Histórias de 28mm

"Basta"

Rui Caria

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

A São, como gosta de ser tratada, vive na Ilha Terceira desde os seus 19 anos, altura em que casou; altura em que começou "o terror".

Fala de anos de violência física, mas foi, sobretudo a psicológica, aquela que deixou as grandes marcas. Passou por todas as fases que passam todas as mulheres vítimas de violência doméstica. A pancada e a reconciliação, que antecediam mais pancada e mais reconciliações de prazos cada vez mais curtos.

Rui Caria

Com dois filhos, aguentou tudo por eles."Ia ficando por causa dos meus filhos, tinha sonhos para eles. A estabilidade financeira que ele me proporcionava fez-me aguentar até os meus filhos estarem encaminhados".

Foi depois dos filhos estarem na faculdade que tomou a decisão de deixar o marido e a vida já desgastada dela própria; "basta", disse, num dia de Agosto de 2008, quase trinta anos depois de ter casado.

Rui Caria

Tentou matar-se e esteve três dias desaparecida, adormecida pela dose de analgésicos que tomou em busca da morte que não lhe chegou; chegou-lhe a força de querer libertar-se e libertou-se.

"Ninguém se deve entregar assim a outra pessoa. Temos de ser positivas e ter muita resistência e força, para continuarmos a nossa vida", refere, no olhar baço de quem lembra um passado triste por ser violento.

Rui Caria

Rui Caria

A São desdobra-se em conselhos para as outras, as que ainda não foram capazes de se libertar. Mas não as julga, porque sabe o que passou e como foi difícil tomar a decisão que a levou à alegria e felicidade que sente agora.

"Devemos ver sempre a luz ao fundo do túnel; ela está lá". Está lá, mesmo que ténue; a prova é a São e todas as que são capazes de um dia dizerem: basta.