Histórias de 28mm

"Você não pode andar por aí sozinho, e tem de esconder a câmara"

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

O aviso foi feito por uma associação de ajuda à Cova da Moura. Vinte anos depois, ninguém imaginava que o Rui Palha era conhecido por todos; não apenas conhecido, mas respeitado e acarinhado.

Rui Caria

Fotografa a Cova da Moura, na Amadora, há cerca de vinte anos. "Você não pode andar por aí sozinho, e tem de esconder a câmara", disseram-lhe os responsáveis por uma associação de apoio do bairro, que não imaginavam, naquele dia, que vinte anos depois, o Rui Palha, era conhecido por todos; não apenas conhecido, mas respeitado e acarinhado.

"Andei com muitos destes miúdos ao colo, quando cá vinha fotografar. Alguns não se lembram de mim porque eram muito pequenos. Eu, lembro-me de todos".

Rui Caria

Rui Caria

O facebook enviou-lhe uma mensagem a perguntar-lhe se ele era um robô ou uma pessoa. Tinha mais de 340 mil seguidores na sua página de fotografias e por isso, teve direito ao selo azul de verificação de conta daquela rede social.

O Rui Palha fotografa as ruas de Lisboa e do mundo, por puro prazer. É cuidadoso com as pessoas e tem sempre uma palavra antes de apertar o botão que irá espelhar para sempre um rosto, ou uma ação.

Fotografa a preto e branco, sempre. Se lhe perguntamos porquê, esperando uma explicação inspiradora, diz, desconcertantemente, que nunca pensou nisso. As respostas simples ajudam a perceber uma pessoa completa, quer na sensibilidade estética, quer na atitude para com os outros.

Rui Caria

Volta à Cova da Moura com frequência para ver os amigos e fotografar todos, e são muitos, os que lhe pedem um retrato.

O carro pára de dez em dez metros para poder responder a todos os cumprimentos que são gritados dos rebatos das portas ou de dentro dos cafés. "Sinto-me em casa aqui", diz com a voz trémula por ouvir como falam dele estas pessoas que parecem falar com o coração.

O Rui não é só um fotógrafo de referência, mas um humanista, que tem o cuidado de entregar a todos, os retratos que lhes tira. "Aos mais novos, envio por email. Aos mais velhos, a maior parte sem acesso à internet, imprimo e venho cá entregar".

Rui Caria

Rui Caria

"Vêm cá muitos fotógrafos para fotografar e levarem qualquer coisa. Normalmente, passam uma imagem negativa do bairro; é a que vende. O Rui, não leva nada, pelo contrário, traz e gera sorrisos nos mais velhos quando se veem nos retratos".

Refere um dos moradores do bairro. Mas poderiam referir todos os moradores. A admiração pela atitude deste fotógrafo é transversal a todos.

Rui Caria

Ajudar a Cova da Moura a manter as tradições multiculturais dos seus habitantes com raizes em Cabo Verde, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, parece ser um dos principais objectivos deste fotógrafo que guarda um acervo fotográfico que já conta com dezenas de milhares de fotografias. Muitas nunca foram publicadas.

Outras, já figuraram em exposições dedicadas às diversas temáticas sociais.

De uma forma ou de outra, a entrada, há quase duas décadas, deste fotógrafo neste bairro problemático, foi como uma cortina que se abriu para relembrar ao país, através das imagens, que toda a cova tem um alto. E este, chama-se; o Alto da Cova da Moura.

  • Depressão é a doença mental mais frequente no país e afeta cerca de 400 mil portugueses
    3:23
  • Carro de Santana Lopes não tinha seguro?
    1:44