Guerra Rússia-Ucrânia

“É a Energia, Idiota!”

24.05.2022 11:13

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A guerra evidenciou o quão dependentes estamos dos combustíveis fósseis e de como tudo gira à volta da segurança energética. Qualquer um dos países que ficou à mercê dos gasodutos e dos navios cargueiros russos gostaria de poder ter a alternativa renovável ao seu dispor, mas a realidade conta outra história – a que o fruto que estava ao alcance já foi apanhado.

Durante a campanha eleitoral de Bill Clinton de 1992, o estratega James Carville cunhou a famosa expressão “It’s the Economy, Stupid” (É a Economia, Idiota), alertando o então candidato para a relevância incontestável da economia (e do seu implícito crescimento) na manutenção de qualquer sociedade que se queira funcional.  

Obviamente, não foram somente os americanos que foram seduzidos pelas promessas de crescimento económico, progresso e prosperidade para todos, num mundo cada vez mais interligado entre culturas e mercados, mais democrático e dominado pela quietude da Pax Americana. Na verdade, poderíamos facilmente alegar que esta é a mundividência que tem vindo a governar um número crescente de humanos, todos na expectativa que o amanhã seja mais benéfico que o presente.  

Porém, tal conjetura pressupõe não só que o planeta que habitamos seja ilimitado, como o coloca, justificadamente, à mercê de um capricho humano de soberania e pilhagem, se tal for indispensável para a preservação do projeto civilizacional. O busílis da questão é que já temos consciência da insustentabilidade da nossa civilização moderna, globalizada e complexa desde pelo menos o início da década de 70 quando o prestigiado estudo Os Limites do Crescimento (original Limits to Growth, 1972) foi publicado. Este eminente relatório teve como objetivo simular a interação entre o planeta e os sistemas humanos, ou seja, a análise das consequências do crescimento exponencial da economia e da população, face a um corpo celeste com recursos limitados.  

A conclusão do estudo foi que, sem alterações profundas à taxa de consumo de recursos materiais e energia, o resultado mais provável seria uma contração abrupta e incontrolável tanto da população como da capacidade industrial a partir da década vigente. Isto foi um balde de água fria numa época em que se acreditava devotamente nas noções de progresso e prosperidade, e se via o ser humano como uma presença inócua na imensidão do planeta. Na génese desta crença estava certamente a doutrina que a civilização humana do futuro seria sustentada por uma abundância de energia segura e barata. Bastará relembrarmos parte do discurso em 1954, do então chefe da Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos, Lewis Strauss, que disse: 

“As nossas crianças vão desfrutar de energia elétrica nas suas casas, muito barata para medir, e vão viajar sem esforço pelos mares e por baixo deles…” 

Atualmente, a conclusão do relatório parece trivial quando somos bombardeados diariamente por notícias que revelam a extensão da devastação do planeta pela mão humana. Contudo, o começo da década de 70 era uma época completamente diferente. O movimento ambiental estava a dar os primeiros passos, o crescimento populacional humano reafirmava-se como uma crise ecológica e existencial, e a noção dos riscos das alterações climáticas antropogénicas ainda estava a cerca de uma década de irromper para a esfera pública (Rich, 2018). 

Embora o estudo de Os Limites de Crescimento tenha sido recebido com grande alvoroço na altura do seu lançamento, este continuou a ser revisto ao longo das décadas, e as suas conclusões validadas por outros autores. Sendo que a premissa exposta pelo estudo sugere que o nosso projeto civilizacional é insustentável, será que todas os caminhos levam, consequentemente, ao colapso do mesmo?  

Figura 1: ‘Unfinished’. Fotografia por b&w/Cretense. 

A resposta parece ser que sim, e no âmago desse fenómeno está um fator que muitos de nós (incluindo eu próprio) se deram ao luxo de considerar trivial, numa era em que o recurso crítico que sustenta uma civilização está literalmente à distância de um clique.    

A energia está de volta ao menu    

Na edição de janeiro desta série de artigos para a SIC Notícias expliquei quais os elementos que considerava estarem na génese do colapso do nosso projeto civilizacional. Entre os mesmos, salientei que: este projeto ultrapassou os limites biofísicos do planeta e atingiu uma complexidade incomparável na história da nossa espécie, existem fatores persistentes que remetem culturas do passado para o esquecimento, mas com um impacto sem precedentes, a nossa resiliência para lidar com adversidades ambientais está cada vez mais reduzida, e existe uma relutância social e política em abandonar o status quo. Porém, nesta lista faltava uma peça determinante, a profunda – e amplamente discreta – dependência energética do nosso projeto civilizacional. 

No início do ano poderia ter sido perdoado por esta omissão, contudo, a invasão da Ucrânia no final de fevereiro lançou-nos para o que poderia ser descrito como um universo paralelo. Quase que parece irreal mas, em novembro de 2021, os líderes das maiores potencias económicas globais juntaram-se na Conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas (COP26) a exortar a abdicação dos combustíveis fósseis, e a célere adoção das alegadas alternativas renováveis. Um pouco por todo o mundo, muitos bateram palmas face a esta demonstração de liderança política, enquanto ativistas do clima se recusaram a classificar o encontro como uma vitória, declarando a conferência como um ‘falhanço’ e um “festival de greenwashing”.   

Figura 2 e 3: Líderes políticos na Conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas (COP26).

Mas isto foi no passado, hoje as circunstâncias são outras. Ou melhor dizendo, a guerra na Ucrânia fez com que o pano das promessas vácuas de ação climática finalmente caísse, revelando no processo, que a manutenção deste projeto civilizacional está intrinsecamente vinculada à vasta disponibilidade de combustíveis fósseis.  

Com a invasão russa de um país soberano a 24 de fevereiro, as consequências de uma economia globalizada começaram imediatamente a serem sentidas. As nações do mundo reagiram com uma multitude de objeções e resoluções, todavia, a que prometia ser infalível seria a imposição de sanções e embargos à exportação de petróleo russo (o país é responsável por cerca de 10% da produção global de petróleo). Sem embargo, paralelemente ao cenário em que a torneira fóssil da Rússia se fechava, também a nossa submissão energética ficava a descoberto (em média, a União Europeia depende de 25% de petróleo e 40% de gás russo).     

Decorridos quase seis meses desde que os líderes políticos faziam todo o tipo de promessas nos palcos da COP26, o desfecho não poderia ser mais improvável. Não só nenhum dos planos para redução de emissões se concretizou, como os próprios líderes, que asseguravam todo o tipo de transições audazes, são os mesmos que agora incitam maior produção e exportação de petróleo e gás para aliviar a insegurança energética da Europa. A título de exemplo, temos o Presidente dos Estados Unidos Joe Biden, ou o Primeiro-Ministro do Canadá Justin Trudeau – considerado por muitos, o poster-boy da ação climática, a nível político – a mostrarem onde as suas prioridades realmente se encontram. Para mais, até o próprio Primeiro-Ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que em novembro recebia os outros líderes em Glasgow, para a COP26, estava em março na Arábia Saudita a tentar avolumar a exportação de petróleo para as terras de Sua Majestade.   

Numa análise para a New Scientist (16 maio, 2022) relativa ao acompanhamento das promessas feitas pelos 196 países para “revisitar e reforçar” os planos de redução de emissões, têm sido muitas as vozes que denunciam a situação atual na Ucrânia como um evento “que tem sequestrado toda a atenção política de tudo o resto.” Ainda que o acompanhamento desta guerra esteja a ser incessante e excessivamente esmiuçado, a falta de ação nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), não pode ser atribuída somente a uma escassez de vontade política.

O que a guerra fez, na verdade, foi lembrarmos da forma mais visceral possível, que é a energia que governa o nosso projeto civilizacional, visto que: 

– Preços de combustíveis fósseis, incluindo o carvão, aumentaram; 

– A inflação persegue a economia mundial; 

Supply-chains globais estão sob stress adicional; 

– Mercadorias e bens em falta;  

– Insegurança alimentar e possível destabilização geopolítica devido ao aumento dos preços dos fertilizantes, profundamente dependentes do acesso ao mercado fóssil da Rússia. 

Contudo, perante todos os imbróglios energéticos que rodeiam esta guerra, tem havido um tema que subitamente se tornou bastante mais silencioso.   

A alternativa renovável 

Após quase três décadas de crescimento a dois dígitos e incansável apoio promocional, os números revelam que, em 2020, as alternativas eólicas e solar, em conjunto, forneciam apenas cerca de 4.2% da energia global primária, e cerca de 9.1% de eletricidade. Em contraste, para o mesmo ano, os combustíveis fósseis foram responsáveis por 85-83% da energia global primária e cerca de 61% de eletricidade.

A figura 4 revela, até ao ano 2019, a percentagem de energia primária cedida por combustíveis fósseis (linha laranja), contraposta pela minha preta que representa o apetite anual crescente de barris de petróleo.  

Figura 4: Fatia global de energia fornecida por combustíveis fósseis e aumento gradual da quantidade de combustíveis fósseis usados todos os anos. Gráfico por Barry Saxifrage, 2019.  

Pretendo com isto clarificar um aspeto fundamental. Qualquer plano que contemple uma transição energética para ir ao encontro dos objetivos recomendados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (em inglês, IPCC), terá uma tarefa absolutamente quixotesca pela frente. A substituição de somente 50% da fatia de eletricidade de origem fóssil por alternativas renováveis até 2030 (o que significaria um aumento de quase 40% face a 2020 – contabilizando eólica e solar), exigiria que a humanidade replicasse todo o inventário existente a nível mundial de painéis solares e quintas eólicas, e que o multiplicasse todos os anos cerca de +/- 1.1 vezes até 2030. Agora repitam todos os anos até 2050.  

A língua inglesa tem uma expressão muito interessante para descrever os obstáculos que se colocam diante desta transição energética. Chamam-lhe começar por apanhar a low-hanging fruit, o que se pode traduzir por começar por aquilo que é fácil de obter ou atingir. Em outras palavras, quer dizer que apanhámos a fruta que estava dentro de alcance e, agora, se quisermos mais, vamos ter de nos esforçar para a alcançar.  

Esta é uma analogia adequada ao nosso panorama energético. A guerra evidenciou o quão dependentes estamos dos combustíveis fósseis e de como tudo gira à volta da segurança energética. Qualquer um dos países que ficou à mercê dos gasodutos e dos navios cargueiros russos gostaria de poder ter a alternativa renovável ao seu dispor, mas a realidade conta outra história – a que o fruto que estava ao alcance já foi apanhado. Restam agora os sectores ou atividades mais impraticáveis de serem eletrificados, o que inclui o transporte aéreo e marítimo; processos industriais que requerem elevadas temperaturas e a substituição de maquinaria pesada por equivalentes elétricos, entre outros fatores.  

Evidentemente, tudo isto tem de acontecer num planeta finito, onde teremos cerca de 2,000,000,000 humanos adicionais e um aumento da procura energética de aproximadamente 50% em menos de 30 anos. Para além do incalculável dano ambiental devido à expansão industrial de mineração/fundição necessária para sustentar a transição verde, a qual, ironicamente, continua a ser assustadoramente dependente de combustíveis fósseis para processos de mineração, refinamento, manufatura, instalação, operação, desativação e reciclagem.   

Abreviadamente, este projeto civilizacional foi erguido com combustíveis fósseis, e muito provavelmente não poderá ser mantido sem os mesmos. Isto deixa-nos num dilema. O nosso projeto civilizacional (e todos nós por extensão), estamos completamente viciados em energia abundante e barata, essencialmente de fontes fósseis, e o seu uso irá, inevitavelmente, alterar as condições de habitabilidade do planeta, através da alteração da composição da atmosfera e dos oceanos. Para evitar um desastre climático seria necessário o abandono destes combustíveis fósseis. Porém, como enunciei, não só as alternativas renováveis não são um substituto à altura, como estão inerentemente dependentes dos mesmos combustíveis fósseis, e a sua promoção à escala já pode ser vista como o presságio de uma calamidade ecológica. Para piorar as coisas, as alterações climáticas nem sequer são o nosso maior problema ambiental, são somente um sintoma daquilo a que se chama overshoot (sobrecarga em inglês), mas isso é tema para outro dia. 

Como estudo o colapso de sociedades do passado e os limites da sustentabilidade do nosso projeto civilizacional, as pessoas costumam perguntar-me o que o futuro terá reservado para nós. Embora todo o processo seja convoluto e profundamente complexo, a hipótese que prevejo ser mais plausível não poderia ser mais clara. Este projeto civilizacional é insustentável e irá colapsar. O que isto significa é que a nossa adição energética não poderá ser mantida em perpetuidade, e o futuro só poderá ter um desenlace credível. Vamos ter de nos habituar a um futuro com reduzida disponibilidade energética, o que é o mesmo que dizer que vamos retroceder o nosso relógio civilizacional para tempos em que a humanidade habitava este planeta sem o uso de combustíveis fósseis e com uma menor pegada antropogénica.  

Como se tornou claro nos últimos meses, é de facto a energia que sustenta tudo aquilo que viemos a conhecer e sem uma abundância da mesma, tudo irá mudar.   

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