Guerra Rússia-Ucrânia

A história das cinco regiões ucranianas que a Rússia anexou

Cerimónia de anexação de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia.
Cerimónia de anexação de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia.
SPUTNIK

Primeiro foi a Crimeia, em 2014. Este ano, há mais quatro regiões a serem anexadas pela Rússia: Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia.

Da região industrial do Donbass (nordeste) até à península da Crimeia (sul), a Rússia anexou até agora total ou parcialmente cinco regiões da Ucrânia, após referendos ilegais condenados pela comunidade internacional.

Eis alguns elementos essenciais sobre essas zonas ocupadas, que representam 19,4% do território ucraniano, 11,9% dos quais conquistados desde a ofensiva russa lançada a 24 de fevereiro, de acordo com as estimativas do grupo de reflexão norte-americano Institute for the Study of War (ISW, Instituto para o Estudo da Guerra).

Donetsk e Lugansk

Estas duas regiões maioritariamente russófonas formam o Donbass, a bacia industrial da Ucrânia.

Entre 2014 e 2022, um conflito que fez dezenas de milhares de mortos, entre militares e civis, ali opôs as tropas ucranianas às dos separatistas pró-russos lideradas por Moscovo.

Em fevereiro de 2022, o Presidente russo, Vladimir Putin, reconheceu a independência dos separatistas, que controlavam então 3% do território ucraniano, e justificou a invasão de 24 de fevereiro com a necessidade de salvar populações russófonas de um alegado genocídio.

A região de Lugansk tinha, antes da guerra, cerca de 2,1 milhões de habitantes. Faz fronteira por três lados com a Rússia e, segundo o ISW, mais de 99% do seu território está sob controlo de Moscovo, desde a ofensiva russa da primavera e do início do verão.

Das quatro regiões onde se realizaram falsos referendos nos últimos dias, Lugansk é aquela onde o controlo russo é maior, mas obtido à custa de pesadas baixas militares.

Desde que começou a contraofensiva ucraniana, no início de setembro, libertando uma grande parte da região vizinha de Kharkiv, as forças ucranianas estão também a tentar recuperar terreno em Lugansk.

Donetsk, a região vizinha, tinha 4,1 milhões de habitantes antes da guerra e a sua capital, com o mesmo nome, é terceira maior cidade do país.

Antes da invasão russa, cerca de metade da região estava sob controlo separatista. Atualmente, cerca de 58% do território é controlado por Moscovo e seus aliados, nomeadamente a cidade portuária de Mariupol, devastada por um cerco de quase três meses e pelos bombardeamentos das forças russas.

Os combates prosseguem na região, e a Ucrânia registou ali avanços em setembro.

Zaporijia

É nesta região banhada pelo mar Negro, que antes da guerra tinha 1,63 milhões de habitantes, que se situa a maior central nuclear do país e da Europa, sobre o rio Dniepr.

Segundo o ISW, 72% da sua superfície estão ocupados por Moscovo e sua administração militar.

A maior cidade da região, também chamada Zaporijia, está sob o controlo das forças ucranianas, mas o seu maior porto, Berdiansk, está nas mãos da Rússia.

A gigantesca central nuclear que ali existe foi tomada pelo exército russo em março. Desde então, as duas partes no conflito acusam-se mutuamente de bombardear as suas imediações correndo o risco de causar uma catástrofe nuclear. Os apelos para desmilitarizar a zona têm-se multiplicado, até agora sem êxito.

Inspetores da Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA) encontram-se no local desde o início de setembro.

Kherson

Cerca de 88% desta região, a mais a ocidente da área da Ucrânia controlada por Moscovo, e a sua capital com o mesmo nome, ficaram sob controlo russo logo nos primeiros dias da guerra.

A região, muito importante para a agricultura ucraniana, é estratégica para Moscovo, porque faz fronteira com a península da Crimeia, que a Rússia anexou em 2014.

A sua conquista, associada à das áreas costeiras de Zaporijia e Donetsk, permitem à Rússia formar uma continuidade territorial entre todas as regiões que controla na Ucrânia e o território russo propriamente dito.

A Ucrânia está ali a realizar uma contraofensiva e reivindicou alguns êxitos nos últimos meses. Conseguiu, nomeadamente, danificar pontes sobre o Dniepr junto à cidade de Kherson, para cortar as linhas de reabastecimento das forças russas.

Além disso, os atentados visando responsáveis russos e pró-russos aumentaram e alguns deles mataram os respetivos alvos.

Crimeia

Anexada pela Rússia em 2014, após um referendo considerado ilegal pela Ucrânia e pelo Ocidente, esta península turística e vinícola envenenou as relações entre Kiev e Moscovo desde o desmoronamento da União Soviética, em 1991.

Com uma população maioritariamente russófona, a Crimeia tinha sido "dada" em 1954 à Ucrânia soviética por Nikita Khrushchev, então líder do Kremlin, ele mesmo de origem ucraniana.

Mas a 27 de fevereiro de 2014, um comando pró-russo tomou o parlamento local, onde deputados convocados à pressa elegeram um governo favorável a Moscovo.

A 16 de março de 2014, num pretenso referendo condenado pela comunidade internacional, 97% dos habitantes da península pronunciaram-se "a favor" da sua anexação à Rússia, segundo Moscovo. A anexação foi ratificada dois dias depois por um tratado rubricado pelo Presidente russo, Vladimir Putin.

Desde 2014, muitos críticos da Rússia foram presos na Crimeia.

Dos seus dois milhões de habitantes, 59% são russos, 24% são ucranianos e 12% são tártaros, uma comunidade de tradição muçulmana ali estabelecida desde o século XIII.

Ao retomar a Crimeia -- que representa 4,5% do território ucraniano -, a Rússia recuperou também o grande porto de Sebastopol, onde tivera a sua frota militar fundeada desde o século XVIII e que lhe oferece uma porta de saída para o mar Negro e, através dele, para o Mediterrâneo e o Médio Oriente.

Desde maio de 2018, a península foi religada à Rússia continental pela ponte de Kertch, com 19 quilómetros de comprimento.

Usada como base de retaguarda logística pela Rússia e durante muito tempo distante dos combates, a Crimeia tem sido, desde agosto, alvo de várias explosões em aeródromos militares e paióis de munições, ataques que a Ucrânia admitiu em seguida ter realizado.

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