Histórias de 28mm

O que é receber em casa o Divino Espírito Santo?

Histórias 28mm

Rui Caria

Rui Caria

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Repórter de imagem/ Fotojornalista

Um trabalho de Rui Caria

O José Esteves, aos 25 anos, recebeu em casa o Divino Espírito Santo. O que é receber em casa o Divino Espírito Santo? "É, por algum tempo, ter uma casa cheia". Diz o José, emocionado pela força que tem esta tradição nele e na maior parte dos açorianos.

Não é exclusivo das ilhas, este culto dedicado à terceira pessoa da santíssima trindade. Ainda acontece também nalgumas regiões de Portugal continental, mas é nos Açores que ganha expressão maior.

Celebra-se de diferentes formas pelas nove ilhas e de tão antiga, a tradição foi levada, pelos emigrantes, aos Estados Unidos da América e ao Brasil. Onde há açorianos, há fé e devoção ao Espírito Santo.

Rui Caria

Na Ilha Terceira, o terço, reza-se todos os dias, durante uma semana, na casa que alberga a entidade divina.

Em forma de coroa prateada, colocada num altar na sala principal, o Espírito Santo permanece de domingo a domingo, altura em que será levado à igreja, para coroar o pagador da promessa.

"Ser coroado é o ponto alto desta celebração, é uma sensação que só quem já teve conhece. É difícil explicar", refere o José com os olhos brilhantes de plenitude e entrega ao costume que vem de longe.

Apesar de não ter feito nenhuma promessa, este jovem foi fazendo crescer o desejo de ter em casa o Espírito Santo: "porque há uns anos integrei uma comissão de festas e coloquei o pelouro, que é um pequeno papel com o meu nome escrito e que me dava a possibilidade, através de um sorteio, de "tirar" o Espírito Santo."

Rui Caria

O número de coroas que representarão o Espírito Santo em casa do "imperador", que é a pessoa a coroar, está relacionado com o número de criadores de gado, que todos os anos, criam, pelo menos um animal, para oferecerem nesta altura; a carne servirá para distribuir como esmola pelos mais necessitados e para um grande almoço que ditará a partida do Espírito Santo para a casa de outra família.

O José teve ofertas de dois criadores e do avô, que quis juntar mais uma vaca e um porco, para que nada faltasse aos mais de 400 convidados para o almoço de domingo, conhecido como "função".

Rui Caria

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"Temos sopas para mais de mil pessoas." Garante um dos familiares do jovem coroado, referindo-se ao almoço da "função".

O responsável por esta ementa tradicional é o "marchante", nome dado a quem parte a carne e cozinha as sopas de pão e couve, acompanhadas por grandes travessas com carnes variadas e enchidos.

O pão e a broa, que já esperam em cima das mesas, são ladeados pela massa sovada; bolo tradicional da ilha que serve de acompanhamento à alcatra, que é servida antes do arroz doce, que, por sua vez, anuncia o fim da refeição que nunca dura menos de duas horas.

Ninguém passa fome neste dia, por isso, faz-se comida a mais de propósito, para que outros, os que precisam, possam também ter um pouco mais de conforto nestes dias.

Rui Caria

A partida do Espírito Santo para a casa da próxima família, provoca saudade mas muita alegria, como explica o jovem José: "A casa parece que fica mais vazia, mas ao mesmo tempo estamos de coração cheio; é difícil de explicar, mas este é o efeito do Espírito Santo em nós".

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