Histórias de 28mm

A vida a 8 km/h

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

Quando vi este veículo elétrico que circulava à minha frente, achei-o demasiado pequeno para uma estrada tão grande. Mas foi quando o ultrapassei, que tive a certeza de querer saber para onde ia no seu passo lento, o Rui. Peguei na 28mm e fui ter com ele.

Rui Caria

Rui Caria

Natural da freguesia da Serreta, na Ilha Terceira, o Rui Fagundes nasceu há 42 anos com nanismo e diversas complicações nos ossos, que os tornavam frágeis e lhe limitavam as brincadeiras com os seus amigos. "Sempre andei devagarinho e com cuidado, mas agora, depois de ter caído na cozinha, preciso de ajuda para caminhar".

A queda que sofreu, em Março do ano passado, fez com que o Rui tivesse de ficar deitado durante dois meses depois da operação à coluna, perdendo quase toda a massa muscular, de tal forma, que deixou de ter força para pegar na colher da sopa. Quase lhe faltaram as forças para falar.

O carro que conduzia até ao outro lado da ilha, para ir trabalhar todos os dias, está parado na garagem da casa dos pais onde vive. "Eu era assistente operacional numa escola secundária da Praia da Vitória. Fazia todos os dias 66 kms; agora estou de baixa e nem consigo conduzir".

Rui Caria

Rui Caria

"Eu tocava na mais antiga filarmónica da ilha". Toca trompa desde os 21 anos, participou em danças de carnaval e diz, apesar das limitações físicas, que nunca sentiu falta de nada.

"Tirei o 12º ano e podia ter ido para a universidade, mas não gostava muito de estudar, e ir para fora, para Lisboa, assim, para estar sempre a precisar de ajuda... deixei-me ficar."

Rui Caria

O Sr. Manuel e a Dona Maria correram a mostrar as fotografias de quando o Rui era mais jovem.

"Vê? Até aos nove anos andava bem, mas depois começou a ficar fraquinho dos ossos e tínhamos de ter muito cuidado porque estava sempre a partir alguma coisa", refere o pai do Rui, ao mesmo tempo que mostra saber de cor todas as vezes que se deslocou ao continente numa busca sem grandes resultados pela cura para o seu filho. "Foram 12 vezes, e uma ao Canadá".

Rui Caria

Rui Caria

Rui Caria

Enquanto espera pacientemente pela recuperação que sabe ser demorada, o Rui divide o corpo com as diversas próteses que ainda o mantêm de pé. Partilha os movimentos com um andarilho, umas muletas e o pequeno carro eléctrico. Reparte a vida pelos dias em casa, no seu tablet, a ver os amigos virtuais, e pelas idas à sociedade da freguesia para encontrar os amigos reais, numa volta de 8 kms que lhe custa uma hora de caminho.

E como a lonjura cresce para quem anda devagar, o Rui, na sua pequena "mota", como lhe chama, garante que só se faz à estrada se estiver um dia de Sol.

Rui Caria

  • Há quem espere mais de um ano para conseguir vaga no SEF
    5:06
  • “Este despacho não é sobre casas de banho, é sobre pessoas”
    13:47