Guerra Rússia-Ucrânia

Cinco perguntas e respostas para perceber o conflito entre Rússia e Ucrânia

23.02.2022 07:16

KIEV, UKRAINE – FEBRUARY 5: An aerial view shows members of Ukrainian army reserve forces train civilians on regional defense methods in response to the conflict circumstances in Kiev, Ukraine on February 5, 2022 (Photo by Ali Atmaca/Anadolu Agency via Getty Images)

O envio de tropas para as fronteiras da Ucrânia fizeram soar o alarme no Ocidente. Como chegamos até aqui e que poder militar têm os dois países em caso de invasão?

A tensão entre a Ucrânia e a Rússia tem vindo a aumentar de dia para dia. Vladimir Putin teve a autorização do Senado para enviar tropas russas para fora do país. O Ocidente respondeu com sanções e os EUA ordenaram uma nova movimentação de tropas para o Báltico.

Importa saber como chegamos até aqui, quais as motivações de Putin, o que se passou nos territórios separatistas pró-russos e qual o poder militar dos dois países.

Porque é que Putin enviou militares para a fronteira?

Desde o fim da Guerra fria, a NATO expandiu-se para o Leste, incorporando 14 novos países, entre os quais três países do antigo Pacto de Varsóvia, a República Checa, Hungria e Polónia, e outros três que fizeram parte da União Soviética – a Lituânia, Estónia e Letónia. 

A Rússia olhou para a adesão desses países, alguns cujos territórios são contíguos à Rússia, como pode ver no mapa, como um perigo iminente às suas fronteiras. 

A Ucrânia não é membro da NATO, mas tem um compromisso desde 2008 para uma possível adesão. Desde a queda do Presidente ucraniano pró-Rússia Víktor Yanukóvytch, em 2014, a Ucrânia aproximou-se politicamente do Ocidente. Realizou exercícios militares conjuntos com a NATO e recebeu armas dos Estados Unidos e drones da Turquia. 

Kiev e os EUA olham para estas manobras como movimentos legítimos para reforçar a defesa da Ucrânia depois da crise da Crimeia em 2014. No entanto, Putin vê com perigo a aproximação da Ucrânia à NATO. Segundo o Presidente russo, a NATO pode usar o território ucraniano para atacar Moscovo e, por isso, tem defendido linhas vermelhas para evitar um ataque.

Foi com base nestes argumentos que Putin enviou milhares de militares para a fronteira entre os dois países, negando, contudo, estar a preparar uma invasão à Ucrânia. O Presidente russo alegou que o posicionamento das tropas russas é uma resposta a ameaças e provocações. Vladimir Putin quer garantir que a Ucrânia não adere à NATO. 

Os Estados Unidos estimam que, neste momento, a Rússia tem provavelmente entre 169.000 e 190.000 soldados destacados dentro e junto à fronteira da Ucrânia. 

O que pode ter motivado Putin a avançar agora?

Putin, que chegou a chamar à dissolução da União Soviética a maior catástrofe geopolítica do século passado, dedicou a sua Presidência a restaurar a influência de Moscovo em todo o espaço pós-soviético, desafiando o Ocidente e tentando reafirmar a Rússia como uma potência global. 

As declarações públicas de Putin sobre a Ucrânia sugerem que as suas ações não são apenas motivadas por jogadas políticas, mas também por convicções pessoais. A Ucrânia esteve envolvida nos pontos altos e baixos da Presidência de Putin – as revoluções pró-ocidentais em 2004 (as chamadas “revoluções coloridas”) e 2014 (com a queda do Presidente ucraniano pró-russo) foram golpes nos interesses russos, mas a tomada da Crimeia foi apresentada por Putin como uma vitória histórica. 

Após 22 anos como líder da Rússia, alguns analistas acreditam que Putin pode estar a refletir sobre o seu legado e a tentar fechar assuntos inacabados com a Ucrânia.

O que se passa em Donetsk e Lugansk?

O Presidente russo assinou esta segunda-feira um decreto a reconhecer a independência de duas regiões separatistas no leste da Ucrânia – Donetsk e Lugansk, conhecidas como Donbass. Estas regiões proclamaram-se como repúblicas independentes em 2014 e romperam com o controlo do governo ucraniano. 

Desde então, a Ucrânia diz que que cerca de 15.000 pessoas foram mortas em combates nestes territórios, com os separatistas a serem apoiados pelo regime de Moscovo. Também a Organização das Nações Unidas (ONU) reiterou que o conflito já custou 13 mil vidas, entre as quais mais de três mil civis. 

(Photo by ANATOLII STEPANOV/AFP via Getty Images)

A Rússia nega, no entanto, fazer parte do conflito, mas tem apoiado os separatistas de forma secreta com equipamento militar, ajuda financeira, emissão de passaportes e até com vacinas anti-covid-19. 

Esta foi a primeira vez que a Rússia não considerou Donbass como parte da Ucrânia. 

As agências internacionais avançaram que tropas russas entraram, esta segunda-feira à noite, em Donbass. Os decretos assinados pelo Presidente da Rússia ordenam a mobilização do Exército para os territórios separatistas pró-russos no leste da Ucrânia para uma “manutenção da paz”.

Putin já tinha reconhecido a independência de duas regiões separatistas da Geórgia – Abkhazia e Ossétia do Sul -, depois de travar uma curta guerra com o país em 2008. O Presidente russo forneceu amplo apoio financeiro às regiões e estendeu a cidadania russa à população. 

Como é que as sanções podem atingir a Rússia?

Esta terça-feira, o Presidente dos Estados Unidos anunciou sanções à Rússia. Joe Biden informou que irá aplicar sanções à Rússia e às elites políticas russas, que vão “mais além do que os aliados implementaram em 2014”, para além do bloqueio do gasoduto Nord Stream 2, decidido em conjunto com a Alemanha. 

O Reino Unido deu o pontapé de saída: cinco bancos russos (Rossiya, IS Bank, General Bank, Promsvyazbank e Black Sea Bank) serão alvo de sanções. O Banco Rossiya já está sob sanções dos EUA desde 2014 pelos seus laços estreitos com funcionários do Kremlin. 

Na mira dos britânicos estão também três oligarcas russos. Gennady Timchenko e os bilionários Igor e Boris Rotenberg, cujas fortunas cresceram vertiginosamente após a ascensão de Putin no poder, também vão ser alvo de sanções. Os três homens já são sancionados pelos EUA. 

A União Europeia também já deu o aval final à lista de sanções europeias à Rússia, após o reconhecimento russo de territórios separatistas no leste ucraniano, anunciou a presidência francesa do Conselho.

Em concreto, as sanções aprovadas abrangem 27 indivíduos e entidades dos setores político, militar, empresarial e dos media, além de cerca de 350 membros da câmara baixa do parlamento russo (Duma). 

No que toca às sanções financeiras, preveem-se restrições às relações económicas da UE com as duas regiões separatistas, de Donetsk e Lugansk, bem como limites à capacidade de o Estado russo aceder aos mercados de capitais e financeiros da UE, especificou Josep Borrell.

(AP)

O Canadá também já anunciou uma “série” de sanções. Irá proibir os cidadãos de realizarem quaisquer transações para os territórios separatistas pró-russos, irá impor sanções aos parlamentares russos que votaram a favor da “decisão ilegal de reconhecer os territórios” e irá proibir a população de participar em compras de dívida russa.

Qual é o poder militar russo em relação ao da Ucrânia?

As Forças Armadas da Ucrânia estão em grande desvantagem numérica em relação à Rússia. No entanto, os especialistas militares acreditam que as forças ucranianas seriam capazes de resistir e inflingir baixas se a Rússia decidisse invadir o país. 

O exército da Ucrânia está mais equipado e bem treinado do que em 2014, altura em que a Rússia capturou a península da Crimeia da Ucrânia sem luta. Os soldados ucranianos também são vistos como altamente motivados para defender o coração do país. 

De acordo com dados do IISS, Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, a Rússia tem 900 mil militares ativos, enquanto a Ucrânia conta apenas com 196 mil militares. 

Também na Marinha, há uma desequilíbrio entre os dois países. A Rússia conta com 74 navios de guerra e 51 submarinos. A Ucrânia tem apenas dois navios de guerra. 

Relativamente à Força Aérea, Putin tem ao seu dispor dez vezes mais aviões de tanque e helicópteros do que a Ucrânia. 

Na reserva – aqueles que receberam treino militar nos últimos cinco anos – a Ucrânia tem 900 mil militares e a Rússia tem dois milhões. 

Segundo a Sky News, alguns analistas acreditam que um ataque russo à Ucrânia aconteceria com armamento de longo alcance. E, mais uma vez, a Rússia tem vantagem: o país tem mais de 500 lançadores de mísseis balísticos. 

Vários países da União Europeia, Estados Unidos e Reino Unido têm fornecido ajuda militar e armas à Ucrânia para melhorar a sua “capacidade defensiva”.

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