Histórias de 28mm

"Sou da família, como os outros"

Rui Caria

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Repórter de imagem/ Fotojornalista

A Luísa pediu ajuda a uma vizinha que tinha uma máquina de lavar "dos americanos" capaz de dar a volta ao grande edredão que não cabia na sua máquina de tamanho regular. Nesse dia, há 24 anos, enquanto esperava pela lavagem da peça, uma prima abeirou-se dela, ainda em casa da vizinha, e entregou-lhe a pequena Cristina. "Pega lá que ela é tua".

"Para encontrar a dona Luísa, basta perguntar a alguém do bairro, que toda a gente a conhece." Assim me foi dito e assim aconteceu. Bastou perguntar; era mesmo ali que morava a mulher que todos conheciam naquele bairro social da Praia da Vitória, na Ilha Terceira.

Rui Caria

Durante toda a vida, a par do emprego na doca, Luísa Lima cuidou das crianças que lhe eram entregues por mães desesperadas. "Gostava de ter muito, para poder dar muito; porque não hei-de levar nada para a cova". Disse e repetiu várias vezes durante a nossa conversa, deixando revelar uma vontade de ajudar ainda em estado puro.

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Aos 66 anos e reformada, Luísa tem a casa cheia de esperança, nas crianças e jovens que guarda e cuida desde que se lembra. Ainda consegue fazer a conta aos dozes filhos, mas quando fala dos netos e bisnetos... "Aí Senhor, são tantos que nem sei...".

Perdida nas contas, nunca perdeu o ânimo, mesmo quando alguns dos seus filhos sairam de casa e lhe deixaram os filhos deles para ela cuidar; "foram ficando aqui e eu fui tratando deles, eram os meus netos". Hoje, vivem seis pessoas com ela; netos, bisnetos e uma jovem adulta, que foi lhe foi deixada pela mãe quando tinha apenas quatro meses de vida.

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A Luísa pediu ajuda a uma vizinha que tinha uma máquina de lavar "dos americanos" capaz de dar a volta ao grande edredão que não cabia na sua máquina de tamanho regular.

Nesse dia, há 24 anos, enquanto esperava pela lavagem da peça, uma prima abeirou-se dela, ainda em casa da vizinha, e entregou-lhe a pequena Cristina. "Pega lá que ela é tua".

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O tempo foi passando e nas voltas dos tribunais, nove anos depois, foi decidido que a menina deveria voltar à mãe biológica, que, porém, achou que a criança estaria melhor aos cuidados da prima Luísa, e desistiu do resto da infância da pequena Cristina.


A jovem de 24 anos, que já tem uma filha com quatro meses, a mesma idade que ela tinha quando foi entregue à Luísa, garante que esta é a sua mãe de sempre e para sempre. "Não sinto nada, não guardo rancores e não tenho curiosidade de conhecer melhor a outra senhora. Sinto-me bem aqui, sou da família, como os outros".

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