hammond e James May são os nomes mais notórios (“notorious”, dirão alguns espectadores) deste “remake” de um original surgido em 1977.

O grande trunfo do programa é a ousada originalidade que os anfitriões usaram para dar conta de várias análises muitas outras considerações sobre todo o tipo de automóveis e não só. Para a história do programa e da televisão fica uma corrida entre vários tipos de autocarros (o clássico com primeiro andar tombou na primeira curva), o lançamento de um Mini numa pista de saltos de esqui ou o teste a um Skoda que andou com um helicóptero no tejadilho. Por causa destas e de outras, a BBC foi inundada com a indignação de muitos espectadores, atónitos e contestários do dinheiro gasto em loucuras que mais pareciam caprichos dos três apresentadores. Acresce a este facto o murro dado por Jeremy Clarkson a um dos produtores da série em 2015, que veio acelerar o processo da sua exoneração do programa e dos quadros da televisão britânica. Para os amantes da série, foi um duro golpe que tentaram a todo o custo evitar com a massiva quantidade de correio eletrónico, tradicional e através de telefonemas que não deram descanso ao “board of governors” da BBC. Ganhou a televisão a contenda, perdeu a televisão as audiências, pois que o novo quadro de apresentadores de “Top Gear” não conseguiu cativar o público de forma tão eloquente quanto haviam feito os seus antecessores.

Jeremy Clarkson, BBC

Porque com a saída de Clarkson saíram os outros dois compinchas que haviam de voltar a reunir-se para uma nova série de programas, desta feita para uma plataforma de streaming. Chama-se “The Grand Tour” e é feita sob a chancela da Amazon. Estreada em 2016, é absolutamente imperdível desde então. Quem subscreveu o serviço Prime da Amazon tem as temporadas disponíveis sem restrições. Quem não for subscritor, pode sempre recorrer às notícias e vídeos que na vastidão da net disponibilizam o possível sobre o programa que estagnou na terceira temporada, também ele afetado pela pandemia da covid-19.

Seja como for, se puder não perca pelo menos o início do programa inaugural de “The Grand Tour”, e não se assuste: mesmo que o mundo automóvel não seja a sua praia, caro leitor ou leitora, aqui o que menos importa são os carros e mais um modo absolutamente genial de fazer televisão. Ou seja, seguir o rasto deixado por três loucos do volante que fazem parecer “Velocidade Furiosa” aquilo que realmente é...